quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Esporte no Brasil: Inversão de Prioridades e Oportunidades Perdidas


2011 será um ano marcado pelo ineditismo nos esportes individuais brasileiros. Inédito quarto lugar no mundial de esportes aquáticos, inédita medalha de ouro no mundial de atletismo e inédita medalha de ouro no mundial de remo. As vitórias de Cesar Cielo, Fabiana Murer e Fabiana Beltrame, mostram que a política esportiva (se é que podemos chamar assim) iniciada em 2003 finalmente começou a gerar frutos. Ainda assim sou muito mais favorável a uma política esportiva de massificação do esporte, do que uma focada em esportes de alto rendimento, como a atual.

Investimento em esporte de alto rendimento tem por objetivo exclusivamente fazer com que o Brasil tenha atletas, em várias modalidades, entre os melhores do mundo num espaço de tempo relativamente curto. Em suma, só há investimento naqueles atletas que, por algum milagre, já mostraram que são capazes.

Investimento em massificação do esporte significa investir para trazer diversas modalidades esportivas para o dia-a-dia da população em geral. Além de ser uma excelente opção de lazer, a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma, baseado em estudos feitos por ela, que para cada 1 dólar investido em esporte, você economiza 3 dólares em saúde, pois a pratica de esportes previne diversas doenças cardíacas, respiratórias, coronarianas, stress, entre outras, além de combater o sedentarismo. Muitas oportunidades econômicas e comerciais surgiriam a partir da popularização de outros esportes. Ademais, se você colocar uma população de 200 milhões, que tem uma grande variedade de biótipos (tem negro, branco, amarelo, baixo, alto, magro, robusto, etc.), no longo prazo, naturalmente surgirão inúmeros talentos e atletas de primeira qualidade capazes de competir com os melhores do mundo.

Na comparação entre os dois modelos de investimento, esporte de alto rendimento e massificação do esporte, é evidente que o primeiro é mais barato e tem um tempo de maturação menor, mas gera resultados restritos apenas à maior competitividade dos nossos atletas, podendo ser considerado apenas um paliativo, enquanto o segundo, apesar de mais caro e necessitar de mais paciência, gera resultados mais perenes e que se estendem, não só ao esporte de alto rendimento, mas à saúde, à qualidade de vida, ao lazer, a economia e até a mesmo à educação do país.

O investimento necessário no primeiro modelo envolve providenciar para nossos principais atletas: treinamentos no exterior, técnicos vitoriosos internacionalmente, equipamentos de qualidade, viagens e até alguma ajuda financeira. O segundo modelo exige a construção de milhares de praças e espaços públicos onde se possa exercer a prática esportiva, construir outras milhares de quadras e piscinas em escolas públicas e privadas, além de equipá-las adequadamente, e ainda investir na divulgação e incentivo à prática de esportes fora do mainstream (que no Brasil se resume a futebol, vôlei e basquete).

Esse último item é de fundamental importância. Apesar de já não podermos mais dizer, como há 20 anos atrás, que o Brasil vive uma monocultura do futebol, a atividade esportiva ainda é pouquíssimo diversificada. Já parou pra pensar quantos bons tenistas nós perdemos simplesmente porque a maioria esmagadora da nossa população nunca pegou numa raquete? E quantos bons jogadores de Rúgbi deixam de ser descobertos, simplesmente porque a maioria de nós se quer sabe o que é Rúgbi? Além disso, como foi mencionado, a diversificação esportiva gera diversas oportunidades econômicas e de lazer. Esse é um ponto central, a partir do momento que um esporte cai no gosto da população, ele não precisa mais de subsidio.

Hoje o Brasil tem uma boa seleção de ginástica olímpica, mas que é fundamentalmente mantida com dinheiro público e de algumas estatais, que bancam técnicos estrangeiros, equipamentos, viagens, etc. Sem esse dinheiro o nível da nossa seleção provavelmente seria menor. O ideal seria que a ginástica olímpica fosse um esporte popular, que lotasse ginásios e fosse transmitido pela TV, arrecadando verba de patrocínios e cotas de TV, e assim pudesse se pagar sozinho. Veja bem, na situação atual, em que nós temos material humano, mas não temos interesse publico e comercial, eu sou favorável que o governo dê subsídios, mas a questão deve ser trabalhada pra que no futuro haja mais interesse e o esporte se mantenha sozinho. E como podemos ter interesse num esporte que “só existe” nas olimpíadas, a cada 4 anos, que nós nunca praticamos, que nunca nós foi apresentado? Difícil de ter alguma empatia ou identificação. Dei o exemplo da ginástica olímpica, mas muitos esportes estão na mesmíssima situação (às vezes pior, sem subsidio publico).

