domingo, 16 de dezembro de 2012

Por Menos Passividade dos Clubes Brasileiros

Na última quarta-feira a final da Copa Sulamericana entre São Paulo e Tigre reacendeu uma velha polêmica do futebol na América do Sul: até quando catimba deve ser tolerada?

Durante o primeiro tempo, como havia sido no jogo de ida, os argentinos provocaram e agiram com muita truculência. O meia Lucas, o  mais caçado, além de entradas violentas na disputa de bola, recebeu um pisão nas costas quando estava caído e uma cotovelada que lhe tirou sangue do nariz. Na saída para o intervalo Lucas mostrou um algodão ensangüentado ao zagueiro que lhe deu a cotovelada. Essa foi a desculpa que os argentinos queriam para começar a empurrar e a xingar os brasileiros, tentando iniciar uma briga a todo custo. Tentaram invadir o vestiário sãopaulino mas foram contidos pela polícia, em seguida desceram para o vestiário dos visitantes, porém, tentaram novamente entrar no vestiário do time da casa, agora pelos túneis subterrâneos do Morumbi, e dessa vez foram contidos pelos seguranças do São Paulo.

Como se não bastasse, numa grande demonstração de falta de espírito esportivo, os jogadores do Tigre se recusaram a voltar ao gramado para jogar o segundo tempo da partida. O fato de o São Paulo ter tentado impedir que os argentinos aquecessem no gramado (o que é errado) não justifica tal reação.

Mas casos como este não são coisa nova e nem raridade. Essa é a triste realidade do futebol sulamericano já faz muito tempo. Faço agora uma reconstituição histórica e ao final sugiro algo que pode trazer grandes melhoras.

Uma Noite em 1946
O céu já estava escuro quando a bola começou a rolar no Monumental de Nuñes, Buenos Aires. Brasil e Argentina disputavam a final do Campeonato Sulamericano de Seleções de 1946. O jogo inicia tenso, duro, quase violento. A torcida local chamava os jogadores visitantes de “monos” (macacos) como já era costume quando a escrete canarinho jogava do outro lado do Rio da Prata.

O meia Jair da Rosa Pinto sofre marcação intensa do zagueiro Salomón. Toda vez que o arbitro voltava sua atenção para outro lado do campo o zagueiro aproveitava para chutar a panturrilha de seu adversário para irritá-lo. Em um lance sem bola, e fora do campo de visão do juiz, o argentino desferiu uma cotovelada em Jair. Aos 28 minutos do primeiro tempo Jair e Salomón entram duro pra dividir uma bola, ambos se machucam mas o jogador porteño leva a pior, fratura a perna. O arbitro alega que ambos foram na bola e não expulsa ninguém.

Esse foi o estopim de uma confusão generalizada iniciada pelos argentinos, inconformados com a não expulsão de Jair. Parte da torcida invadiu o campo e começaram a agredir os jogadores brasileiros. A polícia invadiu o campo e começou a agredir os jogadores brasileiros com cassetetes! Depois de alguns intensos minutos de linchamentos, os jogadores da seleção brasileira se refugiam e se trancam no vestiário dos visitantes, alguns deles gravemente feridos.

Inicia-se ai uma serie de tentativas frustradas para convencer os brasileiros a voltarem a campo que acabou com a polícia argentina arrancando com pés de cabra o portão do vestiário e escoltando os jogadores de volta ao campo. Ao final da partida o placar apontava 2X0 para o time da casa, que foi conclamado campeão do torneio pela Confederação Sulamericana como se nada de anormal ou irregular tivesse ocorrido. Ninguém foi punido. O episodio fez a CBD romper relações com a AFA por dez anos.

Uma Historia de Sangue, Suor, Lagrimas e Muita Baixaria
Historicamente um dos aspectos mais atraentes do futebol na América do Sul é promover o confronto entre o futebol brasileiro, de plasticidade, ginga e molecagem, e o futebol cisplatino (argentino e uruguaio), de raça, virilidade e doação. Esporte, assim como a arte, reflete a sociedade, e se na baixada cisplatina se joga dessa maneira é porque não apenas os atletas, mas o cidadão comum tem uma visão patriota do mundo, onde representar sua terra e seu povo é motivo de grande orgulho e extrema responsabilidade, características que, cá entre nós, nós brasileiros deveríamos ter um pouco mais.

