domingo, 20 de novembro de 2011

Fé e Religião, As Inquestionáveis

Hoje gostaria de comentar o excesso de respeito com relação à religião. Não, você não leu errado, é respeito mesmo. É incrível como a fé e a religião são blindadas de criticas e como as maiores barbaridades são cometidas sob o pretexto da liberdade de culto.

Vou começar citando um caso que aconteceu há algumas semanas, e me chamou a atenção. Uma mulher muçulmana foi impedida de prestar a prova teórica do DETRAN pois se recusou a retirar o véu (o islamismo não permite que mulheres apareçam descobertas em público), e é proibido fazer a prova de cabeça coberta. Após o ocorrido a mulher acusou o DETRAN de discriminação religiosa, o caso teve algum destaque na imprensa, boa parte da opinião pública se manifestou favorável a mulher, o DETRAN se desculpou e deixou a mulher fazer a prova de véu num outro dia. Eu posso estar muito louco, mas discriminação foi deixar a mulher fazer a prova com o véu! Se a lei diz que não se pode fazer a prova com a cabeça coberta, então ninguém pode fazer a prova com a cabeça coberta!

Um exemplo clássico que mostra como a religião é tratada com privilégios é o famigerado chá de Ayahuasca. Como se sabe, drogas psicotrópicas (que afetam o sistema nervoso) são proibidas no Brasil, incluindo o chá citado, mas existe uma exceção: o chá está liberado para uso em rituais religiosos. Há muitos anos médicos reivindicam que a cannabis sativa fosse liberada para fins medicinais, pois já é comprovado que esta alivia náusea e desconforto de doentes com câncer submetidos a quimioterapia. Cientistas gostariam que outras ervas fossem liberadas para poder estudar suas propriedades. Medicina e a ciência não são suficientes para comover nossas autoridades, mas basta uma seita alegar fins religiosos, e pronto! Ta liberado! (mas só pra este fim).

Imagine se os integrantes de uma sociedade apreciadora de arte alegassem à Justiça que acreditam precisar de um alucinógeno para aumentar sua compreensão de quadros impressionistas ou surrealistas. Seriam ridicularizados, certo? Então, por quê o mesmo argumento é plausível só porque falamos em religião?

Um cientista que pretende fazer experimentos com animais tem que atender um serie de requisitos, bastante rígidos, para evitar que o animal seja torturado e exposto a grande sofrimento, o que eu acho corretíssimo. Mas você sabia que no Rio Grande do Sul foi sancionada uma lei que permite que animais sejam torturados e mortos em rituais religiosos, e que outros estados têm projetos de lei semelhantes?
Isso é muito interessante, tortura de animais, em qualquer outro contexto é crime, mas dentro do contexto religioso é aceitável.

Outro exemplo clássico: dizimo em igrejas evangélicas. Pastores induzem os fieis a doar quantias enormes, prometendo um terreno no céu, a salvação do inferno, prosperidade na vida, entre outras coisas. Se aproveitam da boa vontade de pessoas pouco instruídas, coagindo-as com a possibilidade do fogo eterno e da desaprovação de deus. Existem vários casos de pessoas que se endividaram para doar para a igreja. Isso em outro contexto seria facilmente classificado como extorsão, mas estamos falando de religião, então pode.

O interessante é que basta a igreja ou seita alegar que “acreditam” e pronto, ninguém contesta. Não precisam fornecer provas.

Um caso especialmente revoltante pra mim, é o de pastores e pastoras mirins. Crianças de três, quatro, cinco anos berrando, fazendo pregação de coisas que elas sequer têm idade pra entender. Fora de um contexto religioso isso seria caso pro conselho tutelar tirar a guarda da criança, mas não, elas estão falando de Jesus, então tudo bem.

Lógico que esses são casos extremos, mas, via de regra, nós somos doutrinados desde a infância. Se você ouvir que uma criança de 6 anos é esquerdista, isso certamente lhe causara estranheza, ainda mais se ela começar a discorrer sobre a desigualdade social no Brasil. Você pensaria, com razão, que os pais dessa criança encheram a cabeça dela de coisas que ela não tem idade suficiente para entender e tirar suas próprias conclusões, que houve uma doutrinação política clara. Se uma criança da mesma idade se diz neoliberal e manifesta-se favorável ao mercado livre, sem barreiras alfandegárias, isso também soaria absurdo. Mas então, por que quando uma criança da mesma idade se diz católica, e conta uma parábola de Jesus, a maioria das pessoas acha normal, ou até mesmo bonito?

