segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Colapso da Social-Democracia

A recente crise européia fez com que os políticos mais conservadores do velho continente, como Nicolas Sarkozy, David Cameron e Angela Merkel, engrossassem o tom. Para eles a crise do Euro reflete um problema mais profundo: o fracasso das políticas de bem estar social, e conseqüentemente da social democracia européia.

A social democracia (ou socialismo democrático) é uma corrente ideológica que surgiu no fim do século XIX e que defende que o Estado deve (através de políticas de bem estar social, como serviços básicos universais de educação, saúde e previdência; menor jornada de trabalho; mais lazer, etc.) agir para diminuir as desigualdades e as injustiças inerentes ao capitalismo, sem abrir mão, porém, da liberdade e da democracia. Está corrente ganhou força no pós-guerra, particularmente na América anglo-saxã , na Europa, na Oceania e no Japão, devido à competição com o socialismo.

Enquanto puderam desfrutar de vantagens de políticas neocolonialistas, essas potências (especialmente as européias) puderam viver essa feliz realidade. Mas o que aconteceu nos últimos 60 anos parece não ser mais possível. Esse colapso ocorre devido à redistribuição internacional do trabalho, decorrente do novo papel que os emergentes (com destaque para a China) estão desempenhando. Estudos apontam que a cada ano, 30 milhões de chineses são incorporados ao mercado de trabalho.

As potências emergentes gradativamente têm aumentado a qualificação de sua mão-de-obra (novamente com destaque para a China), o que, porém, não se refletiu totalmente no preço dessa mão-de-obra, ainda muito mais barata que aquela do mundo desenvolvido. Enquanto os chineses se integram a massa de trabalho, os europeus se integram a massa de desempregados.

Produzindo e exportando menos, os países ricos também geram menos receita e arrecadação. Em contrapartida, têm de enfrentar despesas maiores com seguro-desemprego, aposentadorias precoces, saúde pública, etc. Se analisarmos mais atentamente, o aumento dos gastos superior ao aumento das receitas está no cerne das crises de Espanha, Portugal, Grécia, Irlanda e Itália (todos com taxas de desemprego na casa dos dois dígitos).

Mas a questão é que as altíssimas taxas de desemprego vigentes na Europa e boa parte do mundo rico não são explicadas apenas pela crise. Tem a ver também com a nova alocação do emprego no mundo, a qual a crise pode ajudar a cimentar.

O que os europeus devem esperar pras próximas décadas são anos de muita austeridade e flexibilização de benéficos sociais. E isso suscita muitas questões, inclusive para os emergentes.

O mundo hoje está perdido, procurando um rumo, um projeto, um objetivo, um modelo pelo qual possam se pautar e guiar. A Europa, que por décadas foi esse modelo de desenvolvimento com justiça social, hoje é um sonho em chamas.