Se o desenvolvimento do Brasil no século XX pode-se ser
descrito em uma palavra, essa seria industrialização. Foi a industria o motor
dinâmico que tornou o Brasil um país urbano, que aumentou o padrão de vida da
população, e responsável pelas maiores taxas de crescimento econômico da
história do país.
O processo industrial brasileiro começou com Getulio Vargas
em 1930, incentivando a produção de bens de consumo (não-durável) para diminuir
a dependência externa do Brasil. Em 1956, com Juscelino Kubtschek, a
industrialização entrou numa nova etapa, a dos bens de consumo durável. Com os
militares veio a etapa derradeira, a dos bens de capital, processo que durou
até meados dos anos 80. O Brasil foi um dos primeiros países do hemisfério sul
a ter um parque industrial completo, com os 3 setores. Nesse período
(1930-1980) o Brasil cresceu em média 7% ao ano (Ipeadata).
Nos últimos 25 anos o Brasil vem sofrendo um processo de
desindustrialização. Isso não significa que a nossa indústria está produzindo
menos, e sim que a importância relativa da indústria dentro da nossa economia
está diminuindo. Em 1987 cerca de 40% do nosso PIB era proveniente da
indústria, ano passado essa participação chegou a 14% (IBGE). Nosso déficit
comercial na indústria está na casa dos US$100 Bilhões.
Mas porque a industria é tão importante se o superávit
gerado pelas commodities supre o déficit industrial e faz com que tenhamos um
bom resultado na Balança Comercial? Pra responder essa pergunta preciso antes
deixar claro duas coisas:
a) A economia é composta por 3 setores: agropecuária e extrativismo (primário), indústria (secundário) e serviços (terciário).
b)Valor econômico adicionado é o valor adicional que os bens e serviços adquirem em cada uma das etapas do processo produtivo.
a) A economia é composta por 3 setores: agropecuária e extrativismo (primário), indústria (secundário) e serviços (terciário).
b)Valor econômico adicionado é o valor adicional que os bens e serviços adquirem em cada uma das etapas do processo produtivo.
O setor de serviços pode ter pouca ou muita capacidade de
adicionar valor dependendo do perfil da economia em que está inserido, por isso
deixo ele de lado por enquanto e volto nele mais tarde. A agropecuária tem
baixíssimo valor adicionado por unidade, uma atividade que depende quase
exclusivamente da quantidade vendida, e não da qualificação técnica envolvida
no processo, portanto gera empregos não qualificados. Já a industria é a única
que necessariamente tem boa capacidade de adicionar valor, pois, além da maior
parte das etapas do processo produtivo estarem contidas nesse setor, por
essência ela transforma matérias-prima em produtos manufaturados, e por isso
necessita de profissionais mais qualificados. A diferença entre se especializar
em agropecuária e se especializar na indústria é a diferença entre vender
minério de ferro e vender Ipads.
Alguém poderá argumentar que o setor que
mais cresceu e se tornou hegemônico foi o de serviços e não o agropecuário, o
que é verdade. Mas é preciso pontuar algumas coisas:
Primeiro, o nosso superávit em Conta Corrente deve-se principalmente ao nosso saldo comercial em commodities e bens primários (nós não exportamos serviços), e à medida que uma nação enriquece (e isso é o que todos nós queremos para o Brasil) cresce a demanda por produtos industrializados, ou seja, no longo prazo teremos déficits cada vez maiores Balança Comercial, o que causaria fortes desequilíbrios nas Contas Nacionais. Por isso um país raramente fica rico sem ter uma indústria forte e articulada.
Primeiro, o nosso superávit em Conta Corrente deve-se principalmente ao nosso saldo comercial em commodities e bens primários (nós não exportamos serviços), e à medida que uma nação enriquece (e isso é o que todos nós queremos para o Brasil) cresce a demanda por produtos industrializados, ou seja, no longo prazo teremos déficits cada vez maiores Balança Comercial, o que causaria fortes desequilíbrios nas Contas Nacionais. Por isso um país raramente fica rico sem ter uma indústria forte e articulada.
