domingo, 16 de junho de 2013

Muito Mais Que 20 Centavos

Nos últimos dias os aumentos nas tarifas dos transportes coletivos desencadearam uma onda de manifestações em várias capitais brasileiras. Em São Paulo houve enfrentamento entre a polícia e os manifestantes envolvendo gás lacrimogêneo, spray de pimenta, balas de borracha e prisões de um lado e pichações e depredação do outro. E a indagação da ala mais conservadora da sociedade não poderia ser outra que não “Precisa de tudo isso por apenas R$ 0,20 de aumento”. Vandalismo e R$ 0,20, informações exaustivamente repetidas pelos maiores veículos de comunicação durante a semana. O argumento ganha ainda mais força com o fato de que o aumento foi abaixo da inflação do período. Mas uma afirmação dessas, dizer que uma manifestação tão numerosa e heterogênea aconteceu por apenas vinte centavos é das duas uma: muita ingenuidade ou muita desonestidade intelectual.

Em primeiro lugar é bom pontuar que, em São Paulo, de 1994 (quando foi implantado o plano real) até agora houve um aumento de 540% na tarifa de ônibus e de 433% na tarifa do metrô enquanto a inflação acumulada do período, medida pelo IPCA, foi de 332%, portanto a desculpa de que “o aumento foi abaixo da inflação” não convence o cidadão da região metropolitana paulista que tolera aumentos reais há muitos anos. Se tivessem seguido a tendência da inflação a tarifa do ônibus hoje seria R$2,19 e do metrô 2,59. Vinte centavos? Um real de diferença! Só na ida e se não fizer baldeação. Faça as contas e veja se esse valor não faz diferença pra uma população que tem um salário médio de R$ 1.600,00 e que 82% da população ganha até R$ 2.000,00. Isso sem contar os custos de tratamentos de saúde provocados por doenças provenientes de stress, por exemplo, ou ainda o custo de oportunidade proveniente de não conseguir fazer um curso de aprimoramento profissional por falta de tempo e dessa maneira ver suas chances de ascensão na carreira diminuir.

Mas a fúria popular não tem origem em se o aumento foi real ou não, tem origem no serviço mal prestado, na humilhação diária que a massa trabalhadora é submetida e na sensação de estar sendo assaltado sempre que passa pela catraca. Perdemos horas e mais horas diariamente dentro de um pau de arara urbano que chamam de transporte publico, e muitas vezes somos expostos a situações absurdas como a famosa disputa por assentos (quase uma dança das cadeiras) quando chega um trem vazio na estação, ou quando toca o celular e não conseguimos atender pois mal conseguimos movimentar nossos braços de tão apertado que esta, ou ainda quando alguém desmaia em cima de você por falta de ar. Se fosse barato já seria bem difícil de aturar um serviço péssimo desses, mas ainda por cima transporte coletivo em São Paulo é caro.

Façamos, por exemplo, um comparativo entre a qualidade do serviço prestado pelo metrô da capital paulista e o de Madri, que é aprovado por seus usuários. Existem quatro variáveis a serem levadas em consideração: extensão, comodidade, rapidez e o preço, e para medir essas variáveis os indicadores que escolhi foram quantidade de estações, quantidade de usuários por Km, tempo médio por viagem e o próprio preço da passagem respectivamente. Preciso ressaltar que só achei o tempo médio de viagem do transporte publico de São Paulo no geral e não apenas do metrô, e que para chegar no preço do metrô madrileno apenas converti euros para reais, sem ajustar pela Paridade do Poder de Compra, o que seria interessante já a inflação é significativamente maior aqui já há algum tempo.


São Paulo
Madri
Estações
64
300
Usuários por Dia
39 milhões
2 milhões
Km
74
293
Usuários por Dia/Km
527 mil
6,8 mil
Tempo Médio por Viagem
69 minutos
22 minutos
Preço
R$ 3,20
R$ 6,10

Se nós aceitarmos como hipótese que o Metrô de Madri tem um preço justo pelo serviço que oferece podemos tentar calcular o preço justo do Metrô de São Paulo baseado no serviço que este oferece. Se colocarmos em perspectiva o que cada um oferece e multiplicarmos pelo preço da tarifa madrilena (que tomamos como justa e adequada) a conta será a seguinte:

(64/300)*(6,8/527)*(22/69)*6,10=0,00535378

Isso mesmo, tomando pelo padrão de qualidade espanhol o serviço do metrô paulistano vale pouco mais de meio centavo. Veja bem, eu não estou dizendo que este deveria ser o preço por aqui, até porque tarifa zero só é possível em situações muito especificas, o que esses números mostram é a diferença de qualidade do serviço aqui e lá, e que o preço praticado aqui tendo em vista o que é oferecido é extremamente alto. Se isso não é revoltante, se isso não merece protesto, não sei o que mereceria. E ainda temos que ouvir o Arnaldo Jabor em sua diarréia mental semanal no Jornal da Globo dizer que “a causa é não ter causa”.

Sobre os Excessos
Houve sim vandalismo por parte de alguns dos manifestantes, que não é legal, não é o ideal, mas que foi muito aumentado por certos veículos de comunicação e que foi absolutamente ofuscado pela aviltante violação dos direitos humanos promovida pela Policia Militar de São Paulo. Prisões ilegais, violência gratuita contra manifestantes pacíficos e até contra a imprensa, entre outras barbaridades. Na realidade a policia acabou nos dando um novo motivo para lutar: a conquista de um verdadeiro Estado Democrático de Direito.

Mais do que serviços públicos mal prestados, vivemos num país onde a população não tem voz e onde uma há dissintonia muito grande entre os eleitores e a classe política. Uma explicação provável pra isso é que historicamente o brasileiro é um povo passivo, o que vem mudando nos últimos tempos e os protestos são prova disso. A reação da PM mostra que ver o brasileiro sair da inércia incomoda gente poderosa.

Aos poucos as pessoas perceberam que o que se buscava com os protestos era algo muito mais profundo que 20 centavos. Muitas pessoas que eram contra as manifestações no inicio reviram suas posições. Que o povo de São Paulo faça valer o lema de sua cidade “Non Ducor, Duco” ou “Não Sou Guiado, Guio”. Alias, que isso valha pra todo o Brasil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário