Copa América 2007. Uma envolvente seleção argentina é totalmente neutralizada pela ótima marcação do time brasileiro, que anota três gols de contra-ataque e se sagra campeão. Ainda em 2007, o São Paulo vence o Brasileirão com uma mão e dois pés nas costas, jogando um futebol defensivo e paciente, com lançamentos e chutes de longa distância (muito parecido com a escola alemã). Em 2008 o São Paulo repete o feito. Copa do Mundo 2010. O Brasil fica pelo caminho com um time pragmático e pouco criativo, e a Espanha, com um futebol vistoso e atraente, levanta o caneco. Mundial de Clubes 2011. O Santos assiste, atônito, o Barcelona tocar a bola e criar inúmeras chances de gol.
O importante não são os resultados, mas o que tem acontecido nos últimos anos mostra que o Brasil passa por uma crise de identidade. Hoje nós usamos as armas que usavam contra nós, enquanto outros usam as armas que costumavam ser nossas. Quando foi que perdemos nossas características clássicas? A troca de passes, o improviso, os deslocamentos, a velocidade, o passe curto, o virtuosismo, a ginga, a técnica, o drible, o estilo ofensivo, enfim, o futebol arte? Quando foi que perdemos nossa identidade? Perder pra Espanha ou pro Barcelona, mais do que um sentimento de derrota, nos traz o sentimento de termos sido usurpados. O que foi nosso por gerações, não é mais. É deles.
O futebol arte surgiu no Brasil em meados da década de 20. Antes disso o futebol era um esporte de elite no Brasil, que não passava de uma seleção média no cenário mundial. Foi nos anos 20 que os negros e as camadas populares começaram jogar esse esporte que viria a ser o mais popular do país. Conseqüentemente, foi nessa época que começaram a surgir os primeiros esboços da escola brasileira de futebol. O fim do amadorismo e inicio do profissionalismo nos anos 30 deu uma grande contribuição para essa nova escola ganhar corpo, desenvolvendo aquelas características que hoje o mundo todo conhece.
Em 1938 o futebol arte parecia finalmente ter chegado a maturidade, e foi na Copa do Mundo daquele ano que o Brasil iria realmente debutar no futebol mundial. A escrete canarinho já havia participado das Copas de 1930 e 1934, mas foi em 1938 que o mundo do futebol viu, espantado, as potencialidades daquele novo jeito de jogar futebol. Foi ali que pela primeira vez os europeus viram que era possível penetrar na área de outro modo que não fosse por infindáveis cruzamentos. Bastava jogo de corpo para sair driblando vários marcadores. O craque Leônidas da Silva foi apelidado de “Rubber Man” (Homem de Borracha) pelos jornalistas ingleses, pelo jeito como se contorcia e se livrava da marcação. Leônidas acabou se contundindo e não jogou a semi-final que o Brasil perdeu por 2X1 para a Itália (bicampeã 34-38), mas foi o artilheiro e eleito o melhor jogador daquele torneio pela imprensa mundial. No final o time brasileiro acabou em terceiro, mas foi o time sensação daquele mundial. Além disso, a geração de jogadores dos anos 40 era repleta de craques como Heleno de Freitas, Zizinho e Domingos da Guia, o que trouxe muitas expectativas.
Mas tinha uma Segunda Guerra Mundial no meio do caminho. As Copas do Mundo de 42 e 46 foram canceladas, o que fez com que as glorias dessa geração se limitasse à América do Sul.
Mas em 1950 a seleção brasileira ainda era é forte, e dessa vez chegou à final, novamente dando espetáculo. Porém o futebol arte caiu diante do que viria a ser um de seus maiores inimigos: o descontrole emocional. De qualquer forma, aquele vice-campeonato serviu para consolidar um estilo. Tão consolidado que já começava a influenciar times do outro lado do oceano. Naquele mesmo ano de 1950, começava a se formar uma seleção húngara que assimilou várias características do futebol brasileiro, como posse de bola, passes curtos, velocidade, entre outros. Bem verdade que essa seleção ainda mantinha várias influências das escolas européias clássicas, mas a influência do futebol brasileiro era clara. Fato é que esse foi o melhor time do mundo na primeira metade da década de 1950, e foi justamente nesse time que o Brasil (numa época de entressafra) esbarrou em 1954. Mas a hora do Brasil estava para chegar....
Em 1958 veio, finalmente, a consagração. Com um time que é apontado por muitos especialistas como um postulante ao título de melhor time da história (até mesmo por seu equilíbrio ataque/meio-de-campo/defesa), e que contava com quatro jogadores da seleção do século XX da FIFA (Pelé, Garrincha, Nilton Santos e Djalma Santos), o Brasil foi campeão dando espetáculo atrás de espetáculo. Em 1962 veio o Bi. Em 1966 o futebol arte perdeu para a violência (que é diferente de raça e virilidade) e para passividade dos árbitros. Mas em 1970, com outro time postulante a melhor da história, veio o tricampeonato.
Pelos clubes a situação não foi diferente. Desde a metade da década de 1950, os clubes brasileiros eram convidados para diversos torneios ao redor do mundo. Mais que serem convidados, clubes como Palmeiras, Botafogo e principalmente o Santos goleavam os adversários dentro de seus próprios domínios. Clubes de expressão como Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Benfica, Boca Juniors e Milan tem estórias embaraçosas relacionadas á clubes brasileiros na década de 60. Um período de absoluta hegemonia do futebol canarinho.
Gradualmente clubes e seleções de todo o mundo foram assimilando um pouco daquele estilo de jogo, enquanto outros descobriam alguns antídotos para pará-lo. O que fez com que nos anos 70 a coisa fosse mais nivelada, o futebol de espetáculo ainda prevalecia no mundo, o Brasil ainda era forte, mas a grande seleção daquela década foi a Holanda (que, no entanto, foi vice em 74 e 78).
No inicio da década de 80 o Brasil voltou a formar uma seleção memorável, que goleava impiedosamente seus adversários. Seleção que seria protagonista de um dos jogos mais emblemáticos da historia. Apesar de todo favoritismo, na Copa de 82, o time de Zico, Falcão e Sócrates foi derrotado pela pragmática Itália. Esse jogo ficou conhecido mundialmente como “A Tragédia do Sarria” (em alusão ao nome do estádio). Mais do que uma simples zebra, aquele foi um marco representativo da mudança de paradigma no futebol mundial. Aquela eliminação suscitou a máxima de que espetáculo não ganha jogo. A partir daí, times de todo o mundo começaram a repensar sua maneira de jogar, priorizando mais a eficiência em detrimento do espetáculo. A enorme evolução da preparação física dos atletas, que favorecia principalmente as defesas, ajudou a acelerar este processo.
Assim, pouco a pouco, o futebol foi se tornando cada vez menos arte, menos improviso, menos plasticidade, para dar lugar à eficiência, ao pragmatismo e ao ganhar a qualquer custo, com alguns lampejos de gênios como Maradona, Romário, Zidane e Ronaldo. O próprio futebol brasileiro seguiu o fluxo e abandonou quase que completamente suas raízes. Durante os anos 90 praticamente nenhum time ainda dava espetáculo. São Paulo 92/94, Palmeiras 93/94 e 96, Vasco 97/98, Corinthians 98/99, além da própria seleção de 98, foram as poucas exceções. No século XXI nem exceção houve.
Porém sempre há os que navegam contra a corrente. Os espanhóis sempre foram grandes apreciadores do futebol bem jogado, e enquanto o mundo o abandonava, eles tentavam reinventá-lo, torná-lo competitivo novamente. E conseguiram. Conta a história, que em meados dos anos 70, havia uma placa nas categorias de base do Barcelona que dizia que quem tivesse menos de 1,80m podia ir embora. Depois de perder um campeonato local juvenil devido a inabilidade de seus jogadores, o presidente mandou que a placa fosse retirada, priorizando assim a qualidade técnica em detrimento do porte físico. É sabido que desde meados dos anos 90, placas parecidas com aquela pipocam em categorias de base em todo o Brasil. E foi assim que os papeis foram invertidos.
No Brasil, se convencionou questionar o que era melhor, ganhar jogando feio como em 94 ou perder jogando bonito como em 82? Mas a pergunta correta deveria ser, perder jogando bonito como 82 ou perder jogando feio como em 90? Ou ainda, ganhar jogando bonito como em 70 ou ganhar jogando feio como 94?
Ano passado visitei a Espanha e conheci uma pessoa da idade do meu pai, que sabia escalar a seleção brasileira de 82 do goleiro ao centroavante. É lógico que ganhar é sempre melhor, mas só quando você dá espetáculo que é possível entrar pra historia mesmo perdendo. A derrota de um time talentoso vira “tragédia”, enquanto a derrota de um sem talento cai no esquecimento.
Não seria o momento de assimilarmos está lição, e repensar o atual futebol brasileiro, de chuverinhos, chutões e pontapés? Não é hora é voltarmos às nossas raízes e resgatarmos o futebol que nos valeu fama, fortuna, respeito, inveja e glória?
Não existe assunto que não se discute. O que existe são pessoas que não sabem discutir.
sábado, 24 de dezembro de 2011
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Moralismo no País do Futebol
Acho que ninguém contesta que o futebol é, por larga vantagem, o esporte preferido dos brasileiros. É de longe o mais assistido e discutido nos bares, escolas, redes sociais e afins. Especialmente quando algum time se sagra campeão, este se torna o assunto da semana. Os torcedores do time campeão comemorando e provocando os rivais, os rivais retrucando, e por ai vai.
Mas tem um tipo pessoa, que eventualmente pode até torcer para um time mas não é muito apegada, que contesta todo mundo (e contestar é bom!). Esse tipo de pessoa não toma partido de nenhum lado, é contra a discussão em si, pois acha que futebol não é digno de ser tema de uma discussão tão longa e intensa. Vai mais longe: diz que o mau do Brasil é o futebol! Que o brasileiro vota errado e não sabe nada de política porque o futebol desvia sua atenção. E que durante a ditadura as pessoas só se importavam com a seleção enquanto estudantes eram torturadas.
Para começar a expor meu ponto de vista, vou discordar do título dessa postagem. O Brasil não é o país do futebol. O Brasil é, historicamente, o maior celeiro de craques do futebol mundial. Mas não é o país mais fanático, apreciador, apaixonado, etc. pelo esporte bretão. Muito se comenta que das dez maiores torcidas do mundo, quatro são brasileiras, incluindo a maior. Mas as mesmas pesquisas que apontam que o Flamengo têm algo em torno de 18% da preferência nacional (Datafolha), e cerca de 33 milhões de torcedores, também apontam que cerca de 23% da população não tem nenhum time (Datafolha). Isso mesmo, o numero de pessoas que não torcem pra nenhum time (ou só pela seleção, na Copa) é significativamente maior que o numero de torcedores da maior torcida do país. Na Alemanha e na Inglaterra esse numero não chega a 5%, na Argentina não passa dos 2%. Esses são três belos exemplos de países altamente politizados (e nos casos de Alemanha e Inglaterra, de países desenvolvidos e ricos), o que mostra que é possível ser um grande aficionado pelo esporte,e ainda assim ter consciência política.
E tem aquela clássica “o brasileiro vota errado porque a Copa é no ano da eleição”. Como é que é?! Então um evento que acontece em junho retém a atenção dos brasileiros até novembro? Eu acompanho a miude os dois eventos, e acho absolutamente conciliável acompanhar as duas coisas.
Sempre se diz que o futebol, e em especial a seleção, foi usado como propaganda política durante a ditadura. E foi mesmo. O que não diminui em nada o que, por exemplo, a seleção de 70 conquistou no campo esportivo e cultural. Mas pouco se comenta que um dos maiores movimentos cívicos da nossa historia surgiu nos campos de futebol. Em 1982, torcidas de vários clubes começaram a levar faixas em prol da volta da democracia. Logo esse movimento ganhou adesão de outros setores da sociedade e vida fora dos estádios. Mais tarde esse movimento ficou conhecido como “Diretas Já”.
Não me entenda mal, eu me incomodo bastante com jogadores que não conseguem fazer nada mais construtivo do que postar “to assistindo malhação XD kkkkkkk” no Twitter, ou com aqueles torcedores que falam pra quem quiser ouvir “meu time é a coisa mais importante do mundo” ou “meu time, minha vida, nunca vou te abandonar” (ainda vou escrever sobre isso). Tenho inveja do futebol europeu, onde boa parte dos jogadores, quando questionados, sabe opinar, ainda que minimamente, sobre política, economia ou arte. Assim como os torcedores nesses países também sabem. E essa é a questão, não são só os jogadores de futebol que são culturalmente vazios, no Brasil, figuras publicas em geral são vazias! Não são só os torcedores fanáticos que são alienados, o brasileiro, via de regra, é alienado.
Botar a culpa no futebol pela ignorância e passividade do nosso povo é simplesmente achar um bode expiatório. Ser politizado não tem nada a ver com abdicar de momentos de prazer e cultura. Tem a ver com a nossa educação, seja a escolar ou a que recebemos em casa. O brasileiro cresce achando que política é chato e não tem jeito, que economia é complicada demais e que dramaturgia e esporte são só entretenimento. Futebol, longe de ser o mau da nação, é, isso sim, um dos maiores patrimônios culturais do país.
Mas tem um tipo pessoa, que eventualmente pode até torcer para um time mas não é muito apegada, que contesta todo mundo (e contestar é bom!). Esse tipo de pessoa não toma partido de nenhum lado, é contra a discussão em si, pois acha que futebol não é digno de ser tema de uma discussão tão longa e intensa. Vai mais longe: diz que o mau do Brasil é o futebol! Que o brasileiro vota errado e não sabe nada de política porque o futebol desvia sua atenção. E que durante a ditadura as pessoas só se importavam com a seleção enquanto estudantes eram torturadas.
Para começar a expor meu ponto de vista, vou discordar do título dessa postagem. O Brasil não é o país do futebol. O Brasil é, historicamente, o maior celeiro de craques do futebol mundial. Mas não é o país mais fanático, apreciador, apaixonado, etc. pelo esporte bretão. Muito se comenta que das dez maiores torcidas do mundo, quatro são brasileiras, incluindo a maior. Mas as mesmas pesquisas que apontam que o Flamengo têm algo em torno de 18% da preferência nacional (Datafolha), e cerca de 33 milhões de torcedores, também apontam que cerca de 23% da população não tem nenhum time (Datafolha). Isso mesmo, o numero de pessoas que não torcem pra nenhum time (ou só pela seleção, na Copa) é significativamente maior que o numero de torcedores da maior torcida do país. Na Alemanha e na Inglaterra esse numero não chega a 5%, na Argentina não passa dos 2%. Esses são três belos exemplos de países altamente politizados (e nos casos de Alemanha e Inglaterra, de países desenvolvidos e ricos), o que mostra que é possível ser um grande aficionado pelo esporte,e ainda assim ter consciência política.
E tem aquela clássica “o brasileiro vota errado porque a Copa é no ano da eleição”. Como é que é?! Então um evento que acontece em junho retém a atenção dos brasileiros até novembro? Eu acompanho a miude os dois eventos, e acho absolutamente conciliável acompanhar as duas coisas.
Sempre se diz que o futebol, e em especial a seleção, foi usado como propaganda política durante a ditadura. E foi mesmo. O que não diminui em nada o que, por exemplo, a seleção de 70 conquistou no campo esportivo e cultural. Mas pouco se comenta que um dos maiores movimentos cívicos da nossa historia surgiu nos campos de futebol. Em 1982, torcidas de vários clubes começaram a levar faixas em prol da volta da democracia. Logo esse movimento ganhou adesão de outros setores da sociedade e vida fora dos estádios. Mais tarde esse movimento ficou conhecido como “Diretas Já”.