Tanto o futebol argentino como o uruguaio tem uma historia invejável, de superação e glórias, sendo suas escolas de futebol absolutamente consagradas. Mas representar seu povo e sua terra não é desculpa para extrapolar os limites da civilidade, para ser violento e para se utilizar de métodos escusos. O capitulo que narrei logo acima foi um dos muitos episódios que só envergonham o futebol sulamericano. E a baixaria não é privilegio das seleções.

A Taça Libertadores da América teve sua primeira edição em 1960, e não demorou muito para que esse espírito aguerrido tomasse conta da competição. Ao mesmo tempo em que o torneio continental remete historias de superação, perseverança, virilidade, plasticidade e consagração, também remete a historias de medo, ameaças de morte, violência, linchamento e coerção. Durante muitos anos os times brasileiros entregavam o jogo com medo de serem linchados pela torcida local. Com o passar dos anos times da Bolívia, Peru e Equador também aderiram ao futebol de baixaria e catimba (em geral, times do Paraguai, Chile e Colômbia foram mais influenciados pela escola brasileira). Assim os clubes brasileiros passaram a não levar a Libertadores tão a serio.

Chega a ser um contra-senso que na era de ouro do futebol brasileiro, quando os clubes brasileiros eram fortes e temidos no mundo todo, quando usualmente eram convidados para jogar torneios internacionais contra times europeus, e geralmente ganhavam, esses mesmos clubes brasileiros tivessem tão pouco êxito no torneio continental.

Até mesmo a Copa Intercontinental, que na época era disputada em jogos de ida e volta, foi prejudicada. Muitos times europeus tinham medo vir jogar na América do Sul, e alguns chegaram a boicotar o evento. A solução foi disputar o mundial em jogo único no Japão.

Anos 90 e a Moralização
A sofisticação dos meios de comunicação, especialmente do TV, fez com que a partir dos anos 90 houvesse um clamor pela moralização da situação. Lances de extrema violência, embora longe do alcance dos árbitros, não mais escapavam do sem numero de câmeras espalhadas pelo estádio. O próprio zeitgeist moral da época passou a exigir níveis maiores de civilidade e espírito esportivo, o que proporcionou melhoras significativas.

Melhoras que se refletiram em campo, com os brasileiros voltando a se interessar pela conquista do torneio. Até 1992 a Argentina tinha 15 títulos da Libertadores,  o Uruguai tinha 8 e o Brasil tinha apenas 5. Hoje a Argentina tem 22, o Brasil tem 16 e o Uruguai permanece com 8.

Muito Por Fazer
Apesar de ter melhorado muito, a situação ainda está longe do ideal. Ainda é normal invasão de campo, jogar objetos no gramado e em alguns jogos ainda há muita violência. Este ano Neymar foi vitima de uma chuva de pedras e frutas na Bolivia. Em 2004, em um jogo entre São Caetano e o América (MEX), a torcida mexicana jogou um carrinho de mão no campo e depois invadiu o gramado. Sabe o que aconteceu nesses casos? NADA! Não houve interdição do estádio, não houve punição aos clubes, nada. A CONMEBOL que nunca fez nada para mudar esse quadro continua sendo absolutamente inerte. Não se importam nem com a violência dentro de campo, uma vez que cartões amarelos não geram sequer suspensões (há a pífia multa de 100 dólares por cartão).

Diante da situação ainda precária do futebol no continente eu sugiro que os clubes brasileiros boicotem todas as competições da CONMEBOL sempre que se sintam prejudicados pela inércia da Confederação. Em 2009 os clubes mexicanos (que nem são filiados à CONMEBOL) foram eliminados do torneio devido à gripe suína, que já era epidemia por lá (absolutamente compreensível). Os principais clubes do país se juntaram e ameaçaram boicotar a competição nos próximos anos em razão dessa decisão, a CONMEBOL voltou atrás, fez de tudo para contornar a situação e no final deu vagas diretas às oitavas de final na edição seguinte aos clubes que haviam sido eliminados, além de um pedido de desculpas. Agora imagine o efeito que um boicote brasileiro causaria.

Os clubes brasileiros são hoje os melhores e mais ricos do mundo fora da Europa e deveriam fazer valer sua força. Num eventual rompimento entre CONMEBOL e clubes brasileiros, a CONMEBOL certamente perderia muito mais. Ao invés ficarmos sempre como reféns da Confederação Sulamericana, deveríamos forçar uma reforma nos regulamentos e estatutos da instituição para que atendam mais aos nossos interesses. Evidente que ajudaria muito se ainda tivéssemos uma associação dos principais clubes do país, e não consigo deixar de lembrar o desfavor que Ricardo Teixeira, Andrés Sanches e a Rede Globo fizeram ao futebol brasileiro destruindo o Clube dos 13.