Se aplicada de maneira seria e comprometida, uma política de massificação do esporte pode transformar um país, num espaço de uma geração (aproximadamente 20 anos), em uma potência olímpica, e o exemplo mais recente é a China, primeira colocada no quadro de medalhas em 2008. Alguns poderão argumentar que a China exerceu uma política mista, de massificação e de alto rendimento. Mas outros dois bons exemplos são Espanha e Austrália, que nos anos 80 tinham uma estrutura esportiva tão medíocre, ou até pior, que a do Brasil, mas investiram pesado em massificação do esporte e hoje são grandes celeiros de atletas. Lembrando que o democrático Brasil não tem tanta pressa para maturar seus projetos quanto à ditatorial China, que precisa fazer propaganda política pro mundo.

O Brasil é um país doido. De repente surge um Guga, tricampeão de Roland Garros, e melhor do mundo por quase um ano, sem que houvesse um trabalho sério para descobrir/treinar tenistas. Aparece uma Marta, eleita 5 vezes melhor jogadora do mundo, sendo que o futebol feminino é miserável e estigmatizado. Ou então um Cesar Cielo, que só conseguiu rentabilizar sua profissão depois de ser campeão olímpico. Material humano nós temos de sobra, falta recursos e vontade para descobri-los e lapidá-los.

E esse é o motivo pelo qual o Brasil não tem o direito de sediar uma olimpíada. O único país que sediou uma olimpíada sem ter uma grande tradição (multi)esportiva foi o México, em 1968. O Brasil será o segundo. O Brasil organizar uma olimpíada é igual ao Talibã organizar uma conferência sobre a paz. Nós corremos o sério risco de sermos o primeiro anfitrião olímpico na historia a não ficar entre os dez mais bem colocados no quadro de medalhas. Tem sentido gastar-se tanto em arenas esportivas que não terão uso após o evento? O Rio de Janeiro sediou o Pan em 2007, e o que ficou de legado para a cidade? Arenas esportivas caríssimas, agora sucateadas, sem uso. Algumas delas, como o velódromo e o complexo esportivo Riocentro, estão sendo usadas para eventos, como formaturas, e outras completamente abandonadas. Isso acontece porque o brasileiro se quer sabe o que é um velódromo. Em Barcelona, Atlanta, Sidney, Atenas ou Pequim, a população usufrui de todas as arenas construídas. Estamos invertendo as prioridades, de que adianta fazer belíssimos estádios e ginásios de nível internacional, se, segundo o IBGE, apenas 15% das nossas escolas públicas têm uma quadra.

Isso também responde a pergunta de porque nossos eventos esportivos dependem tanto de dinheiro do governo. Em países com tradição esportiva, a iniciativa privada tem participação substancial na construção das instalações esportivas. Faz acordos do tipo “Eu ajudo a construir, mas vou poder explorar a Arena pelos próximos 20 anos”. A empresa/empreiteira recupera o investimento cobrando aluguel nos próximos jogos/eventos esportivos que acontecerem no lugar nas próximas décadas. No Brasil isso não acontece pois não há perspectiva de retorno futuro. Uma empreiteira que tivesse construído o velódromo ou o estádio de baisebol para o Pan, teria tomado um prejuízo enorme.

A melhor coisa que o governo Lula fez pelo esporte, foi ter criado o Ministério dos Esportes, pois atividade esportiva é sim um tema central no desenvolvimento de um país, com desdobramentos em várias áreas. A pior coisa que o governo Lula fez pelo esporte, foi ter usado esse mesmo ministério como moeda de troca para fazer alianças políticas espúrias. Um ministro fraco como Orlando Silva, que só sabe adular e ceder às vontades dessa oligarquia de coronéis do esporte, não deveria exercer um cargo tão importante. Alias, impedir que coronéis do esporte, como Nuzman e Teixeira, se perpetuem no poder, deveria ser uma prioridade do ministério. Uma das únicas federações que tem um regime realmente democrático, e conseqüentemente gente comprometida com o esporte, é a federação de vôlei, e veja só que diferença...

Infelizmente, o esporte no Brasil é visto como algo supérfluo, e não é. Deveria ser visto como política de saúde publica, como qualidade de vida, como opção de lazer, como instrumento de ascensão social, como gerador de emprego e de oportunidades econômicas e comerciais. Deveria ser visto como um investimento de longo prazo para o desenvolvimento do país.