Não me entenda mal, eu me incomodo bastante com jogadores que não conseguem fazer nada mais construtivo do que postar “to assistindo malhação XD kkkkkkk” no Twitter, ou com aqueles torcedores que falam pra quem quiser ouvir “meu time é a coisa mais importante do mundo” ou “meu time, minha vida, nunca vou te abandonar” (ainda vou escrever sobre isso). Tenho inveja do futebol europeu, onde boa parte dos jogadores, quando questionados, sabe opinar, ainda que minimamente, sobre política, economia ou arte. Assim como os torcedores nesses países também sabem. E essa é a questão, não são só os jogadores de futebol que são culturalmente vazios, no Brasil, figuras publicas em geral são vazias! Não são só os torcedores fanáticos que são alienados, o brasileiro, via de regra, é alienado.
Botar a culpa no futebol pela ignorância e passividade do nosso povo é simplesmente achar um bode expiatório. Ser politizado não tem nada a ver com abdicar de momentos de prazer e cultura. Tem a ver com a nossa educação, seja a escolar ou a que recebemos em casa. O brasileiro cresce achando que política é chato e não tem jeito, que economia é complicada demais e que dramaturgia e esporte são só entretenimento. Futebol, longe de ser o mau da nação, é, isso sim, um dos maiores patrimônios culturais do país.
domingo, 20 de novembro de 2011
Fé e Religião, As Inquestionáveis
Hoje gostaria de comentar o excesso de respeito com relação à religião. Não, você não leu errado, é respeito mesmo. É incrível como a fé e a religião são blindadas de criticas e como as maiores barbaridades são cometidas sob o pretexto da liberdade de culto.
Vou começar citando um caso que aconteceu há algumas semanas, e me chamou a atenção. Uma mulher muçulmana foi impedida de prestar a prova teórica do DETRAN pois se recusou a retirar o véu (o islamismo não permite que mulheres apareçam descobertas em público), e é proibido fazer a prova de cabeça coberta. Após o ocorrido a mulher acusou o DETRAN de discriminação religiosa, o caso teve algum destaque na imprensa, boa parte da opinião pública se manifestou favorável a mulher, o DETRAN se desculpou e deixou a mulher fazer a prova de véu num outro dia. Eu posso estar muito louco, mas discriminação foi deixar a mulher fazer a prova com o véu! Se a lei diz que não se pode fazer a prova com a cabeça coberta, então ninguém pode fazer a prova com a cabeça coberta!
Um exemplo clássico que mostra como a religião é tratada com privilégios é o famigerado chá de Ayahuasca. Como se sabe, drogas psicotrópicas (que afetam o sistema nervoso) são proibidas no Brasil, incluindo o chá citado, mas existe uma exceção: o chá está liberado para uso em rituais religiosos. Há muitos anos médicos reivindicam que a cannabis sativa fosse liberada para fins medicinais, pois já é comprovado que esta alivia náusea e desconforto de doentes com câncer submetidos a quimioterapia. Cientistas gostariam que outras ervas fossem liberadas para poder estudar suas propriedades. Medicina e a ciência não são suficientes para comover nossas autoridades, mas basta uma seita alegar fins religiosos, e pronto! Ta liberado! (mas só pra este fim).
Imagine se os integrantes de uma sociedade apreciadora de arte alegassem à Justiça que acreditam precisar de um alucinógeno para aumentar sua compreensão de quadros impressionistas ou surrealistas. Seriam ridicularizados, certo? Então, por quê o mesmo argumento é plausível só porque falamos em religião?
Um cientista que pretende fazer experimentos com animais tem que atender um serie de requisitos, bastante rígidos, para evitar que o animal seja torturado e exposto a grande sofrimento, o que eu acho corretíssimo. Mas você sabia que no Rio Grande do Sul foi sancionada uma lei que permite que animais sejam torturados e mortos em rituais religiosos, e que outros estados têm projetos de lei semelhantes?
Isso é muito interessante, tortura de animais, em qualquer outro contexto é crime, mas dentro do contexto religioso é aceitável.
Outro exemplo clássico: dizimo em igrejas evangélicas. Pastores induzem os fieis a doar quantias enormes, prometendo um terreno no céu, a salvação do inferno, prosperidade na vida, entre outras coisas. Se aproveitam da boa vontade de pessoas pouco instruídas, coagindo-as com a possibilidade do fogo eterno e da desaprovação de deus. Existem vários casos de pessoas que se endividaram para doar para a igreja. Isso em outro contexto seria facilmente classificado como extorsão, mas estamos falando de religião, então pode.
O interessante é que basta a igreja ou seita alegar que “acreditam” e pronto, ninguém contesta. Não precisam fornecer provas.
Um caso especialmente revoltante pra mim, é o de pastores e pastoras mirins. Crianças de três, quatro, cinco anos berrando, fazendo pregação de coisas que elas sequer têm idade pra entender. Fora de um contexto religioso isso seria caso pro conselho tutelar tirar a guarda da criança, mas não, elas estão falando de Jesus, então tudo bem.
Lógico que esses são casos extremos, mas, via de regra, nós somos doutrinados desde a infância. Se você ouvir que uma criança de 6 anos é esquerdista, isso certamente lhe causara estranheza, ainda mais se ela começar a discorrer sobre a desigualdade social no Brasil. Você pensaria, com razão, que os pais dessa criança encheram a cabeça dela de coisas que ela não tem idade suficiente para entender e tirar suas próprias conclusões, que houve uma doutrinação política clara. Se uma criança da mesma idade se diz neoliberal e manifesta-se favorável ao mercado livre, sem barreiras alfandegárias, isso também soaria absurdo. Mas então, por que quando uma criança da mesma idade se diz católica, e conta uma parábola de Jesus, a maioria das pessoas acha normal, ou até mesmo bonito?
Crianças de 6 anos não têm maturidade para ter uma opinião sobre política, nem sobre economia e muito menos sobre religião. Esse é mais um exemplo de como somos brandos com a religião, qualquer tipo de doutrinamento é abominável, exceto o doutrinamento religioso.
Como reflexo desse doutrinamento, nós crescemos achando que falar e questionar credos é um tabu. Você pode (e deve) questionar tudo: a política ambiental, o aumento dos juros, a nova descoberta cientifica, mas quando se fala de fé, questionamento é confundido com falta de respeito. Dizer que a bíblia é um livro da Era do Bronze e não deve servir como base moral da sociedade contemporânea não é desrespeitar, principalmente porque boa parte deste livro repulsivo de acordo com a moralidade atual (escravidão, assassinatos, vingança, incestos, genocídios, etc.). Argumentar que, com o conhecimento cientifico que se tem hoje, acreditar que uma virgem deu a luz ao filho de deus é um absurdo não é desrespeitar. Desrespeitar é agredir alguém só porque ele tem certa crença, ou então entrar no meio da missa dizendo que deus não existe.
Mas principalmente, cumprir o que determina a lei não é desrespeitar a crença. Se a sociedade considera que torturar e matar animais, usar drogas psicotrópicas ou extorsão são crimes, então que isso valha para todos e em todos os contextos, incluindo o religioso.
Vou começar citando um caso que aconteceu há algumas semanas, e me chamou a atenção. Uma mulher muçulmana foi impedida de prestar a prova teórica do DETRAN pois se recusou a retirar o véu (o islamismo não permite que mulheres apareçam descobertas em público), e é proibido fazer a prova de cabeça coberta. Após o ocorrido a mulher acusou o DETRAN de discriminação religiosa, o caso teve algum destaque na imprensa, boa parte da opinião pública se manifestou favorável a mulher, o DETRAN se desculpou e deixou a mulher fazer a prova de véu num outro dia. Eu posso estar muito louco, mas discriminação foi deixar a mulher fazer a prova com o véu! Se a lei diz que não se pode fazer a prova com a cabeça coberta, então ninguém pode fazer a prova com a cabeça coberta!
Um exemplo clássico que mostra como a religião é tratada com privilégios é o famigerado chá de Ayahuasca. Como se sabe, drogas psicotrópicas (que afetam o sistema nervoso) são proibidas no Brasil, incluindo o chá citado, mas existe uma exceção: o chá está liberado para uso em rituais religiosos. Há muitos anos médicos reivindicam que a cannabis sativa fosse liberada para fins medicinais, pois já é comprovado que esta alivia náusea e desconforto de doentes com câncer submetidos a quimioterapia. Cientistas gostariam que outras ervas fossem liberadas para poder estudar suas propriedades. Medicina e a ciência não são suficientes para comover nossas autoridades, mas basta uma seita alegar fins religiosos, e pronto! Ta liberado! (mas só pra este fim).
Imagine se os integrantes de uma sociedade apreciadora de arte alegassem à Justiça que acreditam precisar de um alucinógeno para aumentar sua compreensão de quadros impressionistas ou surrealistas. Seriam ridicularizados, certo? Então, por quê o mesmo argumento é plausível só porque falamos em religião?
Um cientista que pretende fazer experimentos com animais tem que atender um serie de requisitos, bastante rígidos, para evitar que o animal seja torturado e exposto a grande sofrimento, o que eu acho corretíssimo. Mas você sabia que no Rio Grande do Sul foi sancionada uma lei que permite que animais sejam torturados e mortos em rituais religiosos, e que outros estados têm projetos de lei semelhantes?
Isso é muito interessante, tortura de animais, em qualquer outro contexto é crime, mas dentro do contexto religioso é aceitável.
Outro exemplo clássico: dizimo em igrejas evangélicas. Pastores induzem os fieis a doar quantias enormes, prometendo um terreno no céu, a salvação do inferno, prosperidade na vida, entre outras coisas. Se aproveitam da boa vontade de pessoas pouco instruídas, coagindo-as com a possibilidade do fogo eterno e da desaprovação de deus. Existem vários casos de pessoas que se endividaram para doar para a igreja. Isso em outro contexto seria facilmente classificado como extorsão, mas estamos falando de religião, então pode.
O interessante é que basta a igreja ou seita alegar que “acreditam” e pronto, ninguém contesta. Não precisam fornecer provas.
Um caso especialmente revoltante pra mim, é o de pastores e pastoras mirins. Crianças de três, quatro, cinco anos berrando, fazendo pregação de coisas que elas sequer têm idade pra entender. Fora de um contexto religioso isso seria caso pro conselho tutelar tirar a guarda da criança, mas não, elas estão falando de Jesus, então tudo bem.
Lógico que esses são casos extremos, mas, via de regra, nós somos doutrinados desde a infância. Se você ouvir que uma criança de 6 anos é esquerdista, isso certamente lhe causara estranheza, ainda mais se ela começar a discorrer sobre a desigualdade social no Brasil. Você pensaria, com razão, que os pais dessa criança encheram a cabeça dela de coisas que ela não tem idade suficiente para entender e tirar suas próprias conclusões, que houve uma doutrinação política clara. Se uma criança da mesma idade se diz neoliberal e manifesta-se favorável ao mercado livre, sem barreiras alfandegárias, isso também soaria absurdo. Mas então, por que quando uma criança da mesma idade se diz católica, e conta uma parábola de Jesus, a maioria das pessoas acha normal, ou até mesmo bonito?
Crianças de 6 anos não têm maturidade para ter uma opinião sobre política, nem sobre economia e muito menos sobre religião. Esse é mais um exemplo de como somos brandos com a religião, qualquer tipo de doutrinamento é abominável, exceto o doutrinamento religioso.
Como reflexo desse doutrinamento, nós crescemos achando que falar e questionar credos é um tabu. Você pode (e deve) questionar tudo: a política ambiental, o aumento dos juros, a nova descoberta cientifica, mas quando se fala de fé, questionamento é confundido com falta de respeito. Dizer que a bíblia é um livro da Era do Bronze e não deve servir como base moral da sociedade contemporânea não é desrespeitar, principalmente porque boa parte deste livro repulsivo de acordo com a moralidade atual (escravidão, assassinatos, vingança, incestos, genocídios, etc.). Argumentar que, com o conhecimento cientifico que se tem hoje, acreditar que uma virgem deu a luz ao filho de deus é um absurdo não é desrespeitar. Desrespeitar é agredir alguém só porque ele tem certa crença, ou então entrar no meio da missa dizendo que deus não existe.
Mas principalmente, cumprir o que determina a lei não é desrespeitar a crença. Se a sociedade considera que torturar e matar animais, usar drogas psicotrópicas ou extorsão são crimes, então que isso valha para todos e em todos os contextos, incluindo o religioso.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Considerações Sobre o Imbróglio na USP

Nas últimas semanas estive relutante em escrever sobre esse assunto. O motivo? Ambas as partes envolvidas demonstraram um comportamento apaixonadamente maniqueísta sobre o assunto. São os porcos fardados contra os maconheiros vagabundos. Ponderação parece ter passado longe do tema. Toda declaração em favor de uma parte é imediatamente aplaudida por seus defensores, e ridicularizada pelos opositores. Nesse contexto, qual a chance de um texto de alguém não alinhado a nenhum extremo ter alguma aceitação? Por isso relutei, porque provavelmente serei apedrejado por ambos os lados, mas como alguns amigos pediram, faço essas considerações.
Não vou me posicionar sobre o tema central que é, a PM deve ou não ocupa o Campus. Não farei isso pela simples razão que não sou estudante da USP, e quem deve apontar essa resposta são os próprios estudantes da USP. Vou me focar principalmente nas críticas feitas aos estudantes, classificando-as entre justas e injustas.
Crítica Injusta.
Acho que é simplista demais resumir o protesto estudantil como “querem a PM fora pra poder fumar maconha”. Pra mim está bastante claro que havia uma tensão pré-existente entre os alunos da FFLCH e a PM, e o episodio dos três estudantes pegos com maconha foi só um fato desencadeador. Há muitos anos que os alunos da FFLCH se mostram descontentes com as sucessivas gestões tucanas na reitoria da USP, e isso inclui a atual gestão de João Grondino Rodas. Não cabe aqui discutir cada caso, se estavam certos ou errados, mas o fato é que existe, há muito tempo, um atrito entre a reitoria e a FFLCH. A questão da PM no campus não é nova, há muito tempo alguns setores da USP queriam a presença da policia dentro da universidade, mas a FFLCH, devido a um histórico de conflitos, sempre foi terminantemente contra. Ignorar este cenário propicia uma visão míope sobre o assunto.
A alternativa apresentada pela FFLCH foi criar uma guarda civil da USP, ligada ao SINTUSP (Sindicato dos Trabalhadores da USP), que eventualmente pudesse ter alguma parceria com a PM. É viável? Não sei. O que é melhor? Não sei. Mas os estudantes têm o direito de estarem descontentes com a PM no Campus e protestarem. Voltarei a esse tema adiante.
Também acho que generalizar toda USP, ou mesmo toda FFLCH, como uma massa homogênea é incabível. A maioria dos estudantes da USP é a favor da PM no Campus, e boa parte dos alunos da FFLCH é contra este protesto do jeito que aconteceu. Assim como também acho injusto generalizar maconheiro como vagabundo, tem muito trabalhador que aprecia queimar uma erva, sabia? Alias, pra já arrematar esse assunto: eu acho que levar pra delegacia três estudantes que dividiam um baseado de maconha dentro do carro de um deles, é sim privação das liberdades individuais. Não se pode culpar o policial por fazer cumprir a lei, mas deve-se culpar a lei por ser equivocada. Sim, eu sou a favor da legalização da maconha e outras drogas (e não, eu não fumo). Mas não cabe aqui discutir isso.
Os manifestantes também foram acusados de serem “filinhos de papai” endinheirados. Ora, eu não vejo nada de errado em você ser rico e protestar contra a PM no campus da sua universidade. O que tem a ver usar moletom da GAP e óculos Ray Ban com protestar contra a PM? E daí que eles saiam para tomar banho e trocar de roupa? Agora qualquer manifestante tem que passar pelo mesmo grau de privação que Che Guevara passou na Sierra Maestra para ter legitimado seu protesto?
Por fim, tenho registrar que as acusações de formação de quadrilha e crime ambiental são absolutamente incabíveis. Quadrilhagem é a associação de várias pessoas para cometer crimes, e a menos que você considere protesto como crime, esta acusação é descabida. Também gostaria de saber desde quando pichar um prédio é crime ambiental.
Crítica Justa.
Como foi dito anteriormente, os estudantes têm o direito de se revoltar e se manifestar contra o que quer que seja, mas isso deve ser feito através de instrumentos democráticos e respeitando os limites da lei, e o que se viu foram sucessivas transgressões que, a meu ver, são inaceitáveis.
Começando pelo evento desencadeador, dos estudantes pegos com maconha, eu considero (como já disse) totalmente legitimo a revolta dos estudantes, mas nada justifica o enfrentamento com a PM. O policial estava apenas fazendo seu trabalho, se não concordam com aquilo, se organizem politicamente, ajudem a eleger candidatos que apóiem a causa, enfim, usem os mecanismos democráticos, mas o enfrentamento com a PM foi uma cena lastimável, e passível de punição na minha visão.
O Segundo ato foi a ocupação do prédio da FFLCH, impedindo que houvesse aulas, o que é uma grande falta de respeito. Tem muita gente que não queria abrir mão das aulas em nome do protesto, e por mais que esta atitude tenha sido decidida em assembléia, este não é o tipo de decisão que se toma através de uma maioria simples, e sim através de uma maioria absoluta, quase unânime. Sem contar que tem muita gente que trabalha ou que mora longe e acaba não podendo comparecer a essas votações.
O próximo e mais polêmico passo foi a invasão da reitoria da USP. Quem esses caras pensam que são? A reitoria presta serviços importantes a alunos de todos os cursos da universidade, que direito eles têm para poder privar os outros 90 mil alunos desses serviços? E se as acusações de formação de quadrilha e crime ambiental são injustas, as acusações de depredação do patrimônio público e desobediência são justíssimas!
Arrombar portas, danificar equipamentos e pichar as paredes não é protesto, é selvageria. Desobedecer uma decisão da justiça para desocupar o prédio deve ter sido um sintoma do complexo de superioridade. Mas agredir profissionais de imprensa, por mais que tenham sido extremamente tendenciosos na cobertura, foi a cereja do bolo. E por estes crimes os estudantes devem sim ser presos.
Em nova assembléia os estudantes decidiram, novamente por uma maioria simples, fazer uma greve dos estudantes, e o caso parece que terá mais desdobramentos.
Parte dos estudantes argumenta que a universidade é um espaço de pensamento livre e deveria ter autonomia, e que, portanto, a existência do braço armado do Estado dentro da universidade seria inaceitável, assim como seria cabível que os estudantes desobedecessem a justiça e as leis de São Paulo e do Brasil (estariam livres pra usar qualquer droga que quisessem por exemplo). Eu concordo que deve haver autonomia, mas não se deve confundir autonomia com soberania. A USP pertence ao território brasileiro e é mantida com dinheiro do contribuinte, e portanto deve sim ser submetida às leis e a justiça.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Esporte no Brasil: Inversão de Prioridades e Oportunidades Perdidas

2011 será um ano marcado pelo ineditismo nos esportes individuais brasileiros. Inédito quarto lugar no mundial de esportes aquáticos, inédita medalha de ouro no mundial de atletismo e inédita medalha de ouro no mundial de remo. As vitórias de Cesar Cielo, Fabiana Murer e Fabiana Beltrame, mostram que a política esportiva (se é que podemos chamar assim) iniciada em 2003 finalmente começou a gerar frutos. Ainda assim sou muito mais favorável a uma política esportiva de massificação do esporte, do que uma focada em esportes de alto rendimento, como a atual.
Investimento em esporte de alto rendimento tem por objetivo exclusivamente fazer com que o Brasil tenha atletas, em várias modalidades, entre os melhores do mundo num espaço de tempo relativamente curto. Em suma, só há investimento naqueles atletas que, por algum milagre, já mostraram que são capazes.
Investimento em massificação do esporte significa investir para trazer diversas modalidades esportivas para o dia-a-dia da população em geral. Além de ser uma excelente opção de lazer, a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma, baseado em estudos feitos por ela, que para cada 1 dólar investido em esporte, você economiza 3 dólares em saúde, pois a pratica de esportes previne diversas doenças cardíacas, respiratórias, coronarianas, stress, entre outras, além de combater o sedentarismo. Muitas oportunidades econômicas e comerciais surgiriam a partir da popularização de outros esportes. Ademais, se você colocar uma população de 200 milhões, que tem uma grande variedade de biótipos (tem negro, branco, amarelo, baixo, alto, magro, robusto, etc.), no longo prazo, naturalmente surgirão inúmeros talentos e atletas de primeira qualidade capazes de competir com os melhores do mundo.
Na comparação entre os dois modelos de investimento, esporte de alto rendimento e massificação do esporte, é evidente que o primeiro é mais barato e tem um tempo de maturação menor, mas gera resultados restritos apenas à maior competitividade dos nossos atletas, podendo ser considerado apenas um paliativo, enquanto o segundo, apesar de mais caro e necessitar de mais paciência, gera resultados mais perenes e que se estendem, não só ao esporte de alto rendimento, mas à saúde, à qualidade de vida, ao lazer, a economia e até a mesmo à educação do país.
O investimento necessário no primeiro modelo envolve providenciar para nossos principais atletas: treinamentos no exterior, técnicos vitoriosos internacionalmente, equipamentos de qualidade, viagens e até alguma ajuda financeira. O segundo modelo exige a construção de milhares de praças e espaços públicos onde se possa exercer a prática esportiva, construir outras milhares de quadras e piscinas em escolas públicas e privadas, além de equipá-las adequadamente, e ainda investir na divulgação e incentivo à prática de esportes fora do mainstream (que no Brasil se resume a futebol, vôlei e basquete).
Esse último item é de fundamental importância. Apesar de já não podermos mais dizer, como há 20 anos atrás, que o Brasil vive uma monocultura do futebol, a atividade esportiva ainda é pouquíssimo diversificada. Já parou pra pensar quantos bons tenistas nós perdemos simplesmente porque a maioria esmagadora da nossa população nunca pegou numa raquete? E quantos bons jogadores de Rúgbi deixam de ser descobertos, simplesmente porque a maioria de nós se quer sabe o que é Rúgbi? Além disso, como foi mencionado, a diversificação esportiva gera diversas oportunidades econômicas e de lazer. Esse é um ponto central, a partir do momento que um esporte cai no gosto da população, ele não precisa mais de subsidio.
Hoje o Brasil tem uma boa seleção de ginástica olímpica, mas que é fundamentalmente mantida com dinheiro público e de algumas estatais, que bancam técnicos estrangeiros, equipamentos, viagens, etc. Sem esse dinheiro o nível da nossa seleção provavelmente seria menor. O ideal seria que a ginástica olímpica fosse um esporte popular, que lotasse ginásios e fosse transmitido pela TV, arrecadando verba de patrocínios e cotas de TV, e assim pudesse se pagar sozinho. Veja bem, na situação atual, em que nós temos material humano, mas não temos interesse publico e comercial, eu sou favorável que o governo dê subsídios, mas a questão deve ser trabalhada pra que no futuro haja mais interesse e o esporte se mantenha sozinho. E como podemos ter interesse num esporte que “só existe” nas olimpíadas, a cada 4 anos, que nós nunca praticamos, que nunca nós foi apresentado? Difícil de ter alguma empatia ou identificação. Dei o exemplo da ginástica olímpica, mas muitos esportes estão na mesmíssima situação (às vezes pior, sem subsidio publico).
Se aplicada de maneira seria e comprometida, uma política de massificação do esporte pode transformar um país, num espaço de uma geração (aproximadamente 20 anos), em uma potência olímpica, e o exemplo mais recente é a China, primeira colocada no quadro de medalhas em 2008. Alguns poderão argumentar que a China exerceu uma política mista, de massificação e de alto rendimento. Mas outros dois bons exemplos são Espanha e Austrália, que nos anos 80 tinham uma estrutura esportiva tão medíocre, ou até pior, que a do Brasil, mas investiram pesado em massificação do esporte e hoje são grandes celeiros de atletas. Lembrando que o democrático Brasil não tem tanta pressa para maturar seus projetos quanto à ditatorial China, que precisa fazer propaganda política pro mundo.
O Brasil é um país doido. De repente surge um Guga, tricampeão de Roland Garros, e melhor do mundo por quase um ano, sem que houvesse um trabalho sério para descobrir/treinar tenistas. Aparece uma Marta, eleita 5 vezes melhor jogadora do mundo, sendo que o futebol feminino é miserável e estigmatizado. Ou então um Cesar Cielo, que só conseguiu rentabilizar sua profissão depois de ser campeão olímpico. Material humano nós temos de sobra, falta recursos e vontade para descobri-los e lapidá-los.
E esse é o motivo pelo qual o Brasil não tem o direito de sediar uma olimpíada. O único país que sediou uma olimpíada sem ter uma grande tradição (multi)esportiva foi o México, em 1968. O Brasil será o segundo. O Brasil organizar uma olimpíada é igual ao Talibã organizar uma conferência sobre a paz. Nós corremos o sério risco de sermos o primeiro anfitrião olímpico na historia a não ficar entre os dez mais bem colocados no quadro de medalhas. Tem sentido gastar-se tanto em arenas esportivas que não terão uso após o evento? O Rio de Janeiro sediou o Pan em 2007, e o que ficou de legado para a cidade? Arenas esportivas caríssimas, agora sucateadas, sem uso. Algumas delas, como o velódromo e o complexo esportivo Riocentro, estão sendo usadas para eventos, como formaturas, e outras completamente abandonadas. Isso acontece porque o brasileiro se quer sabe o que é um velódromo. Em Barcelona, Atlanta, Sidney, Atenas ou Pequim, a população usufrui de todas as arenas construídas. Estamos invertendo as prioridades, de que adianta fazer belíssimos estádios e ginásios de nível internacional, se, segundo o IBGE, apenas 15% das nossas escolas públicas têm uma quadra.
Isso também responde a pergunta de porque nossos eventos esportivos dependem tanto de dinheiro do governo. Em países com tradição esportiva, a iniciativa privada tem participação substancial na construção das instalações esportivas. Faz acordos do tipo “Eu ajudo a construir, mas vou poder explorar a Arena pelos próximos 20 anos”. A empresa/empreiteira recupera o investimento cobrando aluguel nos próximos jogos/eventos esportivos que acontecerem no lugar nas próximas décadas. No Brasil isso não acontece pois não há perspectiva de retorno futuro. Uma empreiteira que tivesse construído o velódromo ou o estádio de baisebol para o Pan, teria tomado um prejuízo enorme.
A melhor coisa que o governo Lula fez pelo esporte, foi ter criado o Ministério dos Esportes, pois atividade esportiva é sim um tema central no desenvolvimento de um país, com desdobramentos em várias áreas. A pior coisa que o governo Lula fez pelo esporte, foi ter usado esse mesmo ministério como moeda de troca para fazer alianças políticas espúrias. Um ministro fraco como Orlando Silva, que só sabe adular e ceder às vontades dessa oligarquia de coronéis do esporte, não deveria exercer um cargo tão importante. Alias, impedir que coronéis do esporte, como Nuzman e Teixeira, se perpetuem no poder, deveria ser uma prioridade do ministério. Uma das únicas federações que tem um regime realmente democrático, e conseqüentemente gente comprometida com o esporte, é a federação de vôlei, e veja só que diferença...
Infelizmente, o esporte no Brasil é visto como algo supérfluo, e não é. Deveria ser visto como política de saúde publica, como qualidade de vida, como opção de lazer, como instrumento de ascensão social, como gerador de emprego e de oportunidades econômicas e comerciais. Deveria ser visto como um investimento de longo prazo para o desenvolvimento do país.
sábado, 6 de agosto de 2011
Dia do Constrangimento Hetero
Na ultima terça-feira (2/8), a Câmara dos Vereadores de São Paulo, que anda inspiradíssima nos últimos tempos, aprovou o Dia do Orgulho Heterossexual. O projeto é autoria do vereador Carlos Apolinario (DEM), que faz parte da bancada evangélica (pra variar). Segundo ele o projeto tem por objetivo “Conscientizar a população e registrar a luta pela consolidação e defesa daqueles que desejam se manter homens e mulheres” e também “incentivar os bons costumes” . Eu, como heterossexual, fico absolutamente constrangido de alguém supostamente representar a mim e aos meus interesses com um pensamento tão torpe.
Nem vou entrar no mérito que bons costumes é relativo, e que esse pensamento é moralista. Mas essa data é uma piada pronta. O Brasil, e mais especificamente São Paulo, virou motivo de chacota nas mídias internacionais quase que instantaneamente. Veja bem, esse tipo de data/comemoração surge para contemplar a luta de determinados segmentos da sociedade na busca por seus direitos, e para afirmar que esses mesmos segmentos não são inferiores a outros.
As mulheres eram consideradas inferiores aos homens e isso era amplamente aceito, inclusive por elas. Isso aos poucos foi se provando falacioso,e surgiram os movimentos feministas para lutar pelos direitos das mulheres. Em contemplação aos direitos adquiridos pelas mulheres nesse processo cria-se o Dia da Mulher.
Os negros foram, durante muito tempo, tratados como mercadoria, considerados intelectualmente inferiores. Os religiosos afirmavam inclusive que eles não tinham alma. Ou seja ser negro era considerado uma vergonha. Com o passar do tempo, isso se mostrou um absurdo, e depois de muita luta os negros conseguiram o direito, não apenas de não se envergonhar por negro, mas de ter orgulho disso. E se faz um dia em comemoração a esses direitos adquiridos.
Uma pergunta, até freqüente, que surge, é: então por que não o Dia do Homem ou Dia do Orgulho Branco? Porque os homens e os brancos nunca foram postos como inferiores, seu orgulho nunca foi colocado em questão. Nunca houve luta pela afirmação de seus direitos.
Hoje a grande luta pela afirmação de direitos, pelo menos no Brasil, é a dos homossexuais, que, aos poucos, têm conseguido algumas conquistas. Até hoje, grande parte da sociedade considera que ser homossexual é errado e até mesmo antiético. Dessa forma, é justo que se crie um dia em que se possam afirmar seu orgulho e para lutar por seus direitos. Analogamente, os heterossexuais nunca tiveram que lutar por seus direitos ou serem aceitos na sociedade, e é isso que faz desse dia uma piada ridícula. Agora os casais hetero terão um dia em que poderão andar de mãos dadas livremente. E também será um dia em que faremos uma passeata em favor do casamento hetero, para poder adotar crianças e pelo primeiro beijo hetero no TV.
É principalmente por perder a noção do ridículo, e por ser instrumentalizado como plataforma eleitoral para políticos religiosos, que o Dia do Orgulho Heterossexual me constrange, e muito. Daqui a pouco vão criar o Dia do Homem-branco-heterossexual-rico-catolico.
Nem vou entrar no mérito que bons costumes é relativo, e que esse pensamento é moralista. Mas essa data é uma piada pronta. O Brasil, e mais especificamente São Paulo, virou motivo de chacota nas mídias internacionais quase que instantaneamente. Veja bem, esse tipo de data/comemoração surge para contemplar a luta de determinados segmentos da sociedade na busca por seus direitos, e para afirmar que esses mesmos segmentos não são inferiores a outros.
As mulheres eram consideradas inferiores aos homens e isso era amplamente aceito, inclusive por elas. Isso aos poucos foi se provando falacioso,e surgiram os movimentos feministas para lutar pelos direitos das mulheres. Em contemplação aos direitos adquiridos pelas mulheres nesse processo cria-se o Dia da Mulher.
Os negros foram, durante muito tempo, tratados como mercadoria, considerados intelectualmente inferiores. Os religiosos afirmavam inclusive que eles não tinham alma. Ou seja ser negro era considerado uma vergonha. Com o passar do tempo, isso se mostrou um absurdo, e depois de muita luta os negros conseguiram o direito, não apenas de não se envergonhar por negro, mas de ter orgulho disso. E se faz um dia em comemoração a esses direitos adquiridos.
Uma pergunta, até freqüente, que surge, é: então por que não o Dia do Homem ou Dia do Orgulho Branco? Porque os homens e os brancos nunca foram postos como inferiores, seu orgulho nunca foi colocado em questão. Nunca houve luta pela afirmação de seus direitos.
Hoje a grande luta pela afirmação de direitos, pelo menos no Brasil, é a dos homossexuais, que, aos poucos, têm conseguido algumas conquistas. Até hoje, grande parte da sociedade considera que ser homossexual é errado e até mesmo antiético. Dessa forma, é justo que se crie um dia em que se possam afirmar seu orgulho e para lutar por seus direitos. Analogamente, os heterossexuais nunca tiveram que lutar por seus direitos ou serem aceitos na sociedade, e é isso que faz desse dia uma piada ridícula. Agora os casais hetero terão um dia em que poderão andar de mãos dadas livremente. E também será um dia em que faremos uma passeata em favor do casamento hetero, para poder adotar crianças e pelo primeiro beijo hetero no TV.
É principalmente por perder a noção do ridículo, e por ser instrumentalizado como plataforma eleitoral para políticos religiosos, que o Dia do Orgulho Heterossexual me constrange, e muito. Daqui a pouco vão criar o Dia do Homem-branco-heterossexual-rico-catolico.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
A Copa do Mundo só com Brasil e Argentina.

Por incrível que possa parecer, a Copa América desse ano está valorizada como há muito tempo não acontecia. A primeira razão disso é que a Argentina, que não ganha um título oficial com sua seleção principal há 18 anos, conta com o atual melhor jogador do mundo, Messi, e jogará em casa para tentar quebrar esse tabu. A expectativa entre o porteños é tão grande que os ingressos para os principais jogos estão praticamente esgotados. Outro fator é que, já há algum tempo, a Copa América virou uma disputa particular entre Brasil e Argentina, mas essa edição promete ser diferente. Paraguai e principalmente o Uruguai, foram bem na Copa do Mundo ano passado. Os paraguaios venderam caro a passagem às semi-finais para futura campeã Espanha, e o Uruguai chegou entre 4 melhores, fez partidas duríssimas contra Holanda e Alemanha, e Forlan foi eleito o melhor jogador do torneio. Este ano o Peñarol foi finalista da Taça Libertadores, prova da recuperação do futebol uruguaio, que estava longe dos holofotes há algumas décadas. Por fim, tem o Brasil, que num primeiro momento pode parecer desinteressado no torneio (como sempre), uma vez que ganhou 4 das últimas 5 edições, mas, olhando por outra perspectiva, o Brasil tem uma geração de jovens talentos que ainda precisam provar seu valor, e quase ninguém tem vaga garantida, o que pode trazer uma boa motivação ao time, além disso, cá entre nós, ser tri-campeão seguido em cima da Argentina (o Brasil venceu a Argentina nas últimas duas finais), na casa deles, ia ser bom demais.
Porém esta postagem tem outro enfoque, ao invés de tentar explicar porque este ano o torneio está mais badalado, tentarei explicar porque normalmente a Copa América é tão desvalorizada. Como a Eurocopa consegue ter um status de quase Copa do Mundo, transmitida em 6 continentes, e a Copa América, que reúne um total de 9 títulos mundiais, não consegue ser importante nem mesmo para nós, sul-americanos.
A primeira razão para esse descrédito, eu acredito que seja a banalização dos títulos. Explico. A contagem oficial dos títulos atualmente é a seguinte: Argentina e Uruguai têm 14, Brasil tem 8, Paraguai e Peru têm 2, Colômbia e Bolívia têm 1. É muito título, isso banaliza a conquista e tira méritos dela. Como chegamos a essa contagem? Pois bem, 7 títulos foram de torneios amistosos ou eliminatórias mas mesmo assim valem como oficiais. O “Quadrangular do Centenário da Independência Argentina” (1916), o “Torneio Quarto Centenário de Santiago” (1941), o “Hexagonal Cidade de Guayaquil” (1959) e até mesmo as “Eliminatórias das Olimpíadas de 1936” (1935), todos valem como títulos oficiais. O detalhe é que só ganharam o status de oficial depois de muitos anos de terem ocorrido, devido ao poder político das seleções de Uruguai e Argentina. Sem eles a Argentina teria 11 títulos e o Uruguai teria 10. Mas não é só isso.
Também acho um equivoco a equiparação entre o antigo Sul-Americano de Seleções e a atual Copa América. Para explicar meu ponto de vista vou fazer um resumo da historia das duas competições.
O Sul-Americano de Seleções foi uma competição criada em 1917, e servia para suprir a necessidade de um campeonato continental já que um campeonato entre clubes era inviável. Portanto o Sul-Americano acontecia anualmente em uma sede fixa, sempre pelo sistema de pontos corridos (ou seja, uma Liga). O Campeonato aconteceu todos os anos até 1929. Em 1930 as confederações de Uruguai e Argentina romperam relações devido a um desentendimento com relação à final da copa do Mundo de 1930 (entre as duas seleções). O Sul-Americano seguinte só acorreu em 1937, depois das duas entidades reatarem. Porém, o torneio retornou sem a mesma força e era organizado em períodos irregulares (1937, 1939, 1942, 1947, 1949, 1953, etc.), o que tirou muito da credibilidade da competição. Para piorar, em 1946, em uma partida entre Brasil e Argentina, na Argentina, a torcida invadiu o campo para espancar os jogadores brasileiros, que fugiram e se trancaram no vestiário, porém policia argentina arrombou a porta e forçou os jogadores a voltarem pro campo, o que gerou revolta da delegação brasileiro, que acabou rompendo relações com a Confederação Argentina por 10 anos, só voltando a participar do Sul-Americano em 1957 (exceção feita às edições de 1949 e 1953, daí foi a Argentina que não participou). Esse foi outro duro golpe no torneio, a ausência de uma potencia mundial do esporte tirou muito da competitividade. Em 1957 o Brasil voltou a disputá-lo, mas sem muito entusiasmo, tanto que a CBD mandava seleções regionais (seleção gaúcha, mineira e até pernambucana) para representá-la. Uruguai e Argentina também tinham perdido entusiasmo no torneio, prova disso é que em 1963 a Bolívia(!) se sagrou campeã. A organização do torneio era cada vez mais rara, e a edição de 1967 foi a derradeira.
A Copa America surgiu em 1975, na tentativa de recriar um torneio continental, mas agora não mais um Liga e sim uma Copa, no sistema mata-mata, que aconteceria a cada 4 anos. Repare que a gênese das duas competições é completamente distinta, se tratando de torneios diferentes (os Sul-Americanos foram equiparados à Copa América mais de uma década depois da criação desta). Além disso igualando os dois torneios, a Copa América herda a desorganização e o descrédito do Sul-Americano. Os maiores vencedores da Copa América são as potências Brasil (com 5), Uruguai (com 3) e Argentina (com 2). As seleções médias do Paraguai, Peru e Colômbia têm 1 titulo cada. Esse é um placar bem menos banalizado do que o oficial da CONMEBOL.
Lógico que há erros na organização da Copa América. Em 89 ela passou a ser a cada dois anos, o que incorre os mesmos problemas citados anteriormente, porém, em 2004 passou a ser trienal e esse ano vai voltar a ser de quatro em quatro anos. Confuso também, mas nada comparado ao Sul-Americano.
Um segundo fator a ser analisado é que a Copa América não tem eliminatória. Uma tendência natural a qualquer ser humano é deixar de valorizar aquilo que vem muito fácil, e é baseado nisso que defendo eliminatórias. É bem verdade que a CONMEBOL tem poucos filiados, apenas 10, mas acredito que 8 seja o numero de participantes ideal (até 1996 a Eurocopa tinha apenas 8 participantes, e a UEFA já tinha em torno de 40 filiados). A questão do calendário seria facilmente resolvida se fizéssemos igual na África, onde as eliminatórias para Copa do Mundo também servem para a Copa Africana de Nações. Poderia ser algo do tipo: o anfitrião e o último campeão já têm vaga garantida, e os 6 melhores colocados nas eliminatórias (excetuando o campeão o anfitrião) se classificam. Isso valorizaria a Copa America e as eliminatórias, pois as seleções que não tem mais chances de ir à Copa do Mundo lutariam para se classificar pra Copa America.
Mas ao invés de fazer eliminatórias, a CONMEBOL, desde o inicio dos anos 90, convida duas seleções de outra confederação. Entre os times que já foram convidados estão: México, EUA, Honduras, Costa Rica e até o Japão (na Copa AMERICA?!). Essas seleções são convidadas para que o numero de participantes chegue a 12, e dessa forma dividi-los em 3 grupos de 4 seleções cada, o que também é um erro, porque esse negócio de os melhores terceiros colocados também se classificarem banaliza ainda mais o torneio (se classificam os 2 melhores colocados de cada grupo, mais os 2 melhores terceiros). Tudo isso junto gera uma impressão de várzea e competição mal organizada.
Infelizmente a Copa América sofre com o descaso de dirigentes como Julio Grondona, Nicolás Leoz e Ricardo Teixeira, que estão mais preocupados em se perpetuar no poder e aumentar ainda mais seu patrimônio, do que efetivamente contribuir para organização do futebol na America do Sul.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Jogos Eletrônicos e a Tragédia de Realengo

Só vi agora a (péssima) matéria da Record que culpa os jogos violentos pela tragédia de Realengo. Inacreditável como apesar de a maioria dos estudos acerca do assunto mostrarem que não há uma correlação entre comportamento violento e jogos eletrônicos, os video-games continuam sendo os bode-expiatórios de tragédias como a de Realengo.
A minha geração INTEIRA jogou video-game a exaustão na infância (e talvez jogue até hj), e todo mundo seguiu a vida normalmente, dai porque um cara que fez uma chacina jogava counter strike, os jogos estimulam a violência. É 1 num espaço amostral de milhões, é estatisticamente improvável que o jogo tenha influenciado Wellington.
Os pontos centrais da tragédia são a saúde mental do assassino, que demonstrava ter uma mente deturpada a tempos, o bullyng, que ele diz ter sofrido, e a religião, uma vez que a carta e os videos deixados por Wellington estavam impregnados de elementos religiosos (mas a Record não ia mesmo fazer uma matéria relacionando religião à tragédia, né bispo Macedo?). O resto é historinha pra boi dormir.
A reportagem ainda misturou incentivo à violência com vicio em jogos eletrônicos, duas coisas que não tem nada há ver. O reporter consultou apenas uma psicanalista e alguns pais, ignoraram os vários estudos acadêmicos feitos nos EUA e na Europa que mostram não haver relação entre as coisas. Ignoraram as inúmeras habilidades que um jogo de tiro pode ajudar a desenvolver, como por exemplo: gerenciamento de recursos, capacidade de resolver problemas, mapeamento do local, reconhecimento de padrões, capacidade de fazer estimativas, raciocínio rápido, memória, entre varias outras. Enfim a matéria tem todos os elementos de uma péssima reportagem, que ainda se propõe investigativa.
terça-feira, 17 de maio de 2011
A Fúria dos Retrogrados

Na semana passada o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo, o que, como já escrevi anteriormente, sou totalmente a favor. Dessa forma podemos dizer que o executivo e o judiciário já reconhecem a união homoafetiva, já que Dilma (assim como Lula) também reconhece esse direito, restando apenas ao legislativo fazer uma emenda constitucional para cimentar esse direito. A emenda é necessária pois nossa constituição define como família apenas a união entre um homem e uma mulher, e é um verdadeiro absurdo que a constituição opine na sexualidade alheia, pois isso é uma questão intima. Porém, o mais interessante foi a reação da Confederação Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), que, através de seus representantes, tentou achar algum argumento para criticar a decisão.
O primeiro argumento que está sempre na ponta da língua dos religiosos é que homossexualismo é antinatural, sendo que é cientifica e estatisticamente comprovado desde os anos 50, pelos estudos do professor Alfred Kinsey, que amor e afeto entre pessoas do mesmo sexo não só existe, como é relativamente comum, e, pra mim, existindo esse afeto o antinatural seria inibi-lo. Alias, a idéia de castidade de padres e bispos, está sim é uma idéia totalmente antinatural, enfim. Porém, dessa vez um dos representantes da CNBB foi mais além, reconheceu que o afeto entre pessoas do mesmo sexo existe, mas disse que afeto não é parâmetro para união homoafetiva. Ora, se afeto não é parâmetro para QUALQUER união (seja homossexual, heterossexual, bissexual, pansexual, etc.), então qual é o parâmetro?!
Também foi dito que isso é a “destruição da família”, pois agora os casais homossexuais poderão adotar crianças. Destruição não, talvez uma reconstrução ou redefinição seja mais adequado. Qual o problema em um casal de gays criar uma criança? É bem verdade que especialistas afirmam que ter uma presença materna e uma paterna é mais saudável na criação dos filhos, mas eu acho melhor ter duas mães ou dois pais do que morar num orfanato e não ter pai nem mãe. Além disso, atualmente o divorcio está cada vez mais comum, e em muitos desses casos as crianças crescem sem uma figura paterna ou materna, o que se pode fazer? Proibir o divorcio?
Há o medo de que pais homossexuais influenciem os filhos a terem a mesma opção sexual. Sobre isso eu tenho dois pontos de vista. Primeiro, apesar de eu não poder afirmar categoricamente, pois a ciência ainda não provou, eu acredito que homossexualismo é genético. A tendência homossexual já foi detectada em mais de 140 espécies diferentes, e em varias delas já foi provado que essa tendência é uma predisposição genética. Outra evidencia pode ser encontrada no já citado trabalho de Alfred Kinsey. Quando os entrevistados que se declaravam homossexuais eram perguntados desde quando tinha tendência homossexual, as respostas mais comuns eram “desde a infância” ou “desde sempre”. Por isso a tentativa de pais gays influenciarem seus filhos heterossexuais a terem a mesma tendência que eles falhará, da mesma forma que pais heterossexuais não conseguem reverter (nem mediante a violência e tratamento psicológico) a tendência homossexual de seus filhos gays. Segundo, se essa tendência não for genética e sim adquirida durante a vida, os pais poderiam influenciar os filhos a também serem gays, e há algum problema nisso? Pais heterossexuais não tentam influenciar seus filhos a também serem heterossexuais? Não dão carrinhos pros meninos e bonecas pras meninas? Não matriculam os meninos no futebol e as meninas no balé?
Por ultimo, como era de se esperar, disseram que o judiciário está indo além de sua alçada, como sempre dizem quando uma lei vai de encontro aos valores religiosos, e citaram a frase atribuída a Jesus “Dae a César, o que é de César. Dae a Deus, o que é de Deus”, querendo dizer que as leis dos homens não podem ir contra as leis de Deus. Pra mim, Estado define crime e a igreja define pecado. Nem a igreja deve definir crime, nem o Estado deve definir pecado. O Estado é laico ou não é?
As vezes eu me acho um imbecil tendo que contra argumentar coisas, que pra mim, são triviais. Essas discussões estúpidas são motivadas geralmente pelas religiões, que só conseguem dar argumentos estúpidos e rasos. Precisamos de mais racionalidade, senso critico e ciência, e menos fé e moral religiosa.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Gente Diferenciada
Nesta quarta-feira o governo de São Paulo desistiu de construir uma estação de Metrô na Avenida Angélica em Higienópolis. Segundo o governo a desistência ocorreu porque essa estação ficaria muita próxima de outras duas na mesma região. Porém especula-se que a verdadeira razão da desistência seja um abaixo-assinado da associação de moradores “Defenda Higienópolis” , que é contra a construção. A associação alega que a estação aumentaria a criminalidade, pois traria “gente diferenciada” ao bairro, e ainda diz que a Avenida se tornaria um camelódromo e isso iria descaracterizar um bairro tão tradicional
A atitude dos moradores me parece cheia de preconceito e ignorância. Tudo bem que os endinheirados moradores de lá não usufruiriam da estação, pois afinal eles vão pro trabalho de helicóptero, mas a estação naquele lugar seria grande negocio para eles, pois iria valorizar ainda mais os imóveis. Além disso, assaltante não rouba somente em lugares que tem Metrô, na verdade eles não se importam muito com o transporte que utilizam. Camelô também não, eles vão aonde conseguem vender mais, e o perfil mais exigente do consumidor de Higienópolis dificultaria a venda dos produtos de baixa qualidade ofertados pelos camelôs. E mesmo que os argumentos fossem coerentes, o beneficio gerado a centenas de milhares de pessoas que trabalham ou estudam na região seria enorme. Alias quem assina um abaixo-assinado desses não tem direito de reclamar do trânsito caótico depois. Mas mesmo sendo um protesto estúpido, os ricos moradores de Higienópolis tem todo o direito de fazê-lo. O que não da pra aceitar é o governo estadual ceder a uma reivindicação absurda como essa.
Em nota, o Metrô alegou que a estação ficaria a 600 metros da estação Mackenzie e a 1500 metros da futura estação PUC-Cardoso de Almeida, mudando o local da estação para a Praça Charles Miller , em frente ao Pacaembu, pois em dias de jogos o movimento ali é muito grande. Pra começar, em cidades como Madrid, Paris e Londres, é absolutamente normal encontrar, nas regiões mais valorizadas da cidade, estações que fiquem a menos de 400 metros umas das outras. Aqui em São Paulo mesmo, a estação Brigadeiro fica a cerca de 300 metros da estação Trianon-Masp, ou seja, argumento furado. Além disso a data de conclusão da estação é 2017, e até lá o “Itaquerão”, que está sendo construído sob o aval dos governos municipal, estadual e federal, já estará concluído, tornando o Pacaembu em estádio completamente inútil, não justificando uma estação naquele lugar nem em dias de jogo.
A decisão gerou vários comentários anti-semitas (o bairro é famoso por abrigar a comunidade judaica de São Paulo) na internet, que são condenáveis. A decisão repercutiu bastante, e virou motivo de indignação e piada dos estudantes e trabalhadores que vão pra lá todos os dias, que inclusive já marcaram um protesto neste sábado, em frente ao Shopping Higienópolis. Diante disso, nesta sexta-feira, o governo voltou atrás e anunciou que se a estação não for construída no lugar previamente definido, ficará num raio de, no máximo, 300 metros do local. A licitação da Linha 6-Laranja será em 2013, até lá o imbróglio deve estar solucionado. Sugiro até um novo nome pra estação: Gente Diferenciada.
A atitude dos moradores me parece cheia de preconceito e ignorância. Tudo bem que os endinheirados moradores de lá não usufruiriam da estação, pois afinal eles vão pro trabalho de helicóptero, mas a estação naquele lugar seria grande negocio para eles, pois iria valorizar ainda mais os imóveis. Além disso, assaltante não rouba somente em lugares que tem Metrô, na verdade eles não se importam muito com o transporte que utilizam. Camelô também não, eles vão aonde conseguem vender mais, e o perfil mais exigente do consumidor de Higienópolis dificultaria a venda dos produtos de baixa qualidade ofertados pelos camelôs. E mesmo que os argumentos fossem coerentes, o beneficio gerado a centenas de milhares de pessoas que trabalham ou estudam na região seria enorme. Alias quem assina um abaixo-assinado desses não tem direito de reclamar do trânsito caótico depois. Mas mesmo sendo um protesto estúpido, os ricos moradores de Higienópolis tem todo o direito de fazê-lo. O que não da pra aceitar é o governo estadual ceder a uma reivindicação absurda como essa.
Em nota, o Metrô alegou que a estação ficaria a 600 metros da estação Mackenzie e a 1500 metros da futura estação PUC-Cardoso de Almeida, mudando o local da estação para a Praça Charles Miller , em frente ao Pacaembu, pois em dias de jogos o movimento ali é muito grande. Pra começar, em cidades como Madrid, Paris e Londres, é absolutamente normal encontrar, nas regiões mais valorizadas da cidade, estações que fiquem a menos de 400 metros umas das outras. Aqui em São Paulo mesmo, a estação Brigadeiro fica a cerca de 300 metros da estação Trianon-Masp, ou seja, argumento furado. Além disso a data de conclusão da estação é 2017, e até lá o “Itaquerão”, que está sendo construído sob o aval dos governos municipal, estadual e federal, já estará concluído, tornando o Pacaembu em estádio completamente inútil, não justificando uma estação naquele lugar nem em dias de jogo.
A decisão gerou vários comentários anti-semitas (o bairro é famoso por abrigar a comunidade judaica de São Paulo) na internet, que são condenáveis. A decisão repercutiu bastante, e virou motivo de indignação e piada dos estudantes e trabalhadores que vão pra lá todos os dias, que inclusive já marcaram um protesto neste sábado, em frente ao Shopping Higienópolis. Diante disso, nesta sexta-feira, o governo voltou atrás e anunciou que se a estação não for construída no lugar previamente definido, ficará num raio de, no máximo, 300 metros do local. A licitação da Linha 6-Laranja será em 2013, até lá o imbróglio deve estar solucionado. Sugiro até um novo nome pra estação: Gente Diferenciada.
A Morte do Inimigo Numero 1 da América.

O ultimo dia primeiro de maio ficara marcado para sempre pela morte de Osama Bin Laden, o terrorista mais procurado da historia. Uma operação executado pelos Seals, tropa de elite da marinha estadunidense, no Paquistão, deu fim a uma busca que já durava quase 10 anos e 2 guerras, e instantaneamente desencadeou uma onda de comemorações e ufanismo nos Estados Unidos. Mas a morte de uma pessoa merece realmente tanta festa?
Por mais que Osama tenha cometido atrocidades, comemorar a morte de alguém me parece tão medieval. A comemoração foi tão grande que parecia até que todas as pessoas mortas em 11 de setembro haviam voltado vida. O jogador da NBA Chris Douglas-Roberts, uma mente sã no meio da insanidade criada pela morte do terrorista, criticou a celebração pelo Twitter. Tomou vaia de todo lado. Em seguida respondeu “Eu sou o idiota? Você é cristão. Deus ficaria feliz com você comemorando a morte? Foram necessárias 919.967 mortes para matar este cara. Foram necessários dez anos e duas guerras para matar este cara. Custou-nos aproximadamente R$ 1,9 trilhões para matar este cara. Mas estamos vencendo (sarcasmo)”.
No discurso oficial de anuncio da morte, Obama exaltou a guerra ao terror, e até citou a declaração dos direitos humanos. Direitos humanos que passaram longe dessa operação, primeiro porque informações importantes foram obtidas através de tortura de um prisioneiro em Guantánamo, e segundo porque, afinal, Osama foi morto, e sabe-se lá quais atrocidades deve ter sofrido antes disso. Muito mais digno teria sido dar um julgamento e depois jogá-lo na cadeia para sempre. Difícil crer que soldados tão bem treinados não tiveram condições de apenas capturá-lo. Alias esse deve ser um dos motivos de não liberarem fotos e vídeos da operação. Não estou dizendo que Bin Laden era inocente, ou que seus atentados terroristas, especialmente o de 11 de setembro, fossem justificáveis. Só estou dizendo que o discurso de defensores da paz e dos direitos humanos dos EUA não cola (faz tempo alias).
É importante lembrar que quem armou e treinou Bin Laden foram os EUA. Nos anos 80 eles apoiaram e financiaram o fundamentalismo religioso contra os soviéticos no Afeganistão. Depois da queda do governo socialista, os fundamentalistas, agora armados e treinados, se voltaram para lutar contra o imperialismo ocidental, dando origem à Al Qaeda e ao Talibã.
Alguns alegam que a comemoração seria muito mais por terem vencido a guerra contra o terrorismo, do que pela morte. Achar que venceram o terrorismo é uma ingenuidade enorme. Bin Laden era um líder importante, mas organizações criminosas surgem de situações sócio-econômicas desfavoráveis, e portanto só são realmente combatidas a partir do combate a essas situações. A Al Qaeda consegue recrutar centenas de árabes, pois dá esperança a pessoas sem perspectiva. Nesse sentido “A primavera árabe” é muito mais importante no combate ao terror do que a morte de Osama, pois as revoluções e quedas de ditadores dão esperança e perspectiva de dias melhores ao mundo árabe. Coincidência que nem a Al Qaeda, nem o Talibã, nem nenhuma organização terrorista apoiou o povo nessa revoltas?
Se os R$1,9 Trilhões gastos na procura de Bin Laden tivessem sido investidos em ajuda internacional ou na criação de instituições saudáveis nesses países, talvez hoje o mundo fosse um lugar mais seguro. Infelizmente, hoje o mundo é um lugar tão perigoso quanto há 2 semanas atrás.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
A Copa do Mundo é Nossa?

E lá se vão 3 anos e meio desde que o Brasil foi escolhido para ser sede da Copa do Mundo 2014. Se quando fomos escolhidos a Copa era uma preocupação distante, havia tempo, hoje não é mais, o tempo é relativamente curto. Naquele momento criou-se muita expectativa sobre as benesses que o evento poderia trazer ao país: estimulo à economia, aumento do turismo, “aprender” a organizar a venda de ingressos, etc. No entanto a organização do evento vem recebendo varias criticas, e já hora de fazer um balanço do que está acontecendo.
Pra começar, gostaria de dizer que este blogueiro que vos fala foi a favor e torceu pela escolha do Brasil como sede da Copa 2014, pois achava, ingenuamente, que por se tratar da Copa do Mundo, a fiscalização seria maior, que haveria mais seriedade...ledo engano.
Minha concepção começou a mudar logo de cara quando Ricardo Teixeira, presidente da CBF, foi nomeado presidente do COL (Comitê Organizador Local). Algo inédito, em nenhuma Copa do Mundo o presidente da federação nacional foi o mesmo do COL, pois este último deve ter autonomia (alias, é por isso que essa instituição existe). Pior, não bastasse ele ser o presidente, nomeou sua filha, Joana Havelange, como Secretaria Geral do COL, que, por isso, não está apenas subordinado aos interesses da CBF, como também aos interesses pessoais de Ricardo Teixeira.
A decepção seguinte veio com a escolha das 12 sedes da Copa. A única restrição imposta pelo próprio COL foi que houvesse pelo menos uma sede em cada uma das cinco regiões do país, o que eu acho justo. Algumas das cidades escolhidas são inquestionáveis, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porte Alegre, etc. Porém há escolhas no mínimo estranhas, começando com a escolha de Manaus. Se havia a imposição de no mínimo uma sede por região, a escolha obvia no norte seria Belém do Pará, único estado da região norte que tem times com representatividade nacional. Paysandu e Remo, os times mais tradicionais de Belém, já visitaram diversas vezes a elite do futebol nacional, e tem uma quantidade expressiva de torcedores. O Remo, em 2005, quando disputava a Serie-C do Brasileirão, teve a maior média de publico do país considerando todas as divisões. O Paysandu foi campeão da Copa dos Campeões de 2002 (batendo Corinthians, Palmeiras, Bahia e Cruzeiro), se tornando assim o primeiro (e único) time nortista a obter classificação para a Taça Libertadores da America (na qual bateu o Boca Juniors em “La Bombonera”). A escolha de Belém seria uma grande oportunidade para reformar o “Mangueirão”, estádio que não da mais conta de abrigar os clássicos entre Remo e Paysandu, e que merecia ser expandido. Agora, desafio alguém a me dizer, de cabeça, o nome de algum time de Manaus, ou algum grande feito do futebol amazonense, até mesmo algum jogador famoso. Difícil lembrar. Isso acontece porque no Amazonas o futebol é pouquíssimo difundido, e o gigantesco estádio para mais de 40 mil pessoas, com energia solar e materiais ecologicamente corretos, se tornará um grande elefante branco tão logo termine o mundial. Joana Havelange justificou a escolha de Manaus dizendo que a Amazônia é um dos maiores cartões postais do país, o que uma desculpa esfarrapada, já que a maior parte do estado do Pará também é coberta pela floresta.
A mesma aberração aconteceu na região centro-oeste. Dessa vez a escolha obvia seria Goiânia, pois o Goiás Esporte Clube é de longe o clube mais importante da região, figura na elite do futebol brasileiro a mais de 10 anos, é o único da região a participar da Taça Libertadores, e inclusive já foi finalista da Copa Sul-Americana. Freqüentemente os torcedores goianos lotam o Estádio Serra Dourada, com capacidade para mais de 50 mil pessoas. Mas as sedes escolhidas foram Brasília e Cuiabá. É até compreensível a escolha de Brasília, por ser a capital, pelo seu poder político (apesar de futebolisticamente não significar nada), mas nada justifica a escolha de Cuiabá. Assim como no Amazonas, Mato Grosso não tem cultura futebolística, ou você conhece algum time/jogador de lá? Nesses lugares as pessoas nem se quer torcem para os times locais, torcem para os times dos grandes centros. E mais algumas centenas de milhões de reais serão gastos na construção de mais um elefante branco. Alguns jornalistas maldosos especulam que Teixeira tem negócios com o ex-governador do Mato Grosso, Blairo Borges, mas isso é só intriga...
Outra decepção foi deixarem Florianópolis de fora. Como excluir um estado rico, turístico e que possui representantes na elite do futebol brasileiro a mais de dez anos? Em seu lugar foi escolhida Natal-RN , onde há sim cultura futebolística, mas é um estado pobre, que tem muitas outras prioridades antes de construir um estádio. Não a toa é sede mais atrasada. Tudo isso porque o presidente da Federação Potiguar é aliado de Ricardo Teixeira.
Uma situação que mostra claramente os desmandos do presidente da CBF são os acontecimentos envolvendo o Morumbi. Escrevi na postagem anterior sobre o conflito entre SPFC e Ricardo Teixeira, e quem tiver curiosidade, de uma olhada. O fato é que desde o começo houve uma pré-disposição negativa com o estádio do São Paulo. No inicio, apesar do bom senso indicar que a abertura da Copa deveria ser em São Paulo, o COL sinalizava que Belo Horizonte e até Brasília também estariam no páreo. Alegavam que o Morumbi tinha problemas demais, o que não é verdade se comparado a outras sedes. Segundo o relatório oficial da FIFA, o projeto de reforma do Morumbi apresentou 30 problemas, enquanto a média das 12 sedes foi de 31 problemas, ou seja, nada fora do normal.
Em julho de 2010, depois da derrota do candidato indicado por Ricardo Teixeira no Clube dos 13 (veja a importância disso na postagem anterior), e aproveitando que os olhos do Brasil e do Mundo estavam voltados para a Copa do Mundo da África do Sul, o COL anuncia que o Morumbi estava fora da Copa, alegando que não havia sido comprovada a viabilidade financeira do projeto. Claro, então todas as sedes, incluindo Natal, Manaus e Cuiabá, teriam um projeto maravilhoso e viável MENOS a cidade mais rica e pujante do país, realmente, me parece bem lógico. No dia seguinte ao veto, Andres Sanchez, presidente do Corinthians e grande aliado de Ricardo Teixeira (é inclusive um dos mais cotados para assumir a presidência da CBF depois que Teixeira sair pra tentar a presidência da FIFA), anuncia a construção do estádio corintiano, que seria financiado com dinheiro do próprio clube e não teria nenhuma relação com a Copa, mas como a cidade estava sem estádio o projeto também serviria para o evento, dizendo também que Teixeira havia aprovado o projeto sem olhá-lo pois o Corinthians tem muita credibilidade.
