quarta-feira, 26 de junho de 2013

E as Pessoas Foram Pra Rua

Um aumento de vinte centavos na tarifa do transporte público abriu a caixa de pandora e milhões de pessoas em todo o país tomaram as ruas numa das mais relevantes serie de manifestações da historia do Brasil. Entender e interpretar o momento histórico é complicado, mas farei minha leitura dos acontecimentos até agora (com uma grande chance de mudar de opinião).

A Pauta
Chovendo no molhado: não foi por 20 centavos, apesar de está ter sido a pauta inicial dos protestos. Mas também não foi por causa da PEC 37, nem por causa dos gastos da Copa, nem por causa da corrupção, nem por causa da cura-gay, apesar de estes terem sido pautados nas manifestações. O brasileiro foi pra rua reivindicar voz. A multidão invadiu as principais avenidas do Brasil porque não se sente representada.

O grito de “sem partido!” talvez tenha sido o mais emblemático das manifestações pois escancara que nosso sistema de representação falhou em representar os anseios da população, e isso ocorre principalmente porque a vanguarda política (os partidos) falhou em sua tarefa de representar as ideologias (as razões para isso eu discuto no post Porque o Pluripartidarismo Prejudica o Pluralismo Ideológico no Brasil de 11/2012, pra quem quiser procurar). A raiva direcionada às agremiações partidárias é tanta que a manifestações que começaram apartidárias se tornaram anti-partidárias em certo momento.

É evidente que precisamos não só de partidos, mas de qualquer tipo de instituição política organizada para organizar as pautas e as reivindicações, tornando-as mais coesas, o que ocorre é que nossas instituições políticas precisam se portar como legítimos representantes das idéias e dos anseios populares. Como podem ver, na minha visão a pauta principal deveria ser a da reforma política (pelo visto o governo teve a mesma leitura), onde devem ser tratadas questões como voto ao legislativo em dois turnos, fim do quoeficiente eleitoral, entre outras medidas que afastem os parlamentares de seus financiadores e os aproxime de seus eleitores, e que também estimule a valorização das ideologias.

O Gigante Acordou?
Os brasileiros estão acordando já há algum tempo, haja visto o aumento do numero de manifestações e relevância destas nos últimos anos, além do grau politização da população que vem aumentando paulatinamente. Mas ainda estamos longe do ideal.

Foi muito comentado que faltou foco nas manifestações, e faltou mesmo, havia de fato muitas reivindicações despolitizadas. Mas é o que temos para hoje, não dá pra exigir um alto grau de politização da noite pro dia. Eu vi muita gente chamando esses despolitizados de “coxinha”, iniciaram o movimento #saidarua, entre outros sarcasmos, o que na minha visão é um erro. Estamos vivendo um momento impar, onde tem muita gente interessada em entender mais sobre política e sobre os problemas do país, e o recado que está sendo passado para essas pessoas é “você é um coxinha e isso não é pra você!”. Ao contrário, esse é o momento dos grupos politizados exporem suas ideologias chamando os despolitizados para compor seus grupos também!

Legado
Geração acomodada? Povo passivo? Brasileiro só liga pra futebol? Protesto não adianta nada? Os acontecimentos das últimas semanas desafiam a lógica e vários axiomas
 da nossa sociedade. O êxito dos protestos pode despertar em nós o que os mexicanos chamam de “si, se puede”. Sim, nós podemos exigir direitos, nós não somos meros reféns do sistema.

O momento é tão complexo que nem nome tem ainda. Uns chamam de Revolução dos 20 Centavos, outros de Revolta do Vinagre, mas o que eu mais gosto é Movimento Vem Pra Rua, porque no fundo é disso que se trata.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Relato de Alguém no Meio da Multidão

Texto postado no meu perfil do Facebook no dia 18/06/2013





Sinceramente, eu não achei fosse presenciar algo dessa magnitude no Brasil, pelo menos não tão jovem.