Segundo, desindustrializar não necessariamente é ruim,
dependendo das circunstâncias que ela ocorre. Os países considerados
desenvolvidos (Estados Unidos, Canadá, países da Europa, etc.) também se
desindustrializaram entre os anos 80 e 90, e nesses casos os serviços também se
tornaram o segmento mais dinâmico da economia. Então qual é a diferença?
Nos países desenvolvidos, antes de terem perdido importância
relativa, as indústrias atingiram certo nível de maturidade e excelência que impediu
fossem engolidas pela concorrência internacional. Mesmo perdendo muitas fábricas
para o exterior, esses países contam com poderosas multinacionais que revertem
lucros às suas sedes. Esses países também se tornaram especialistas em
desenvolver tecnologia e em economia criativa, e isso só foi possível graças
dois aspectos:
a)Alta escolarização e qualificação técnica da população para desenvolver essas atividades. Educação e capacitação que foi adquirida na fase industrial desses países.
b)Alto nível de renda da população. Imprescindível, pois esse tipo de serviço mais sofisticado requere um alto nível de acumulação de capital. Nos anos 1980 esses países ricos já tinham uma renda per capita da ordem de US$30 mil/ano.
a)Alta escolarização e qualificação técnica da população para desenvolver essas atividades. Educação e capacitação que foi adquirida na fase industrial desses países.
b)Alto nível de renda da população. Imprescindível, pois esse tipo de serviço mais sofisticado requere um alto nível de acumulação de capital. Nos anos 1980 esses países ricos já tinham uma renda per capita da ordem de US$30 mil/ano.
No frigir dos ovos, trocaram empregos qualificados na indústria
por empregos ainda mais qualificados nos serviços.
Numa situação oposta, a indústria brasileira ainda não
atingiu estágios de produtividade e competitividade compatíveis com os níveis
encontrados internacionalmente, e nossos manufaturados estão cada vez mais
defasados, mesmo se comparados com produtos dos ditos países emergentes. Temos
poucas multinacionais e nossas principais fabricas revertem lucros ao exterior.
O Brasil ainda é um país de semi-analfabetos, com baixa qualificação técnica e
com renda per capita na ordem de US$12 mil/ano. Isso faz com que surjam vagas
de serviços pouco qualificados. Nos últimos tempos o comércio tem se
notabilizado como o motor dinâmico da economia, o que é preocupante, pois
crescer baseado em consumo inviabiliza a formação de poupança, o que implica
baixa capacidade de investimento da economia, considerado um grande entrave ao
crescimento sustentado no longo prazo.
Quem você acha que adiciona mais valor à economia, o
desenvolvedor que faz um novo software para gerenciar aplicativos no smartphone
ou o vendedor de TV de plasma (importada) das casas Bahia? Essa é a diferença
dos empregos criados aqui e lá.
E chegamos à pergunta que não quer calar, porque então o
Brasil está passando por uma desindustrialização tão precocemente? A minha tese
é que alguns dos fatores condicionantes deste processo (vou listá-los) são
subprodutos das medidas de combate a inflação que ocorrem desde a segunda
metade da década de 80. A experiência inflacionária brasileira foi tão
traumática que motivou políticas severas e duradouras, e talvez seja o momento
de afrouxá-las um pouco.
Esses fatores condicionantes, bastante interligados entre
si, são:
1) Taxa de juros muito
elevada. Desde os anos 90 os juros brasileiros são os maiores do mundo (o
governo Dilma está fazendo esforço para diminuí-los, mas ainda são bem elevados).
Os juros são altos em parte para conter a inflação, em parte porque o governo
precisa fazer rolar sua dívida, e faz isso através de títulos do tesouro, e em
parte porque a acumulação de poupança no Brasil é muito baixa, o que empurra os
juros para cima.
