sábado, 24 de dezembro de 2011

O Futebol Brasileiro no Divã

Copa América 2007. Uma envolvente seleção argentina é totalmente neutralizada pela ótima marcação do time brasileiro, que anota três gols de contra-ataque e se sagra campeão. Ainda em 2007, o São Paulo vence o Brasileirão com uma mão e dois pés nas costas, jogando um futebol defensivo e paciente, com lançamentos e chutes de longa distância (muito parecido com a escola alemã). Em 2008 o São Paulo repete o feito. Copa do Mundo 2010. O Brasil fica pelo caminho com um time pragmático e pouco criativo, e a Espanha, com um futebol vistoso e atraente, levanta o caneco. Mundial de Clubes 2011. O Santos assiste, atônito, o Barcelona tocar a bola e criar inúmeras chances de gol.

O importante não são os resultados, mas o que tem acontecido nos últimos anos mostra que o Brasil passa por uma crise de identidade. Hoje nós usamos as armas que usavam contra nós, enquanto outros usam as armas que costumavam ser nossas. Quando foi que perdemos nossas características clássicas? A troca de passes, o improviso, os deslocamentos, a velocidade, o passe curto, o virtuosismo, a ginga, a técnica, o drible, o estilo ofensivo, enfim, o futebol arte? Quando foi que perdemos nossa identidade? Perder pra Espanha ou pro Barcelona, mais do que um sentimento de derrota, nos traz o sentimento de termos sido usurpados. O que foi nosso por gerações, não é mais. É deles.

O futebol arte surgiu no Brasil em meados da década de 20. Antes disso o futebol era um esporte de elite no Brasil, que não passava de uma seleção média no cenário mundial. Foi nos anos 20 que os negros e as camadas populares começaram jogar esse esporte que viria a ser o mais popular do país. Conseqüentemente, foi nessa época que começaram a surgir os primeiros esboços da escola brasileira de futebol. O fim do amadorismo e inicio do profissionalismo nos anos 30 deu uma grande contribuição para essa nova escola ganhar corpo, desenvolvendo aquelas características que hoje o mundo todo conhece.

Em 1938 o futebol arte parecia finalmente ter chegado a maturidade, e foi na Copa do Mundo daquele ano que o Brasil iria realmente debutar no futebol mundial. A escrete canarinho já havia participado das Copas de 1930 e 1934, mas foi em 1938 que o mundo do futebol viu, espantado, as potencialidades daquele novo jeito de jogar futebol. Foi ali que pela primeira vez os europeus viram que era possível penetrar na área de outro modo que não fosse por infindáveis cruzamentos. Bastava jogo de corpo para sair driblando vários marcadores. O craque Leônidas da Silva foi apelidado de “Rubber Man” (Homem de Borracha) pelos jornalistas ingleses, pelo jeito como se contorcia e se livrava da marcação. Leônidas acabou se contundindo e não jogou a semi-final que o Brasil perdeu por 2X1 para a Itália (bicampeã 34-38), mas foi o artilheiro e eleito o melhor jogador daquele torneio pela imprensa mundial. No final o time brasileiro acabou em terceiro, mas foi o time sensação daquele mundial. Além disso, a geração de jogadores dos anos 40 era repleta de craques como Heleno de Freitas, Zizinho e Domingos da Guia, o que trouxe muitas expectativas.

Mas tinha uma Segunda Guerra Mundial no meio do caminho. As Copas do Mundo de 42 e 46 foram canceladas, o que fez com que as glorias dessa geração se limitasse à América do Sul.

Mas em 1950 a seleção brasileira ainda era é forte, e dessa vez chegou à final, novamente dando espetáculo. Porém o futebol arte caiu diante do que viria a ser um de seus maiores inimigos: o descontrole emocional. De qualquer forma, aquele vice-campeonato serviu para consolidar um estilo. Tão consolidado que já começava a influenciar times do outro lado do oceano. Naquele mesmo ano de 1950, começava a se formar uma seleção húngara que assimilou várias características do futebol brasileiro, como posse de bola, passes curtos, velocidade, entre outros. Bem verdade que essa seleção ainda mantinha várias influências das escolas européias clássicas, mas a influência do futebol brasileiro era clara. Fato é que esse foi o melhor time do mundo na primeira metade da década de 1950, e foi justamente nesse time que o Brasil (numa época de entressafra) esbarrou em 1954. Mas a hora do Brasil estava para chegar....