Crianças de 6 anos não têm maturidade para ter uma opinião sobre política, nem sobre economia e muito menos sobre religião. Esse é mais um exemplo de como somos brandos com a religião, qualquer tipo de doutrinamento é abominável, exceto o doutrinamento religioso.

Como reflexo desse doutrinamento, nós crescemos achando que falar e questionar credos é um tabu. Você pode (e deve) questionar tudo: a política ambiental, o aumento dos juros, a nova descoberta cientifica, mas quando se fala de fé, questionamento é confundido com falta de respeito. Dizer que a bíblia é um livro da Era do Bronze e não deve servir como base moral da sociedade contemporânea não é desrespeitar, principalmente porque boa parte deste livro repulsivo de acordo com a moralidade atual (escravidão, assassinatos, vingança, incestos, genocídios, etc.). Argumentar que, com o conhecimento cientifico que se tem hoje, acreditar que uma virgem deu a luz ao filho de deus é um absurdo não é desrespeitar. Desrespeitar é agredir alguém só porque ele tem certa crença, ou então entrar no meio da missa dizendo que deus não existe.

Mas principalmente, cumprir o que determina a lei não é desrespeitar a crença. Se a sociedade considera que torturar e matar animais, usar drogas psicotrópicas ou extorsão são crimes, então que isso valha para todos e em todos os contextos, incluindo o religioso.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Considerações Sobre o Imbróglio na USP


Nas últimas semanas estive relutante em escrever sobre esse assunto. O motivo? Ambas as partes envolvidas demonstraram um comportamento apaixonadamente maniqueísta sobre o assunto. São os porcos fardados contra os maconheiros vagabundos. Ponderação parece ter passado longe do tema. Toda declaração em favor de uma parte é imediatamente aplaudida por seus defensores, e ridicularizada pelos opositores. Nesse contexto, qual a chance de um texto de alguém não alinhado a nenhum extremo ter alguma aceitação? Por isso relutei, porque provavelmente serei apedrejado por ambos os lados, mas como alguns amigos pediram, faço essas considerações.

Não vou me posicionar sobre o tema central que é, a PM deve ou não ocupa o Campus. Não farei isso pela simples razão que não sou estudante da USP, e quem deve apontar essa resposta são os próprios estudantes da USP. Vou me focar principalmente nas críticas feitas aos estudantes, classificando-as entre justas e injustas.

Crítica Injusta.

Acho que é simplista demais resumir o protesto estudantil como “querem a PM fora pra poder fumar maconha”. Pra mim está bastante claro que havia uma tensão pré-existente entre os alunos da FFLCH e a PM, e o episodio dos três estudantes pegos com maconha foi só um fato desencadeador. Há muitos anos que os alunos da FFLCH se mostram descontentes com as sucessivas gestões tucanas na reitoria da USP, e isso inclui a atual gestão de João Grondino Rodas. Não cabe aqui discutir cada caso, se estavam certos ou errados, mas o fato é que existe, há muito tempo, um atrito entre a reitoria e a FFLCH. A questão da PM no campus não é nova, há muito tempo alguns setores da USP queriam a presença da policia dentro da universidade, mas a FFLCH, devido a um histórico de conflitos, sempre foi terminantemente contra. Ignorar este cenário propicia uma visão míope sobre o assunto.

A alternativa apresentada pela FFLCH foi criar uma guarda civil da USP, ligada ao SINTUSP (Sindicato dos Trabalhadores da USP), que eventualmente pudesse ter alguma parceria com a PM. É viável? Não sei. O que é melhor? Não sei. Mas os estudantes têm o direito de estarem descontentes com a PM no Campus e protestarem. Voltarei a esse tema adiante.