Claro, um dia depois do veto ao Morumbi o Corinthians apresenta um projeto pronto, mas um acontecimento não tem relação com o outro. E é lógico que não haverá recursos públicos! (ops, o governo já deu isenção fiscal de 50% pra todo material usado no estádio, inclusive equipamentos que ficarão com a empreiteira). Sejamos realistas, o Corinthians fala em construir um estádio a mais de 40 anos, se fosse fazer com o dinheiro do próprio bolso, já teria feito faz tempo. Alguns meses mais tarde o estádio foi realmente aprovado como sede paulista, e o mais intrigante é que, segundo o relatório da FIFA, o projeto do “Fielzão” apresenta nada menos que 109 problemas, quase quatro vezes mais que o Morumbi! Dentre os problemas apontados estão a falta de transportes públicos (não há nem projeto de estação de Metrô a ser construído próximo ao estádio), falta de rede hoteleira próxima, canos de esgoto e até dutos de petróleo que teriam que ser removidos, entre muitos outros. Há ainda que se questionar, uma vez que o Morumbi não serve, porque a sede paulista não poderia ser o Palestra Itália, que já havia começado sua reforma ano passado (este sim, um projeto independente da Copa pois os preparativos da reforma começaram em 2007)? Por que não cogitar uma reforma no Pacaembu? Tudo isso sairia bem mais barato. E falando em Pacaembu, um aspecto muito triste é que com a construção de um quarto estádio numa cidade que tem três clubes grandes, o Pacaembu será abandonado. Passará de símbolo da arte déco a elefante branco paulista. O curioso é que depois que o Morumbi foi vetado não há mais duvidas da onde será a abertura do mundial! Será em São Paulo, independente do estádio.
Outros escândalos têm aparecido, como o contrato que garante a Ricardo Teixeira os lucros da Copa, ou o relatório do IPEA que mostra que 9 dos 13 aeroportos não estarão prontos para o mundial. E outros, como obras superfaturadas, ainda estão por vir. Mas talvez eu esteja exagerando, como disse Andres Sanches em entrevista coletiva “vocês são muito desconfiados, precisam acreditar mais nas pessoas”...
Uma das primeiras questões levantadas após a escolha do Brasil como sede da Copa 2014 foi se num país como o Brasil, onde milhões de pessoas passam fome, outras milhões não têm saneamento básico, onde não há educação publica de qualidade nem segurança nas grandes cidades, seria correto receber uma Copa do Mundo? Em minha opinião, não.
Eu acho absurdo gastar-se R$1 Bilhão na reforma do Maracanã, enquanto, segundo o IBGE, somente 15% das escolas publicas do país tem uma quadra para pratica de esportes. Acho obsceno dar 50% de isenção fiscal na construção do “Fielzão”, enquanto as micro e pequenas empresas estão sufocadas de tanto imposto. Acho imoral gastar R$700 milhões na reconstrução da Fonte Nova enquanto o Metrô de Salvador tem apenas 6 Km.
Itaquera não precisa de um estádio, precisa de obras contra enchentes. Os cariocas não precisam de um novo Maracanã, precisam de moradias seguras contra deslizamentos. Não precisamos sediar um evento mundial que a maioria de nós verá apenas pela TV, precisamos de mais quadras e espaços públicos para nos exercitarmos e termos uma vida mais saudável, e mais que isso, precisamos educação de qualidade para que o esporte não seja a única esperança de ascensão social.
Mas os eventos recentes relacionados ao Pan 07 e agora a Copa do Mundo revelam outro problema: o Brasil não tem maturidade institucional para sediar eventos desse porte. Dirigentes de honestidade duvidavel, que estão no poder há décadas, mandam e desmandam na organização desses eventos, priorizando interesses pessoais e escusos. Enquanto isso as autoridades se calam, corroboram com os esquemas liberando mais verbas para tentar cumprir os prazos sempre atrasados. O Brasil não tem instituições confiáveis, tanto para programar/executar, quanto para fiscalizar. É como se esses eventos fossem particulares, o Nuzman é dono do Pan e das Olimpíadas, e a Copa do Mundo é do Ricardo Teixeira. Nada é do povo brasileiro.
O pensador italiano Antonio Gramsci dizia que nós temos o dever do ceticismo na analise, e do otimismo na ação. Que há otimismo na preparação da Copa, há. Mas faltou ceticismo na analise para perceber que esse era um passo maior que nossas pernas.
sexta-feira, 11 de março de 2011
A implosão do Clube dos 13

Nas ultimas semanas noticias sobre um racha no Clube dos 13 e a renovação dos direitos de transmissão dos jogos do brasileirão tem movimentado o futebol brasileiro. Para entender melhor o que é o Clube dos 13, pra que serve, e quais os interesses envolvidos, é necessário uma recapitulação histórica.
Na década de 1980 houve uma revolução no mundo da bola. Os clubes europeus finalmente perceberam que tinham um negocio multimilionário nas mãos, e que a maior parte lucro ficava com as federações, pois estas organizavam e geriam os campeonatos. Desta forma os principais clubes do continente se uniram e colocaram a UEFA contra parede: ou a federação européia permitia uma fatia maior nas quotas de TV e patrocínio dos campeonatos europeus aos clubes, ou os clubes boicotariam os campeonatos. A UEFA, sem saída, cedeu, afinal eram os clubes que faziam o show.
Pouco depois, na virada dos anos 80 para os 90, essa revolução aconteceu domesticamente e até se aprofundou: organizações criadas pelos clubes, as ligas, substituíram as federações nacionais na organização e gerenciamento dos campeonatos. Dessa forma surgiram a Premier League na Inglaterra, La Liga na Espanha, a Bundesliga na Alemanha, entre outras, deixando a cargo das federações apenas o comando das seleções nacionais.
Tais conquistas proporcionaram um aumento vertiginoso na receita dos clubes europeus a partir de então. No Brasil esse movimento teve forte repercussão. Liderado por uma rara geração de bons dirigentes, os principais clubes do país, cansados da má organização do campeonato brasileiro pela CBF, resolveram se unir e formaram o Clube dos 13 em 1987 (ou seja, 5 anos mais velho que a liga mais rica do mundo, a Premier League). O C13 era formado por Atletico-MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco. Seu intuito inicial era substituir a CBF e organizar o campeonato nacional dali em diante, e assim foi feito em 87, com a polêmica Copa União. A validade ou não desse torneio é um assunto complexo, e não cabe aqui discutir. O fato é que o torneio aconteceu e a CBF estava vendo seu poder se reduzir à seleção nacional.
Em um primeiro momento a CBF fez inúmeras concessões ao C13, com a finalidade que o campeonato voltasse para suas mãos, pelo menos temporariamente, e foi o que aconteceu. Em seguida, Ricardo Teixeira (que viria a se tornar presidente da CBF a partir de 89) e outros dirigentes da entidade usaram seu poder político para amansar os clubes. Aos poucos Teixeira conseguiu colocar homens de confiança no comando de clubes de grande expressão, ajudando-os a se perpetuar no poder . Essas personalidades ficaram conhecidas como “os ditadores do futebol brasileiro”. São eles: Mustafá Contursi no Palmeiras, Marcelo Teixeira no Santos, Zezé Perrela no Cruzeiro, Paulo Maracajá no Bahia, Alberto Dualib no Corinthians, Eurico Miranda no Vasco, Roberto Horcades no Fluminense, entre outros. Esses “ditadores” comandaram direta ou indiretamente esses clubes desde aquela época, muitas vezes priorizando interesses pessoais e escusos, e só começaram a sofrer derrotas políticas recentemente.
Com aliados na presidência da maioria absoluta dos clubes membros do C13, Ricardo Teixeira conseguiu articular vitorias dentro deste, e desde o inicio dos anos 90 até 2010, o candidato à presidência do C13 indicado pela CBF sempre foi o vencedor. Assim a autonomia do C13 diminuiu, se tornando um fantoche nas mãos de Ricardo Teixeira, que conseguiu frear a revolução que os clubes propunham, nos mesmos moldes do que aconteceu na Europa. Isso explica, em parte, o gigantesco aumento no êxodo de jogadores a partir de então (que já ocorria antes, mas não na mesma intensidade), já que os europeus melhoraram muito sua situação financeira, enquanto os brasileiros ficaram parados no mesmo lugar.
Com o passar dos anos Ricardo Teixeira conseguiu mais um importante aliado: Marcelo Campus Pinto, principal executivo da Globo Esportes (departamento da emissora que cuida dos programas esportivos). Por um lado a CBF concede regalias à Globo, entrevistas exclusivas, intercede em favor da emissora na FIFA pela venda dos direitos de transmissão das Copas, e principalmente, facilita a venda dos direitos de transmissão dos campeonatos nacionais, através de seu fantoche, o C13. Do outro lado, o jornalismo da Globo se cala sobre a CBF e Teixeira. Se calou sobre a CPI da CBF, se calou sobre o nepotismo na CBF, se cala sobre as falcatruas de Teixeira nas obras da Copa 2014, entre muitas outras. E é sabido o poder de profusão de informação da emissora da família Marinho, se a noticia não passa no JN, não é uma noticia consolidada, principalmente porque as outras emissoras têm medo de enfrentá-la (a Record tem mudado isso nos últimos anos). Marcelo e Ricardo são, inclusive, amigos pessoais hoje em dia.
Durante esse período Teixeira teve dois ferrenhos opositores: O São Paulo e o Flamengo (Ricardo Teixeira conseguiu colocar Kleber Leite no comando do Flamengo, mas por apenas 3 anos). Juntos eles foram os dois principais idealizadores do C13, e os principais defensores de um C13 mais autônomo, tentaram por diversas vezes articular uma vitoria sobre o candidato de Teixeira, mas sempre fracassavam. Até 2010. Ano passado a conjuntura política do futebol brasileiro havia mudado consideravelmente, vitorias importantes, como a queda de Mustafá Contursi no Palmeiras e de Eurico Miranda no Vasco, haviam acontecido. Com isso Patrícia Amorim e Juvenal Juvêncio lideraram a oposição e conseguiram derrotar Kleber Leite, candidato da CBF à presidência do C13. A primeira derrota de Teixeira em muitos anos.
É ai que começa a grande polêmica. A mudança mais notada nessa nova administração foram as novas regras para licitação dos jogos do Brasileirão. Antes, qualquer oferta de uma emissora era apresentada a Globo, que se pagasse uma quantia igual ficaria com os direitos de transmissão, sem possibilidade de contra proposta por parte da outra emissora, o que inibia a concorrência e a Globo pagava uma ninharia sempre. Pelas novas regras, as emissoras interessadas devem colocar suas propostas dentro de envelopes, que serão abertos juntos, a maior proposta ganha. Atualmente a Globo paga R$ 200 milhões por ano, o lance mínimo imposto pelas novas regras é de R$ 500 milhões por ano, ou seja, um aumento de 150%, e ainda assim 5 emissoras (de TV aberta – Globo, Record, SBT, Band e RedeTV) se mostraram interessadas na licitação, um recorde, o que mostra claramente como as regras anteriores inibiam a concorrência. E esse é o valor mínimo, numa disputa com 5 emissoras esse valor poderia crescer ainda mais, segundo informação apurada pelo jornalista Paulo Vinicius Coelho, a Record estaria disposta a pagar R$ 1 Bilhão pelos direitos de transmissão.
Esse realmente seria um marco no futebol brasileiro, mas, como era de se esperar, Ricardo Teixeira não ficou inerte. Voltemos um pouco no tempo, logo após derrota sofrida por seu candidato a presidência do C13, o cartola agiu rápido e colocou em pratica um plano ardiloso. Primeiro demonstrou autoridade, e nos dias seguintes à derrota no C13, Teixeira (que inexplicavelmente é o chefe da comissão organizadora da Copa 2014, coisas de Brasil) anunciou que o Murumbi estava fora da Copa, e dessa forma castigou o São Paulo. A parte seguinte do plano tem há ver com a taça das bolinhas. A taça das bolinhas é uma taça instituída em 1971, que deveria ser entrega ao primeiro clube que fosse campeão brasileiro 3 vezes seguidas ou 5 alternadas. O Flamengo se diz o legitimo dono dessa taça desde 92, porém a CBF não reconhecia o titulo de 87 (a Copa União), o que abria a possibilidade de um o outro clube vencer 5 vezes e conseguir taça, gerando uma grande polêmica. Por ironia do destino esse clube foi o São Paulo, o maior aliado do Flamengo, e Ricardo Teixeira soube usar isso a seu favor. Pouco mais de uma semana depois da derrota no C13, a CBF anunciou que o dono da taça das bolinhas era o São Paulo (a entidade não tinha se pronunciado sobre o assunto desde que o clube ganhou seu quinto titulo, em 2007), castigando o Flamengo, e incitando a discórdia entre os dois aliados. Após o anúncio oficial, a Caixa Econômica Federal, onde estava guardada a taça das bolinhas, diz que esta precisa de uma restauração, e será entregue em alguns meses.
Ainda em 2010, Ricardo Teixeira castigaria São Paulo e Flamengo mais uma vez ao reconhecer os títulos da Taça Brasil e do Robertão. Como já escrevi no blog, eu considero o reconhecimento justo, mas ele aconteceu pelo motivo errado. Antes Flamengo e São Paulo eram considerados os maiores campeões brasileiros, pela “nova” contagem, Palmeiras e Santos passam a frente. Teixeira esteve 21 anos a frente da CBF, por que foi reconhecer esses títulos só agora?
Outro personagem importante nessa historia é Andrés Sanchez, o lacaio. Sanchez, como se sabe, foi um grande entusiasta de seu predecessor, Alberto Dualib, e só mudou de lado na iminência da saída do “ditador”. Porém, mal assumiu a presidência do Corinthians e já se tornou o maior aliado de outro “ditador”, Ricardo Teixeira.
Ambos vêm trocando favores a um bom tempo, e Sanchez já é, inclusive, o mais cotado para a presidência da CBF quando Teixeira sair para tentar a presidência da FIFA. Foi até o chefe da delegação da seleção brasileira na Copa 2010. Ricardo Teixeira também soube agradecer, aprovando o projeto de estádio do Corinthians para a Copa sem ao menos ver o projeto (como o próprio Andrés afirmou).
Depois da derrota do candidato da CBF no C13, Andrés Sanchez disse à imprensa que a instituição não servia pra nada e deveria acabar. Em seguida tentou reorganizar a situação que havia virado oposição, e conseguiu. Nos últimos meses Andrés vêm criticando as novas regras de licitação dos direitos de transmissão, dizendo que as cotas de TV são importantes, mas o dinheiro do patrocínio também é, e prefere expor seus parceiros na Globo, porque tem uma audiência maior, e portanto a emissora carioca deveria sim ter preferência na licitação. Como se o torcedor fosse deixar de ver o jogo do seu time só porque vai passar na Record e não mais na Globo.
Pois bem, faltando cerca de dez dias para o inicio da licitação o São Paulo recebe da Caixa Econômica Federal a taça das bolinhas, e faz uma grande festa, chamando a imprensa, o que gerou novas discussões e átrios com o Flamengo. Mostrando o quão imbecil e infantil é Juvenal Juvêncio.
Dois dias antes do inicio da licitação a CBF anuncia que reconhece o titulo brasileiro de 87, do Flamengo, e que portanto este é o legitimo dono da taça das bolinhas, isto menos de um ano depois de afirmar categoricamente que o São Paulo era o dono. Os desentendimentos entre São Paulo e Flamengo pegam fogo, o que fortalece a oposição. O Corinthians de Sanchez inicia o motim e anuncia que está fora do C13. O Flamengo devido ao desentendimento muda de lado junto com o Fluminense, se unindo a Botafogo e Vasco, e anunciando sua saída em conjunto, logo em seguida os outros times da oposição fazem o mesmo.
Esses que saíram anunciam que vão negociar separadamente, o que é terrível pro futebol brasileiro, pois diminui muito a quantia que cada clube receberá de cota de TV. Se por exemplo, o Corinthians vender seus direitos para a Globo, e o São Paulo para RedeTV!, o clássico entre os dois times não poderá ser transmitido por nenhuma emissora, nem se as duas estiverem em comum acordo, porque o CADE não permite. Por isso é sempre bom negociar em conjunto.