Em 1958 veio, finalmente, a consagração. Com um time que é apontado por muitos especialistas como um postulante ao título de melhor time da história (até mesmo por seu equilíbrio ataque/meio-de-campo/defesa), e que contava com quatro jogadores da seleção do século XX da FIFA (Pelé, Garrincha, Nilton Santos e Djalma Santos), o Brasil foi campeão dando espetáculo atrás de espetáculo. Em 1962 veio o Bi. Em 1966 o futebol arte perdeu para a violência (que é diferente de raça e virilidade) e para passividade dos árbitros. Mas em 1970, com outro time postulante a melhor da história, veio o tricampeonato.

Pelos clubes a situação não foi diferente. Desde a metade da década de 1950, os clubes brasileiros eram convidados para diversos torneios ao redor do mundo. Mais que serem convidados, clubes como Palmeiras, Botafogo e principalmente o Santos goleavam os adversários dentro de seus próprios domínios. Clubes de expressão como Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Benfica, Boca Juniors e Milan tem estórias embaraçosas relacionadas á clubes brasileiros na década de 60. Um período de absoluta hegemonia do futebol canarinho.

Gradualmente clubes e seleções de todo o mundo foram assimilando um pouco daquele estilo de jogo, enquanto outros descobriam alguns antídotos para pará-lo. O que fez com que nos anos 70 a coisa fosse mais nivelada, o futebol de espetáculo ainda prevalecia no mundo, o Brasil ainda era forte, mas a grande seleção daquela década foi a Holanda (que, no entanto, foi vice em 74 e 78).

No inicio da década de 80 o Brasil voltou a formar uma seleção memorável, que goleava impiedosamente seus adversários. Seleção que seria protagonista de um dos jogos mais emblemáticos da historia. Apesar de todo favoritismo, na Copa de 82, o time de Zico, Falcão e Sócrates foi derrotado pela pragmática Itália. Esse jogo ficou conhecido mundialmente como “A Tragédia do Sarria” (em alusão ao nome do estádio). Mais do que uma simples zebra, aquele foi um marco representativo da mudança de paradigma no futebol mundial. Aquela eliminação suscitou a máxima de que espetáculo não ganha jogo. A partir daí, times de todo o mundo começaram a repensar sua maneira de jogar, priorizando mais a eficiência em detrimento do espetáculo. A enorme evolução da preparação física dos atletas, que favorecia principalmente as defesas, ajudou a acelerar este processo.

Assim, pouco a pouco, o futebol foi se tornando cada vez menos arte, menos improviso, menos plasticidade, para dar lugar à eficiência, ao pragmatismo e ao ganhar a qualquer custo, com alguns lampejos de gênios como Maradona, Romário, Zidane e Ronaldo. O próprio futebol brasileiro seguiu o fluxo e abandonou quase que completamente suas raízes. Durante os anos 90 praticamente nenhum time ainda dava espetáculo. São Paulo 92/94, Palmeiras 93/94 e 96, Vasco 97/98, Corinthians 98/99, além da própria seleção de 98, foram as poucas exceções. No século XXI nem exceção houve.

Porém sempre há os que navegam contra a corrente. Os espanhóis sempre foram grandes apreciadores do futebol bem jogado, e enquanto o mundo o abandonava, eles tentavam reinventá-lo, torná-lo competitivo novamente. E conseguiram. Conta a história, que em meados dos anos 70, havia uma placa nas categorias de base do Barcelona que dizia que quem tivesse menos de 1,80m podia ir embora. Depois de perder um campeonato local juvenil devido a inabilidade de seus jogadores, o presidente mandou que a placa fosse retirada, priorizando assim a qualidade técnica em detrimento do porte físico. É sabido que desde meados dos anos 90, placas parecidas com aquela pipocam em categorias de base em todo o Brasil. E foi assim que os papeis foram invertidos.

No Brasil, se convencionou questionar o que era melhor, ganhar jogando feio como em 94 ou perder jogando bonito como em 82? Mas a pergunta correta deveria ser, perder jogando bonito como 82 ou perder jogando feio como em 90? Ou ainda, ganhar jogando bonito como em 70 ou ganhar jogando feio como 94?

Ano passado visitei a Espanha e conheci uma pessoa da idade do meu pai, que sabia escalar a seleção brasileira de 82 do goleiro ao centroavante. É lógico que ganhar é sempre melhor, mas só quando você dá espetáculo que é possível entrar pra historia mesmo perdendo. A derrota de um time talentoso vira “tragédia”, enquanto a derrota de um sem talento cai no esquecimento.