Também acho que generalizar toda USP, ou mesmo toda FFLCH, como uma massa homogênea é incabível. A maioria dos estudantes da USP é a favor da PM no Campus, e boa parte dos alunos da FFLCH é contra este protesto do jeito que aconteceu. Assim como também acho injusto generalizar maconheiro como vagabundo, tem muito trabalhador que aprecia queimar uma erva, sabia? Alias, pra já arrematar esse assunto: eu acho que levar pra delegacia três estudantes que dividiam um baseado de maconha dentro do carro de um deles, é sim privação das liberdades individuais. Não se pode culpar o policial por fazer cumprir a lei, mas deve-se culpar a lei por ser equivocada. Sim, eu sou a favor da legalização da maconha e outras drogas (e não, eu não fumo). Mas não cabe aqui discutir isso.

Os manifestantes também foram acusados de serem “filinhos de papai” endinheirados. Ora, eu não vejo nada de errado em você ser rico e protestar contra a PM no campus da sua universidade. O que tem a ver usar moletom da GAP e óculos Ray Ban com protestar contra a PM? E daí que eles saiam para tomar banho e trocar de roupa? Agora qualquer manifestante tem que passar pelo mesmo grau de privação que Che Guevara passou na Sierra Maestra para ter legitimado seu protesto?

Por fim, tenho registrar que as acusações de formação de quadrilha e crime ambiental são absolutamente incabíveis. Quadrilhagem é a associação de várias pessoas para cometer crimes, e a menos que você considere protesto como crime, esta acusação é descabida. Também gostaria de saber desde quando pichar um prédio é crime ambiental.

Crítica Justa.

Como foi dito anteriormente, os estudantes têm o direito de se revoltar e se manifestar contra o que quer que seja, mas isso deve ser feito através de instrumentos democráticos e respeitando os limites da lei, e o que se viu foram sucessivas transgressões que, a meu ver, são inaceitáveis.

Começando pelo evento desencadeador, dos estudantes pegos com maconha, eu considero (como já disse) totalmente legitimo a revolta dos estudantes, mas nada justifica o enfrentamento com a PM. O policial estava apenas fazendo seu trabalho, se não concordam com aquilo, se organizem politicamente, ajudem a eleger candidatos que apóiem a causa, enfim, usem os mecanismos democráticos, mas o enfrentamento com a PM foi uma cena lastimável, e passível de punição na minha visão.

O Segundo ato foi a ocupação do prédio da FFLCH, impedindo que houvesse aulas, o que é uma grande falta de respeito. Tem muita gente que não queria abrir mão das aulas em nome do protesto, e por mais que esta atitude tenha sido decidida em assembléia, este não é o tipo de decisão que se toma através de uma maioria simples, e sim através de uma maioria absoluta, quase unânime. Sem contar que tem muita gente que trabalha ou que mora longe e acaba não podendo comparecer a essas votações.

O próximo e mais polêmico passo foi a invasão da reitoria da USP. Quem esses caras pensam que são? A reitoria presta serviços importantes a alunos de todos os cursos da universidade, que direito eles têm para poder privar os outros 90 mil alunos desses serviços? E se as acusações de formação de quadrilha e crime ambiental são injustas, as acusações de depredação do patrimônio público e desobediência são justíssimas!

Arrombar portas, danificar equipamentos e pichar as paredes não é protesto, é selvageria. Desobedecer uma decisão da justiça para desocupar o prédio deve ter sido um sintoma do complexo de superioridade. Mas agredir profissionais de imprensa, por mais que tenham sido extremamente tendenciosos na cobertura, foi a cereja do bolo. E por estes crimes os estudantes devem sim ser presos.

Em nova assembléia os estudantes decidiram, novamente por uma maioria simples, fazer uma greve dos estudantes, e o caso parece que terá mais desdobramentos.

Parte dos estudantes argumenta que a universidade é um espaço de pensamento livre e deveria ter autonomia, e que, portanto, a existência do braço armado do Estado dentro da universidade seria inaceitável, assim como seria cabível que os estudantes desobedecessem a justiça e as leis de São Paulo e do Brasil (estariam livres pra usar qualquer droga que quisessem por exemplo). Eu concordo que deve haver autonomia, mas não se deve confundir autonomia com soberania. A USP pertence ao território brasileiro e é mantida com dinheiro do contribuinte, e portanto deve sim ser submetida às leis e a justiça.