Na rua o que vi foi uma multidão de dezenas de milhares, talvez centenas de milhares (65 mil é o caramba, tinha muito mais!), mas uma multidão consciente, com senso crítico. Entre os manifestantes havia gente de todas as idades, de todas as classes sociais, de todas as cores, de todos os costumes, enfim, um retrato étnico e sócio-cultural que é o Brasil, principalmente São Paulo. As revindicações eram várias: redução da tarifa de ônibus e metrô, mais investimentos em saúde e educação, a não aprovação da PEC 37, mais lisura com os gastos da Copa, saída de José Genoino e João Paulo Cunha da Comissão de Ética, moralização da classe politica, entre outras.

Mas não foi só, a multidão era critica e policiava a si mesma. Ao passar pelos ônibus parados na rua as pessoas clamavam "Sem pichação!" e "Sem vandalismo!". Durante 99% do percurso (saímos na estação Clinicas do Metrô, descemos a Teodoro Sampaio, depois a Faria Lima, viramos na Juscelino Kubitschek até a Brigadeiro, quando subimos até a Paulista) só haviam inúmeros cartazes e bandeiras do Brasil, mas quando chegamos no cruzamento da Faria Lima com a Juscelino Kubitschek encontramos um grupo com bandeiras do PSTU, do PSOL e do PCO, que foi imediatamente suprimido com o coro de "Sem partido! Sem partido!".

Além de uma multidão politizada e apartidária nas ruas, nas janelas das empresas e dos apartamentos havia muitas pessoas com bandeiras brancas e do Brasil e gritando junto com os manifestantes. Havia um prédio comercial em que alguém jogava papel picado do último andar, que dava efeito lindo. Em várias lugares as pessoas realmente liberaram o wi-fi pra ajudar na divulgação de informações. Muitos motoristas, tanto de ônibus como de carro, ao invés de ficarem emburrados de estarem parados no trânsito, buzinavam interagindo com os manifestantes.

Confesso que fiquei surpreendido com a iniciativa, com a organização, com o caráter politizado, apartidário e pacifico da manifestação. Que realmente valha a grito entoado pelos ativistas de "Isso é só o começo!!". Que o Brasil saia da inércia.

Hoje eu acordei cansado, mancando, com dores no corpo, mas ontem eu dormi com orgulho de ser brasileiro.

domingo, 16 de junho de 2013

Muito Mais Que 20 Centavos

Nos últimos dias os aumentos nas tarifas dos transportes coletivos desencadearam uma onda de manifestações em várias capitais brasileiras. Em São Paulo houve enfrentamento entre a polícia e os manifestantes envolvendo gás lacrimogêneo, spray de pimenta, balas de borracha e prisões de um lado e pichações e depredação do outro. E a indagação da ala mais conservadora da sociedade não poderia ser outra que não “Precisa de tudo isso por apenas R$ 0,20 de aumento”. Vandalismo e R$ 0,20, informações exaustivamente repetidas pelos maiores veículos de comunicação durante a semana. O argumento ganha ainda mais força com o fato de que o aumento foi abaixo da inflação do período. Mas uma afirmação dessas, dizer que uma manifestação tão numerosa e heterogênea aconteceu por apenas vinte centavos é das duas uma: muita ingenuidade ou muita desonestidade intelectual.

Em primeiro lugar é bom pontuar que, em São Paulo, de 1994 (quando foi implantado o plano real) até agora houve um aumento de 540% na tarifa de ônibus e de 433% na tarifa do metrô enquanto a inflação acumulada do período, medida pelo IPCA, foi de 332%, portanto a desculpa de que “o aumento foi abaixo da inflação” não convence o cidadão da região metropolitana paulista que tolera aumentos reais há muitos anos. Se tivessem seguido a tendência da inflação a tarifa do ônibus hoje seria R$2,19 e do metrô 2,59. Vinte centavos? Um real de diferença! Só na ida e se não fizer baldeação. Faça as contas e veja se esse valor não faz diferença pra uma população que tem um salário médio de R$ 1.600,00 e que 82% da população ganha até R$ 2.000,00. Isso sem contar os custos de tratamentos de saúde provocados por doenças provenientes de stress, por exemplo, ou ainda o custo de oportunidade proveniente de não conseguir fazer um curso de aprimoramento profissional por falta de tempo e dessa maneira ver suas chances de ascensão na carreira diminuir.