Não seria o momento de assimilarmos está lição, e repensar o atual futebol brasileiro, de chuverinhos, chutões e pontapés? Não é hora é voltarmos às nossas raízes e resgatarmos o futebol que nos valeu fama, fortuna, respeito, inveja e glória?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Moralismo no País do Futebol

Acho que ninguém contesta que o futebol é, por larga vantagem, o esporte preferido dos brasileiros. É de longe o mais assistido e discutido nos bares, escolas, redes sociais e afins. Especialmente quando algum time se sagra campeão, este se torna o assunto da semana. Os torcedores do time campeão comemorando e provocando os rivais, os rivais retrucando, e por ai vai.

Mas tem um tipo pessoa, que eventualmente pode até torcer para um time mas não é muito apegada, que contesta todo mundo (e contestar é bom!). Esse tipo de pessoa não toma partido de nenhum lado, é contra a discussão em si, pois acha que futebol não é digno de ser tema de uma discussão tão longa e intensa. Vai mais longe: diz que o mau do Brasil é o futebol! Que o brasileiro vota errado e não sabe nada de política porque o futebol desvia sua atenção. E que durante a ditadura as pessoas só se importavam com a seleção enquanto estudantes eram torturadas.

Para começar a expor meu ponto de vista, vou discordar do título dessa postagem. O Brasil não é o país do futebol. O Brasil é, historicamente, o maior celeiro de craques do futebol mundial. Mas não é o país mais fanático, apreciador, apaixonado, etc. pelo esporte bretão. Muito se comenta que das dez maiores torcidas do mundo, quatro são brasileiras, incluindo a maior. Mas as mesmas pesquisas que apontam que o Flamengo têm algo em torno de 18% da preferência nacional (Datafolha), e cerca de 33 milhões de torcedores, também apontam que cerca de 23% da população não tem nenhum time (Datafolha). Isso mesmo, o numero de pessoas que não torcem pra nenhum time (ou só pela seleção, na Copa) é significativamente maior que o numero de torcedores da maior torcida do país. Na Alemanha e na Inglaterra esse numero não chega a 5%, na Argentina não passa dos 2%. Esses são três belos exemplos de países altamente politizados (e nos casos de Alemanha e Inglaterra, de países desenvolvidos e ricos), o que mostra que é possível ser um grande aficionado pelo esporte,e ainda assim ter consciência política.

E tem aquela clássica “o brasileiro vota errado porque a Copa é no ano da eleição”. Como é que é?! Então um evento que acontece em junho retém a atenção dos brasileiros até novembro? Eu acompanho a miude os dois eventos, e acho absolutamente conciliável acompanhar as duas coisas.

Sempre se diz que o futebol, e em especial a seleção, foi usado como propaganda política durante a ditadura. E foi mesmo. O que não diminui em nada o que, por exemplo, a seleção de 70 conquistou no campo esportivo e cultural. Mas pouco se comenta que um dos maiores movimentos cívicos da nossa historia surgiu nos campos de futebol. Em 1982, torcidas de vários clubes começaram a levar faixas em prol da volta da democracia. Logo esse movimento ganhou adesão de outros setores da sociedade e vida fora dos estádios. Mais tarde esse movimento ficou conhecido como “Diretas Já”.

Não me entenda mal, eu me incomodo bastante com jogadores que não conseguem fazer nada mais construtivo do que postar “to assistindo malhação XD kkkkkkk” no Twitter, ou com aqueles torcedores que falam pra quem quiser ouvir “meu time é a coisa mais importante do mundo” ou “meu time, minha vida, nunca vou te abandonar” (ainda vou escrever sobre isso). Tenho inveja do futebol europeu, onde boa parte dos jogadores, quando questionados, sabe opinar, ainda que minimamente, sobre política, economia ou arte. Assim como os torcedores nesses países também sabem. E essa é a questão, não são só os jogadores de futebol que são culturalmente vazios, no Brasil, figuras publicas em geral são vazias! Não são só os torcedores fanáticos que são alienados, o brasileiro, via de regra, é alienado.

Botar a culpa no futebol pela ignorância e passividade do nosso povo é simplesmente achar um bode expiatório. Ser politizado não tem nada a ver com abdicar de momentos de prazer e cultura. Tem a ver com a nossa educação, seja a escolar ou a que recebemos em casa. O brasileiro cresce achando que política é chato e não tem jeito, que economia é complicada demais e que dramaturgia e esporte são só entretenimento. Futebol, longe de ser o mau da nação, é, isso sim, um dos maiores patrimônios culturais do país.