sexta-feira, 29 de maio de 2015

A Vida Imita a Arte

Na ficção, Palpatine é um senador da Republica Galática aparentemente engajado na articulação política do governo galático e na solução de conflitos entre os povos, mas que na verdade, por debaixo dos panos, tenta trazer instabilidade a Republica. Pouco a pouco Palpatine foi ganhando poderes até assumir o controle do Parlamento e botar pra fuder com a Galáxia.

Na vida real, Eduardo Cunha é um deputado federal da Republica Federativa do Brasil que foi galgando influência e pod
eres até se tornar presidente da câmara dos deputados. Teoricamente ele faz parte da base governista mas não perde uma oportunidade de desestabilizar o já fragilizado governo, o que, na prática, dá a ele mais poderes do que deveria e faz dele uma espécie de 1o ministro em um parlamentarismo branco.
Cunha, preocupado com as futuras gerações de brasileiros, lidera um importante processo de reforma política onde propõe:

1) Aumento de todos os mandatos, exceto senador, de 4 para 5 anos.

2) Aumento do mandato de senador de 8 para 10 anos (e digo mais, deveria deixar de chamar senado e se chamar câmara de lordes supremos!).

3) Concentrar no mesmo ano eleições municipais, estaduais e nacionais (teriamos que decorar nada menos que SETE números). Isso seria fantástico, pois seriam discutidos ao mesmo tempo temas como a falta de remédios no posto de saúde e a conjuntura macroeconômica do país.

4) Eleger nossos representantes no legislativo através de um sistema apelidado de "distritão", que só existe em dois países: Jordânia e Afeganistão. Na prática esse sistema relega os partidos a condição de figurante (partidos numa democracia? pra quê?!) e valoriza políticos de carreira, celebridades e pseudo-celebridades, apadrinhados políticos e candidatos financiados por grandes corporações, tornando o sistema político, ainda mais, uma disputa de poder pelo poder.

Eu não simpatizava com a proposta do PSDB de voto distrital misto, mas diante das possibilidades já estou considerando sair na rua com uma camiseta
 ‪#‎euvotodistritalmisto‬.
Em síntese o que Cunha propõe são menos eleições, menos democracia e mais poder para caciques políticos, isso em um momento em que a sociedade clama por mais participação na política.

Isso é um perigo real, é pra isso que o gigante precisa acordar e ainda chamar o Megazord pra ajudar, porque ao contrário do que diz o deputado Tiririca, pior que tá, fica!

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Mito Indonésio

"Para a nossa Presidente, o traficante merece clemência! Mas ela não pede clemência pelo nosso povo, cidadão de bem, que morre através das armas do tráfico e das drogas que viciam desde a infância!"
Eu fico imaginando que louco seria se em toda rua escura, em todo beco vazio, em toda periferia, sempre que alguém fosse cometer um crime a Dilma saísse de dentro de um bueiro e gritasse "Clemência! Não faz isso não!". Ela ia ter que ter umas aulinhas com deus pra aprender esse lance de onipresença, mas ia ser sensacional.
Mas o que você talvez não tenha percebido é que aqui o Estado brasileiro pode fazer muito mais que um simples pedido de clemência. Existe Polícia, Ministério Público, Justiça e todo um aparato que serve para coibir e inibir a criminalidade. Um aparato que frequentemente falha em sua missão, é verdade, mas que é melhor do que se a presidente simplesmente fizesse um pronunciamento em rede nacional dizendo "bandidos desse Brasil varonil, clemência!".
Qual a necessidade de sair em defesa de um traficante? Existem brasileiros presos e condenados por tráfico de drogas em vários países e o governo brasileiro não sai em defesa de todos eles. Entenda, o direito a vida é um principio fundamental que rege tanto a nossa Constituição quanto a Declaração dos Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário. O Estado brasileiro tem o dever de agir sempre que um cidadão seu tem esse direito ameaçado.
O que o Estado brasileiro pode fazer para proteger um cidadão brasileiro que foi condenado a morte por uma nação soberana? Mandar uma tropa para resgatar o condenado não é uma possibilidade a menos que se queira iniciar uma guerra. Só resta ao Brasil um singelo e diplomático pedido de clemência. Perceba que muito mais do que defender o indivíduo Marco Archer, a diplomacia brasileira está defendendo princípios. Essa tem que ser a postura de qualquer nação que se leva a sério.
Holanda, Austrália, Reino Unido, entre outros já entraram em atrito com a Indonésia pela mesma situação.
"Mas a pena de morte é a solução pro tráfico! Na Indonésia traficante não fica rico e não tem ninguém viciado!"
Isso é uma mentira conveniente. A indonésia tem um mercado de drogas bastante consolidado. Segundo o World Drug Report 2014 da UNODC (procura aí no Google, é fácil de achar), a Indonésia tem 4,5 milhões de dependentes de drogas ilícitas e esse número vem subindo drasticamente nos últimos anos (estimativa aponta que pode chegar a 5,8 milhões até o fim desse ano). O Brasil tem 8 milhões de dependentes, mas um detalhe importante é que aqui a dependência de drogas ilegais é concentrada em maconha e cocaína, que são drogas mais leves do que a metanfetamina e o putaw (uma heroína mais hard-core) que são as drogas que causam mais dependência na Indonésia.
Nós temos mais dependentes, eles usam drogas mais danosas. Não consigo enxergar a eficácia da pena de morte. No Irã tem pena de morte para qualquer um pego com mais de 5 Kg de qualquer droga e mesmo assim é o campeão mundial de dependentes em heroína (2 milhões), ao passo que o Uruguai, que regulamentou o consumo e a comercialização de maconha, apresenta índices moderados de consumo de todas as drogas.
É intrigante como do dia pra noite a Indonésia virou um país modelo só porque tem pena de morte. "Lá a lei funciona!" bradam alguns. Funciona? Um país que tem mais problemas de corrupção que o Brasil? Um país que tem problemas com terrorismo? Um país que tem problemas relevantes com tráfico de drogas? Caramba, imagina se a lei não funcionasse...
No mundo real a Indonésia não é tão legal quanto no post do Revoltados Online. A pena de morte é mais demagogia do que solução real para os problemas.
BRASIL X INDONÉSIA
IDH:
Brasil - 0,744 (79o)
Indonésia - 0,684 (108o)
PIB per capita:
Brasil - US$ 11.301 (61o)
Indonésia - US$ 3.403 (109o)
Índice de Percepção da Corrupção
Brasil - 43 (69o)
Indonésia - 34 (107o)
Mortalidade Infantil:
Brasil - 19 em 1000 nascidos
Indonésia - 25 em 1000 nascidos
Expectativa de Vida:
Brasil - 76 anos
Indonésia - 72 anos
Acho que vou ficar por aqui mesmo. Boa viagem pra Jacarta!
Obs.: A frase do post é falsa, Joko Widodo nunca disse isso, é óbvio mas não custa avisar né.