2) Excessiva
valorização cambial. Isso ocorre devido a 2 fatores: os já citados juros
altos, que provoca elevada entrada de divisas no país, e também por causa da
grande vantagem comparativa do país na produção e exportação de commodities e
bens primários, o que gera expressiva entrada de moedas conversíveis no país.
Esse aporte de moedas estrangeiras valoriza o real, deixando os produtos
nacionais mais caros e os produtos estrangeiros mais baratos, o que prejudica outros
setores. Valorização cambial também ajuda no combate a inflação (pelo lado dos
custos).
3) Custo Brasil.
Há duas maneiras de melhorar a competitividade de uma indústria: reduzindo
custos de produção ou melhorando a qualidade dos produtos ofertados. Pelo lado
dos custos a situação é bastante complicada para o empresário brasileiro:
estrutura tributária ineficiente, excesso de burocracia, inadequada
infra-estrutura de transporte, energia e telecomunicação, além dos já citados
juros altos, elevam os custos dos investimentos, exigindo taxas de retorno
maiores, e quando não possíveis, inviabilizam projetos industriais.
4) Falta de
capacitação técnica e de investimento em P&D. Por outro lado, só há um
jeito de melhorar a qualidade dos produtos ofertados: capacitação,
empreendedorismo e inovação. Isso só será possível através de pesados e maciços
investimentos em educação (isso já até virou clichê), além de fortes estímulos
à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). O número de patentes registradas no
Brasil é ínfimo.
Quando digo que podemos afrouxar algumas políticas anti-inflacionárias, estou falando de juros e câmbio. É possível reduzir os juros e manter a inflação baixa, desde que a taxa de poupança aumente bastante (comento mais adiante), e para isso é preciso romper com essa lógica de estimulo ao consumo para crescer. Uma diminuição, mesmo que não seja drástica, do déficit público poderia auxiliar nesse processo. Pelo lado do câmbio, temos que aceitar uma realidade: dumping cambial (desvalorização proposital da moeda nacional) existe, e países como China e Índia usam e abusam desse artifício. Até mesmo os Estados Unidos, paladinos do livre mercado, estão emitindo dólares com a intenção de desvalorizar sua moeda e incentivar as exportações. Não estou defendendo um câmbio completamente fixo, mas intervenções pontuais com objetivo bem definido seriam bem vindas.
Mesmo com essas medidas ainda é possível se indagar se o
Brasil não é demasiadamente rígido no controle inflacionário. Claro que ninguém
quer que a hiperinflação dos anos 80 volte, mas há 18 anos que a nossa inflação
fica na casa de um dígito, e não acho que seria tão preocupante ela desgarrar
um pouco mais se isso significar um crescimento consistente do produto.
É necessário ainda, chamar a atenção para a formação de
poupança. Um nível alto de poupança ajuda a derrubar os juros de duas maneiras:
(1)mais poupança significa mais oferta de investimento, forçando seu preço (os
juros) para baixo;(2)a ausência de poupança interna obriga o país a se socorrer
com poupança estrangeira, então juros altos são necessários para atrair
investidores internacionais. Quanto mais poupança interna, menos o país terá
que se socorrer externamente, e menor poderão ser os juros. Com juros menores os vultuosos investimentos
para suprir os gargalos de infra-estrutura serão mais viáveis, e muitos
empreendimentos serão mais acessíveis. Mas hoje, a cada mínimo solavanco da
economia, o governo anuncia um pacote de estimulo ao consumo para voltar a
crescer. Precisamos para com isso e incentivar a formação de poupança. Na
China, a taxa de poupança em relação ao PIB está na casa dos 40%, e é por isso
que eles conseguem fazer tanto investimento. A relação poupança/PIB brasileira
é de 17%.
Por fim, podemos citar reforma tributária (ela mesma),
redução da burocracia, reforma educacional e investimento em P&D, como
outros pilares fundamentais à retomada da indústria e do desenvolvimentismo
brasileiro.