No final das contas a única emissora que mandou proposta para o C13 foi a RedeTV!, um pouco mais que o mínimo, R$ 516 milhões, bem abaixo do que poderia ser, mas mais de 150% maior que o valor recebido atualmente, porém a está altura o C13 já não tem mais autonomia para negociar pelos clubes. A tendência é que a Globo consiga negociar em particular com os clubes, sendo bem mais generosa com aliados que ajudaram a manter seus privilégios de negociação.
O futebol brasileiro perdeu uma grande chance nessa licitação, e a culpa não é só de maus dirigentes como Ricardo Teixeira e Andrés Sanchez, mas também dos patéticos Juvenal Juvêncio e Patrícia Amorim, que jogaram por terra uma vitoria histórica por causa de uma taça sem valor nenhum como a das bolinhas.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Os 10 Melhores Times Brasileiros da História.
Aviso: Esta lista foi feita através de pesquisa histórica em livros e revistas, e de vídeos na internet e na TV, já que não vi nenhum destes times em ação. O critério de escolha tem caráter extremamente subjetivo, então se seu time favorito não entrou na lista, não chore. No final da lista há 20 menções honrosas que foram cogitadas pra entrar na lista, e merecem ser citadas.
10 – A Primeira Academia do Palmeiras. (1960-67)
Um dos times mais vencedores do futebol brasileiro. Em 8 anos foram 3 títulos nacionais (2 Taças Brasil – 65 e 67 - e 1 Robertão- 67), 1 torneio Rio-SP (65) e 2 campeonatos paulistas (63 e 66), além de torneios internacionais, e isso em uma época que a concorrência era fortíssima, nada menos que o Santos de Pelé, o Botafogo de Mané Garrincha, e o Cruzeiro de Tostão.
Valdir era o goleiro, a defesa era formada por Servilio, Waldemar Carabina, Djalma Dias e Djalma Santos (eleito pela FIFA o melhor lateral-direito do século), seguidos pela excepcional dupla de meias Dudu e Ademir da Guia (os únicos a permanecerem na segunda academia), Julinho Botelho na ponta-direita e no ataque Chinesinho e mais tarde Tupãzinho. Como o apelido sugeria, o time dava aula de como jogar bola
9 – A Segunda Academia do Palmeiras. (1969-1974)
Depois de 1 ano de entressafra a academia se reinventou, agora com um time mais veloz e mais habilidoso. Conquistou praticamente os mesmos títulos que a primeira academia: 3 títulos nacionais (69, 72 e 73), 2 paulistas (72 e 74), além de torneios internacionais, porém o futebol desta geração era mais vistoso, e diferente da primeira academia que vivia à sombra do Santos, desta vez a hegemonia nacional pertencia aos palestrinos.
O goleiro era Leão, a defesa era formada pelos discretos Eurico e Alfredo, e pelos monumentais Zequinha e Luís Pereira. No meio foram mantidos Dudu e Ademir, com o acréscimo de Leivinha. No ataque Edu Bala, Nei e César Maluco. A academia continuava dando aula.
8 – Inter de Falcão. (1973-76)
O Internacional já era tetracampeão gaúcho em 1973, a já tinha um timaço respeitado em todo país. Mas foi em 73 que Paulo Roberto Falcão vestiu pela primeira vez a camisa do clube colorado, sendo ele a ultima peça que faltava para o clube formar o melhor time brasileiro da década de 70. Um time que fugia do estereótipo gaúcho de futebol-força, pois, apesar de marcar muito bem, a equipe tinha muito talento e brilho. Ganharam 4 campeonatos gaúchos (sendo octacampeões seguidos no período 1969-76) e o Bicampeonato brasileiro 75/76.
O time contava com o consagrado goleiro Manga no gol, a defesa era formada por Cláudio, Figueroa, Marinho Perez e Vacaria. No meio-de-campo sobrava talento com Falcão, Carpegiani, Lula e Valdomiro. No ataque, os habilidosos Flávio e Dário, e o matador Claudiomiro.
7 – Botafogo de Mané Garrincha. (1957-64)
O que dizer do time que foi a base das 2 primeiras seleções brasileiras campeãs do mundo? Foram 4 titulares em 58 e 6 titulares em 62.
Pelo clube da estrela solitária venceram 3 campeonatos cariocas (57,62 e 63) e 2 torneios Rio-SP (62 e 64). Poderiam ter sido mais títulos se não fosse a eterna e inexplicável falta de sorte nos momentos decisivos do time de General Severiano contra seus rivais cariocas, em especial, o Flamengo. Também ficou sem um titulo nacional, impedidos pelo Rei Pelé e pelos acadêmicos e eficientes palestrinos. Apesar disso o time marcou época pelo seu futebol ofensivo e habilidoso.
Manga era o goleiro, na zaga Paulistinha e Jadir, nas laterais Ríldo e Nilton Santos (eleito melhor lateral-esquerdo do século pela FIFA). No meio-de-campo Didi, Zagallo e o lendário Garrincha (que também faz parte da seleção do século da FIFA). No ataque Amarildo e Quarentinha.
6 – Palmeiras da Parmalat. (1993-94)
No final de 1974 tudo que o corinthiano mais queria era encerrar o jejum de títulos, que já durava 20 anos, vencendo o campeonato paulista em cima do maior rival, o Palmeiras. Mas o time de Ademir e Dudu não permitiu e levou o titulo pra casa, postergando por mais 3 anos o jejum que seria quebrado contra a Ponte Preta.
Em 1993 a situação havia se invertido. O Palmeiras estava a 16 anos na fila, e o Corinthians ansiava por vingança na final do Paulistão daquele ano. Mas os 4X0 em favor do time verde dizimaram o tabu, e deu aos palmeirenses o gostinho que os corinthianos não tiveram 20 anos antes. Ainda em 93, venceram o Rio-SP (de novo em cima do Corinthians) e o Campeonato Brasileiro. Em 1994 repetiram a dose, foram campeões paulista e brasileiro (mais uma vez contra o Corinthians). Como todo bom time brasileiro, este esbanjava habilidade e dribles desconcertantes, e só não ganhou mais títulos pois coexistiu com outro time mítico: o São Paulo de Telê Santana.
A equipe era formada por Velloso no gol, Cléber e Antonio Carlos na zaga, Mazinho e Roberto Carlos nas laterais, César Sampaio, Edílson e Rincón no meio, e Edmundo, Evair e Rivaldo no ataque. Uma verdadeira seleção.
5 – São Paulo de Telê. (1991-94)
Telê Santana foi um técnico brilhante, ganhou muitos títulos, fez grandes trabalhos no Grêmio, Fluminense, Atlético-MG, Palmeiras, entre muitos outros, mas no inicio da década de 90 tinha a injusta fama de pé frio devido às seleções brasileiras de 82 e 86, que ele brilhantemente montou, mas acabaram derrotadas. Foi justamente no São Paulo, seu ultimo clube antes de se retirar do futebol devido a uma isquemia cerebral, que o mestre eliminou de maneira categórica essa fama.
O São Paulo chamou Telê em 1990, que montou o time às pressas e conseguiu ser vice-campeão brasileiro já naquele ano. Teria sido um bom resultado se a derrota não tivesse sido para o arqui-rival Corinthians. A torcida pedia a cabeça do técnico, mas ele permaneceu. O começo de 91 não foi nada animador: 5 derrotas seguidas nos 5 primeiros jogos, incluindo 4X0 para outro rival, o Palmeiras, mas ainda assim a diretoria resolveu mante-lo. E não se arrependeu, em troca o mestre Telê ganhou todos os títulos possíveis e transformou o clube do Morumbi no maior detentor brasileiro de títulos internacionais. Ainda no inicio de 91, o time se recuperou e foi campeão paulista e depois brasileiro. Em 92 foi novamente campeão paulista e iniciou à saga internacional sãopaulina: Supercopa da Libertadores (93), Bicampeão da Libertadores (92/93), Bicampeão da Recopa (93/94) e Bicampeão do Mundo (92/93), o primeiro (e único) time brasileiro a ser bicampeão do mundo desde o Santos de Pelé. Em 94 ganhou a Copa Conmebol com o expressinho, mas perdeu o Tri da Libertadores em pleno Morumbi, nos pênaltis.
O time base era formado por Zetti no gol, Adílson e Ronaldo na zaga, Cafu e Leonardo nas laterais, Pintado, Dinho, Toninho Cerezo e Raí no meio-de-campo, e Palhinha e Müller no ataque. Técnico: Telê Santana, claro.
4 – O Expresso da Vitória - Vasco. (1944-52)
“Uma maquina de fazer gols”, essa talvez seja a melhor alcunha a ser dada a esta equipe, que com seu batalhão de excelentes avantes, se lançava freneticamente ao ataque, sempre tentando golear nos primeiros minutos. Os placares eram sempre elásticos, chegando a registrar 14X1 sobre o Canto do Rio, a maior goleada da Era profissional do futebol carioca. Foram tantas as vitorias de goleada que ganharam o apelido de Expresso da Vitoria. Levantaram o troféu de campeão carioca 5 vezes (45,47,49,50 e 52), mas a grande gloria deste time foi ter vencido o Campeonato Sul-Americano de Campeões (48), o primeiro torneio oficial entre clubes na América do Sul. Os troféus poderiam ter ainda mais freqüentes se o time tivesse uma defesa mais solida, característica que fez falta em alguns momentos decisivos.
Barbosa (titular do Brasil na Copa de 50) era o goleiro vascaíno. A defesa era formada pelo argentino Rafagnelli e Augusto da Costa. A linha media era composta por Ely, Danilo Alvim e Moacyr. Seu quinteto de ataque era Ademir de Menezes (artilheiro da Copa de 50), Friaça (também foi titular na Copa de 50), Lelé, Ipojucan e Tesourinha (titular na conquista do Sul-americano de seleções em 49), com uma curta passagem do lendário Heleno de Freitas em 48 (Nessa época o esquema tático mais comum era o 2-3-5).
3 – O Rolo Compressor – São Paulo. (1943-49)
Não, o melhor time do São Paulo na historia não é o de Telê Santana. O maior São Paulo de todos foi o dos anos 40, pois apesar de aquele ser praticamente uma seleção, este era efetivamente um combinado das seleções de Brasil, Argentina e Uruguai.
O time teve dois goleiros: na primeira fase foi King, titular da seleção uruguaia, na segunda fase foi Gijo (único do elenco a não ser titular em sua seleção). A defesa contava com Piolim (zagueiro titular do Brasil nos anos 40) e Renganesh (titular da seleção argentina nos anos 40). A linha média era formada pelos míticos Rui, Noronha e Bauer (jogaram juntos na conquista do Sul-Americano de 49 e na Copa de 50). No ataque Luizinho (titular do Brasil nas copas de 34 e 38), Sastre (titular da Argentina nas copas de 34 e 38), Remo (titular do Brasil nos anos 40), Teixeirinha (titular do Brasil nos anos 40), e o craque Leônidas da Silva, considerado o melhor jogador brasileiro antes da Era Pelé (jogou a Copa de 34, e foi o melhor jogador e artilheiro da Copa de 38). Lembrando mais uma vez que o esquema tático comum na época era 2-3-5.
O time era tão bom, que ganhou o apelido de Rolo Compressor porque raramente perdia. De 1943 até 1949, considerando só o campeonato paulista, o mais difícil da época, foram 142 jogos, 101 vitorias, 28 empates, 13 derrotas e 5 títulos paulistas conquistados (43,45,46,48 e 49), e isso numa época em que o rival Palmeiras, de Oberdan Cattani, era fortíssimo. Brigas internas, entre os jogadores, prejudicaram as campanhas nos campeonatos de 44 e 47, o que era natural que acontecesse num time de tantas estrelas.
Infelizmente, a inexistência de campeonatos nacionais e interestaduais impediu que os dois grandes times da década de 40, o Expresso da Vitoria e o Rolo Compressor, se enfrentassem em partidas importantes. Mas há alguns aspectos a se considerar: apesar de os ataques das duas equipes se equivalerem, a defesa e a linha média do tricolor eram consideravelmente melhores. Além disso, segundo o escritor e jornalista Roberto Sander, São Paulo e Vasco se encontraram, em amistosos e torneios extra-oficiais, 17 vezes durante a década de 40, foram 6 vitorias tricolores, 8 empates e 3 vitorias cruzmaltinas. Por isso São Paulo fica uma posição a frente do Vasco.
2 – Flamengo de Zico. (1980-83)
O Flamengo do inicio dos anos 80 pode ser definido como técnica em favor de um conjunto altamente competitivo. O time tinha habilidade, velocidade, fazia toques curtos e lançamentos longos, acima de tudo tinha brilho, e foi a base da fantástica seleção brasileira de 82.
Mas não era apenas um time que jogava bonito, com lances plásticos, passes perfeitos e gols maravilhosos. Era também um time muito eficiente, prova disso é que ganhou todos os títulos possíveis: Foram 3 Brasileiros (80,82 e 83), 1 Carioca (81), 1 Libertadores (81) e 1 Mundial (81).
A formação era: Raul Plassman no gol, Marinho e Mozer na zaga, Leandro e Júnior nas laterais, Andrade, Adílio e Zico no meio-de-campo, e Tita, Nunes e Lico no ataque.
1 – Santos de Pelé. (1960-69)
Um mito. Assim pode ser descrito o time, bem como seu principal jogador. Pelé, o melhor jogador da historia, único a ganhar 3 vezes a Copas do Mundo, e o único a fazer mais de 1.000 gols, comandava um time impiedoso que massacrava seus adversários e arrematava dezenas de títulos.
O time começou a se formar já em 1955, e alguns jogadores permaneceram até os anos 70, mas a formação principal ficou junta de 1960 até 1969, com algumas alterações. Nesse espaço de 10 anos, o Santos faturou nada menos que 8 Campeonatos Paulistas (60,61,63,64,65,67,68 e 69), 6 Campeonatos Brasileiros (5 Taças Brasil - 61,62,63,64 e 65 - e 1 Robertão - 68), 3 Rio-SP (63,64 e 66), 2 Libertadores (62 e 63) e 2 Mundiais(62 e 63). Isso sem contar os inúmeros torneios internacionais pelo mundo afora. Poderiam ter sido mais. Na época a Libertadores não contava com todo o prestigio que tem hoje, e pior, era deficitária, pois a renda era toda do mandante, ou seja, o Santos jogava na Bolívia (por exemplo), o estádio lotava, mas o dinheiro ficava com o time boliviano, quando o time boliviano jogava aqui ninguém dava bola e o santos não arrecadava. Durante os anos 60 o Santos se classificou pra Libertadores 7 vezes, em 3 ocasiões o clube abriu mão de jogá-la em favor de torneios internacionais pelo mundo, muito mais rentáveis. Outras 2 vezes jogou com o time reserva, priorizando o Paulistão. Nas únicas duas vezes que jogou com força máxima, saíram vencedores. Resta aos santistas lamentar.
Os Torneios Internacionais que o Santos jogava também foram muito importantes, pois levaram a fama do time a todos os cantos do globo, conseguindo repercussão mundial numa época que a globalização engatinhava. Esses Torneios proporcionaram vitorias históricas sobre Boca Juniors, Real Madri, Inter de Milão, Manchester United, Benfica, Milan, entre muitos outros. A fama do Santos era tão grande, que em 1969, ao fazer uma excursão pela África, descobriram que o próximo país que iam se apresentar, o Congo, estava em guerra civil, entre o exercito da capital Brazzaville e os rebeldes de Kinshasa, e os jogadores ficaram com medo de um bombardeio. Depois de alguma negociação, os rebeldes concordaram com uma trégua desde que o Santos também jogasse em Kinshasa. É do time que parou uma guerra o merecido primeiro posto.