Mas a fúria popular não tem origem em se o aumento foi real ou não, tem origem no serviço mal prestado, na humilhação diária que a massa trabalhadora é submetida e na sensação de estar sendo assaltado sempre que passa pela catraca. Perdemos horas e mais horas diariamente dentro de um pau de arara urbano que chamam de transporte publico, e muitas vezes somos expostos a situações absurdas como a famosa disputa por assentos (quase uma dança das cadeiras) quando chega um trem vazio na estação, ou quando toca o celular e não conseguimos atender pois mal conseguimos movimentar nossos braços de tão apertado que esta, ou ainda quando alguém desmaia em cima de você por falta de ar. Se fosse barato já seria bem difícil de aturar um serviço péssimo desses, mas ainda por cima transporte coletivo em São Paulo é caro.

Façamos, por exemplo, um comparativo entre a qualidade do serviço prestado pelo metrô da capital paulista e o de Madri, que é aprovado por seus usuários. Existem quatro variáveis a serem levadas em consideração: extensão, comodidade, rapidez e o preço, e para medir essas variáveis os indicadores que escolhi foram quantidade de estações, quantidade de usuários por Km, tempo médio por viagem e o próprio preço da passagem respectivamente. Preciso ressaltar que só achei o tempo médio de viagem do transporte publico de São Paulo no geral e não apenas do metrô, e que para chegar no preço do metrô madrileno apenas converti euros para reais, sem ajustar pela Paridade do Poder de Compra, o que seria interessante já a inflação é significativamente maior aqui já há algum tempo.


São Paulo
Madri
Estações
64
300
Usuários por Dia
39 milhões
2 milhões
Km
74
293
Usuários por Dia/Km
527 mil
6,8 mil
Tempo Médio por Viagem
69 minutos
22 minutos
Preço
R$ 3,20
R$ 6,10

Se nós aceitarmos como hipótese que o Metrô de Madri tem um preço justo pelo serviço que oferece podemos tentar calcular o preço justo do Metrô de São Paulo baseado no serviço que este oferece. Se colocarmos em perspectiva o que cada um oferece e multiplicarmos pelo preço da tarifa madrilena (que tomamos como justa e adequada) a conta será a seguinte:

(64/300)*(6,8/527)*(22/69)*6,10=0,00535378

Isso mesmo, tomando pelo padrão de qualidade espanhol o serviço do metrô paulistano vale pouco mais de meio centavo. Veja bem, eu não estou dizendo que este deveria ser o preço por aqui, até porque tarifa zero só é possível em situações muito especificas, o que esses números mostram é a diferença de qualidade do serviço aqui e lá, e que o preço praticado aqui tendo em vista o que é oferecido é extremamente alto. Se isso não é revoltante, se isso não merece protesto, não sei o que mereceria. E ainda temos que ouvir o Arnaldo Jabor em sua diarréia mental semanal no Jornal da Globo dizer que “a causa é não ter causa”.

Sobre os Excessos
Houve sim vandalismo por parte de alguns dos manifestantes, que não é legal, não é o ideal, mas que foi muito aumentado por certos veículos de comunicação e que foi absolutamente ofuscado pela aviltante violação dos direitos humanos promovida pela Policia Militar de São Paulo. Prisões ilegais, violência gratuita contra manifestantes pacíficos e até contra a imprensa, entre outras barbaridades. Na realidade a policia acabou nos dando um novo motivo para lutar: a conquista de um verdadeiro Estado Democrático de Direito.

Mais do que serviços públicos mal prestados, vivemos num país onde a população não tem voz e onde uma há dissintonia muito grande entre os eleitores e a classe política. Uma explicação provável pra isso é que historicamente o brasileiro é um povo passivo, o que vem mudando nos últimos tempos e os protestos são prova disso. A reação da PM mostra que ver o brasileiro sair da inércia incomoda gente poderosa.

Aos poucos as pessoas perceberam que o que se buscava com os protestos era algo muito mais profundo que 20 centavos. Muitas pessoas que eram contra as manifestações no inicio reviram suas posições. Que o povo de São Paulo faça valer o lema de sua cidade “Non Ducor, Duco” ou “Não Sou Guiado, Guio”. Alias, que isso valha pra todo o Brasil.