O esquadrão era formado por: Gilmar (campeão do mundo em 58) no gol, Mauro, Calvet e Almir Pernambuquinho na zaga , Olavo, Zito (também campeão do mundo em 58) e Dalmo no meio, e no ataque o clássico quinteto Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
20 Menções Honrosas: Atlético-MG (76-78), Botafogo (67-72), Corinthians (51-54), Corinthians (98-99), Cruzeiro (65-71), Cruzeiro (75-76), Flamengo (53-55), Fluminense (17-19), Fluminense (36-41), Grêmio (83-85), Internacional (79-80), Palmeiras (30-34),Palmeiras (40-47) Palmeiras (96), Paulistano(16-21), Santos (02-04), São Paulo (70/71), São Paulo (85-87), São Paulo (05-06), Vasco (97-98).
10 – A Primeira Academia do Palmeiras. (1960-67)
Um dos times mais vencedores do futebol brasileiro. Em 8 anos foram 3 títulos nacionais (2 Taças Brasil – 65 e 67 - e 1 Robertão- 67), 1 torneio Rio-SP (65) e 2 campeonatos paulistas (63 e 66), além de torneios internacionais, e isso em uma época que a concorrência era fortíssima, nada menos que o Santos de Pelé, o Botafogo de Mané Garrincha, e o Cruzeiro de Tostão.
Valdir era o goleiro, a defesa era formada por Servilio, Waldemar Carabina, Djalma Dias e Djalma Santos (eleito pela FIFA o melhor lateral-direito do século), seguidos pela excepcional dupla de meias Dudu e Ademir da Guia (os únicos a permanecerem na segunda academia), Julinho Botelho na ponta-direita e no ataque Chinesinho e mais tarde Tupãzinho. Como o apelido sugeria, o time dava aula de como jogar bola
9 – A Segunda Academia do Palmeiras. (1969-1974)
Depois de 1 ano de entressafra a academia se reinventou, agora com um time mais veloz e mais habilidoso. Conquistou praticamente os mesmos títulos que a primeira academia: 3 títulos nacionais (69, 72 e 73), 2 paulistas (72 e 74), além de torneios internacionais, porém o futebol desta geração era mais vistoso, e diferente da primeira academia que vivia à sombra do Santos, desta vez a hegemonia nacional pertencia aos palestrinos.
O goleiro era Leão, a defesa era formada pelos discretos Eurico e Alfredo, e pelos monumentais Zequinha e Luís Pereira. No meio foram mantidos Dudu e Ademir, com o acréscimo de Leivinha. No ataque Edu Bala, Nei e César Maluco. A academia continuava dando aula.
8 – Inter de Falcão. (1973-76)
O Internacional já era tetracampeão gaúcho em 1973, a já tinha um timaço respeitado em todo país. Mas foi em 73 que Paulo Roberto Falcão vestiu pela primeira vez a camisa do clube colorado, sendo ele a ultima peça que faltava para o clube formar o melhor time brasileiro da década de 70. Um time que fugia do estereótipo gaúcho de futebol-força, pois, apesar de marcar muito bem, a equipe tinha muito talento e brilho. Ganharam 4 campeonatos gaúchos (sendo octacampeões seguidos no período 1969-76) e o Bicampeonato brasileiro 75/76.
O time contava com o consagrado goleiro Manga no gol, a defesa era formada por Cláudio, Figueroa, Marinho Perez e Vacaria. No meio-de-campo sobrava talento com Falcão, Carpegiani, Lula e Valdomiro. No ataque, os habilidosos Flávio e Dário, e o matador Claudiomiro.
7 – Botafogo de Mané Garrincha. (1957-64)
O que dizer do time que foi a base das 2 primeiras seleções brasileiras campeãs do mundo? Foram 4 titulares em 58 e 6 titulares em 62.
Pelo clube da estrela solitária venceram 3 campeonatos cariocas (57,62 e 63) e 2 torneios Rio-SP (62 e 64). Poderiam ter sido mais títulos se não fosse a eterna e inexplicável falta de sorte nos momentos decisivos do time de General Severiano contra seus rivais cariocas, em especial, o Flamengo. Também ficou sem um titulo nacional, impedidos pelo Rei Pelé e pelos acadêmicos e eficientes palestrinos. Apesar disso o time marcou época pelo seu futebol ofensivo e habilidoso.
Manga era o goleiro, na zaga Paulistinha e Jadir, nas laterais Ríldo e Nilton Santos (eleito melhor lateral-esquerdo do século pela FIFA). No meio-de-campo Didi, Zagallo e o lendário Garrincha (que também faz parte da seleção do século da FIFA). No ataque Amarildo e Quarentinha.
6 – Palmeiras da Parmalat. (1993-94)
No final de 1974 tudo que o corinthiano mais queria era encerrar o jejum de títulos, que já durava 20 anos, vencendo o campeonato paulista em cima do maior rival, o Palmeiras. Mas o time de Ademir e Dudu não permitiu e levou o titulo pra casa, postergando por mais 3 anos o jejum que seria quebrado contra a Ponte Preta.
Em 1993 a situação havia se invertido. O Palmeiras estava a 16 anos na fila, e o Corinthians ansiava por vingança na final do Paulistão daquele ano. Mas os 4X0 em favor do time verde dizimaram o tabu, e deu aos palmeirenses o gostinho que os corinthianos não tiveram 20 anos antes. Ainda em 93, venceram o Rio-SP (de novo em cima do Corinthians) e o Campeonato Brasileiro. Em 1994 repetiram a dose, foram campeões paulista e brasileiro (mais uma vez contra o Corinthians). Como todo bom time brasileiro, este esbanjava habilidade e dribles desconcertantes, e só não ganhou mais títulos pois coexistiu com outro time mítico: o São Paulo de Telê Santana.
A equipe era formada por Velloso no gol, Cléber e Antonio Carlos na zaga, Mazinho e Roberto Carlos nas laterais, César Sampaio, Edílson e Rincón no meio, e Edmundo, Evair e Rivaldo no ataque. Uma verdadeira seleção.
5 – São Paulo de Telê. (1991-94)
Telê Santana foi um técnico brilhante, ganhou muitos títulos, fez grandes trabalhos no Grêmio, Fluminense, Atlético-MG, Palmeiras, entre muitos outros, mas no inicio da década de 90 tinha a injusta fama de pé frio devido às seleções brasileiras de 82 e 86, que ele brilhantemente montou, mas acabaram derrotadas. Foi justamente no São Paulo, seu ultimo clube antes de se retirar do futebol devido a uma isquemia cerebral, que o mestre eliminou de maneira categórica essa fama.
O São Paulo chamou Telê em 1990, que montou o time às pressas e conseguiu ser vice-campeão brasileiro já naquele ano. Teria sido um bom resultado se a derrota não tivesse sido para o arqui-rival Corinthians. A torcida pedia a cabeça do técnico, mas ele permaneceu. O começo de 91 não foi nada animador: 5 derrotas seguidas nos 5 primeiros jogos, incluindo 4X0 para outro rival, o Palmeiras, mas ainda assim a diretoria resolveu mante-lo. E não se arrependeu, em troca o mestre Telê ganhou todos os títulos possíveis e transformou o clube do Morumbi no maior detentor brasileiro de títulos internacionais. Ainda no inicio de 91, o time se recuperou e foi campeão paulista e depois brasileiro. Em 92 foi novamente campeão paulista e iniciou à saga internacional sãopaulina: Supercopa da Libertadores (93), Bicampeão da Libertadores (92/93), Bicampeão da Recopa (93/94) e Bicampeão do Mundo (92/93), o primeiro (e único) time brasileiro a ser bicampeão do mundo desde o Santos de Pelé. Em 94 ganhou a Copa Conmebol com o expressinho, mas perdeu o Tri da Libertadores em pleno Morumbi, nos pênaltis.
O time base era formado por Zetti no gol, Adílson e Ronaldo na zaga, Cafu e Leonardo nas laterais, Pintado, Dinho, Toninho Cerezo e Raí no meio-de-campo, e Palhinha e Müller no ataque. Técnico: Telê Santana, claro.
4 – O Expresso da Vitória - Vasco. (1944-52)
“Uma maquina de fazer gols”, essa talvez seja a melhor alcunha a ser dada a esta equipe, que com seu batalhão de excelentes avantes, se lançava freneticamente ao ataque, sempre tentando golear nos primeiros minutos. Os placares eram sempre elásticos, chegando a registrar 14X1 sobre o Canto do Rio, a maior goleada da Era profissional do futebol carioca. Foram tantas as vitorias de goleada que ganharam o apelido de Expresso da Vitoria. Levantaram o troféu de campeão carioca 5 vezes (45,47,49,50 e 52), mas a grande gloria deste time foi ter vencido o Campeonato Sul-Americano de Campeões (48), o primeiro torneio oficial entre clubes na América do Sul. Os troféus poderiam ter ainda mais freqüentes se o time tivesse uma defesa mais solida, característica que fez falta em alguns momentos decisivos.
Barbosa (titular do Brasil na Copa de 50) era o goleiro vascaíno. A defesa era formada pelo argentino Rafagnelli e Augusto da Costa. A linha media era composta por Ely, Danilo Alvim e Moacyr. Seu quinteto de ataque era Ademir de Menezes (artilheiro da Copa de 50), Friaça (também foi titular na Copa de 50), Lelé, Ipojucan e Tesourinha (titular na conquista do Sul-americano de seleções em 49), com uma curta passagem do lendário Heleno de Freitas em 48 (Nessa época o esquema tático mais comum era o 2-3-5).
3 – O Rolo Compressor – São Paulo. (1943-49)
Não, o melhor time do São Paulo na historia não é o de Telê Santana. O maior São Paulo de todos foi o dos anos 40, pois apesar de aquele ser praticamente uma seleção, este era efetivamente um combinado das seleções de Brasil, Argentina e Uruguai.
O time teve dois goleiros: na primeira fase foi King, titular da seleção uruguaia, na segunda fase foi Gijo (único do elenco a não ser titular em sua seleção). A defesa contava com Piolim (zagueiro titular do Brasil nos anos 40) e Renganesh (titular da seleção argentina nos anos 40). A linha média era formada pelos míticos Rui, Noronha e Bauer (jogaram juntos na conquista do Sul-Americano de 49 e na Copa de 50). No ataque Luizinho (titular do Brasil nas copas de 34 e 38), Sastre (titular da Argentina nas copas de 34 e 38), Remo (titular do Brasil nos anos 40), Teixeirinha (titular do Brasil nos anos 40), e o craque Leônidas da Silva, considerado o melhor jogador brasileiro antes da Era Pelé (jogou a Copa de 34, e foi o melhor jogador e artilheiro da Copa de 38). Lembrando mais uma vez que o esquema tático comum na época era 2-3-5.
O time era tão bom, que ganhou o apelido de Rolo Compressor porque raramente perdia. De 1943 até 1949, considerando só o campeonato paulista, o mais difícil da época, foram 142 jogos, 101 vitorias, 28 empates, 13 derrotas e 5 títulos paulistas conquistados (43,45,46,48 e 49), e isso numa época em que o rival Palmeiras, de Oberdan Cattani, era fortíssimo. Brigas internas, entre os jogadores, prejudicaram as campanhas nos campeonatos de 44 e 47, o que era natural que acontecesse num time de tantas estrelas.
Infelizmente, a inexistência de campeonatos nacionais e interestaduais impediu que os dois grandes times da década de 40, o Expresso da Vitoria e o Rolo Compressor, se enfrentassem em partidas importantes. Mas há alguns aspectos a se considerar: apesar de os ataques das duas equipes se equivalerem, a defesa e a linha média do tricolor eram consideravelmente melhores. Além disso, segundo o escritor e jornalista Roberto Sander, São Paulo e Vasco se encontraram, em amistosos e torneios extra-oficiais, 17 vezes durante a década de 40, foram 6 vitorias tricolores, 8 empates e 3 vitorias cruzmaltinas. Por isso São Paulo fica uma posição a frente do Vasco.
2 – Flamengo de Zico. (1980-83)
O Flamengo do inicio dos anos 80 pode ser definido como técnica em favor de um conjunto altamente competitivo. O time tinha habilidade, velocidade, fazia toques curtos e lançamentos longos, acima de tudo tinha brilho, e foi a base da fantástica seleção brasileira de 82.
Mas não era apenas um time que jogava bonito, com lances plásticos, passes perfeitos e gols maravilhosos. Era também um time muito eficiente, prova disso é que ganhou todos os títulos possíveis: Foram 3 Brasileiros (80,82 e 83), 1 Carioca (81), 1 Libertadores (81) e 1 Mundial (81).
A formação era: Raul Plassman no gol, Marinho e Mozer na zaga, Leandro e Júnior nas laterais, Andrade, Adílio e Zico no meio-de-campo, e Tita, Nunes e Lico no ataque.
1 – Santos de Pelé. (1960-69)
Um mito. Assim pode ser descrito o time, bem como seu principal jogador. Pelé, o melhor jogador da historia, único a ganhar 3 vezes a Copas do Mundo, e o único a fazer mais de 1.000 gols, comandava um time impiedoso que massacrava seus adversários e arrematava dezenas de títulos.
O time começou a se formar já em 1955, e alguns jogadores permaneceram até os anos 70, mas a formação principal ficou junta de 1960 até 1969, com algumas alterações. Nesse espaço de 10 anos, o Santos faturou nada menos que 8 Campeonatos Paulistas (60,61,63,64,65,67,68 e 69), 6 Campeonatos Brasileiros (5 Taças Brasil - 61,62,63,64 e 65 - e 1 Robertão - 68), 3 Rio-SP (63,64 e 66), 2 Libertadores (62 e 63) e 2 Mundiais(62 e 63). Isso sem contar os inúmeros torneios internacionais pelo mundo afora. Poderiam ter sido mais. Na época a Libertadores não contava com todo o prestigio que tem hoje, e pior, era deficitária, pois a renda era toda do mandante, ou seja, o Santos jogava na Bolívia (por exemplo), o estádio lotava, mas o dinheiro ficava com o time boliviano, quando o time boliviano jogava aqui ninguém dava bola e o santos não arrecadava. Durante os anos 60 o Santos se classificou pra Libertadores 7 vezes, em 3 ocasiões o clube abriu mão de jogá-la em favor de torneios internacionais pelo mundo, muito mais rentáveis. Outras 2 vezes jogou com o time reserva, priorizando o Paulistão. Nas únicas duas vezes que jogou com força máxima, saíram vencedores. Resta aos santistas lamentar.
Os Torneios Internacionais que o Santos jogava também foram muito importantes, pois levaram a fama do time a todos os cantos do globo, conseguindo repercussão mundial numa época que a globalização engatinhava. Esses Torneios proporcionaram vitorias históricas sobre Boca Juniors, Real Madri, Inter de Milão, Manchester United, Benfica, Milan, entre muitos outros. A fama do Santos era tão grande, que em 1969, ao fazer uma excursão pela África, descobriram que o próximo país que iam se apresentar, o Congo, estava em guerra civil, entre o exercito da capital Brazzaville e os rebeldes de Kinshasa, e os jogadores ficaram com medo de um bombardeio. Depois de alguma negociação, os rebeldes concordaram com uma trégua desde que o Santos também jogasse em Kinshasa. É do time que parou uma guerra o merecido primeiro posto.
O esquadrão era formado por: Gilmar (campeão do mundo em 58) no gol, Mauro, Calvet e Almir Pernambuquinho na zaga , Olavo, Zito (também campeão do mundo em 58) e Dalmo no meio, e no ataque o clássico quinteto Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
20 Menções Honrosas: Atlético-MG (76-78), Botafogo (67-72), Corinthians (51-54), Corinthians (98-99), Cruzeiro (65-71), Cruzeiro (75-76), Flamengo (53-55), Fluminense (17-19), Fluminense (36-41), Grêmio (83-85), Internacional (79-80), Palmeiras (30-34),Palmeiras (40-47) Palmeiras (96), Paulistano(16-21), Santos (02-04), São Paulo (70/71), São Paulo (85-87), São Paulo (05-06), Vasco (97-98).
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