Ainda assim o boicote é possível e os clubes deveriam pensar seriamente nisso. Os frutos não seriam bons apenas para nós, mas valorizariam o futebol sulamericano como um todo.

Adendo
Meu texto pode dar a impressão que brasileiros nunca se utilizaram de catimba e violência e somos todos santos: não é verdade! O texto trata de tendências, e eventuais casos isolados que invertam a lógica apresentada também devem ser condenados e coibidos.

domingo, 11 de novembro de 2012

Porque o Pluripartidarismo Prejudica o Pluralismo Ideológico no Brasil


A proposta deste texto é desconstruir a idéia aparentemente óbvia de que quanto maior o número de partidos políticos maior será o leque ideológico presente na sociedade, e explicar porque o sistema político brasileiro é tão engessado e permeado por partidos fisiológicos.

Direita e Esquerda
Primeiro gostaria de definir direita e esquerda, e antes que pergunte, eu não acho que estes sejam termos ultrapassados, ao contrario, se deixarmos de lado os estigmas que estes conceitos possuem, veremos que eles ainda exprimem bem certos conjuntos de posicionamentos dentro do jogo político. Há os que vão argumentar (com razão) que para descrever adequadamente posicionamento político seria necessário definir Autoritário e Libertário, mas estamos falando de correntes políticas dentro da democracia representativa, que fica no meio do caminho entre esses dois termos e portanto indiferente a eles.

Pois bem, a Direita está ligada ao (à):
(I) Conservadorismo social – defende que mudanças são ruins, e quando forem inevitáveis,  devem ser lentas e graduais.
(II) Liberalismo econômico – defende que quanto menos intervenção na economia mais eficiente será seu desempenho.
(III) Moral objetiva – defende que há um conceito moral e cultural superior  aos outros que deveria ser seguida por todos (a famosa “moral e bons costumes”).
(IV) Tradição – defende que os valores morais e éticos, bem como os costumes tradicionais de uma sociedade, devem ser mantidos com o passar do tempo.
(V)  Responsabilidade individual – cada individuo é exclusivamente responsável por seus méritos e seus fracassos.
(VI) Liberdade negativa – não interferência de outros indivíduos ou instituições sobre ações individuais.
(VII) Mérito – a condição social do individuo deve estar ligada ao seu mérito.

Em contrapartida, a Esquerda está ligada ao (à):
(I) Liberalismo social – defende que mudanças são boas, especialmente aquelas radicais, que rompem com as estruturas vigentes.
(II) Intervencionismo econômico – defende que para combater as mazelas sociais devem haver intervenções na economia.
(III) Moral subjetiva – defende que não há hierarquia entre os diferentes conceitos morais e culturais presentes em diferentes sociedades.
(IV) Espírito de época (Zeitgeist) – defende  que os valores morais e éticos, bem como os costumes de uma sociedade, devem reagir às novas descobertas e à reflexões mais sofisticas que forem feitas.
(V) Responsabilidade coletiva – a totalidade da sociedade é responsável por suas benesses e suas mazelas.
(VI) Liberdade positiva – estar livre de obstáculos impostos pela estrutura social.
(VII) Igualdade – deve haver igualdade social.

Em linhas gerais é isso, e as diferentes correntes ideológica, tanto à esquerda quanto à direita, são nuances desses posicionamentos, ou fruto da interação entre dois ou mais deles. Qualquer ideologia que esteja inserida em uma perspectiva de democracia representativa pode ser catalogada em um desses dois grandes grupos, ou , pelo menos, entre eles.

Formação Política
É o nível de conhecimento de um individuo com relação às correntes ideológicas bem como sua capacidade de se posicionar entre elas, diferenciando as diversas nuances, tendo vista a solução de problemas em sua sociedade, levando em conta valores e conceitos pessoais. Em países onde há bom nível de educacional e uma democracia consolidada geralmente há uma formação política bastante sofisticada, onde as pessoas têm opinião sobre cada uma desses temas e vários outros sub-temas que possam surgir . No Brasil ainda temos uma formação política bastante rasa, que não vai muito além de questões básicas. Vou agora fazer uma descrição do como funciona o sistema político aqui e nos países desenvolvidos.

No Brasil
Aqui, devido à nossa pouca formação política, votamos em candidatos e não em idéias. Isso tende a enfraquecer os partidos, pois cada vez que um líder político se sente desprestigiado dentro de um partido, ou vê seu projeto de poder ameaçado em detrimento de outra ala do partido, ele se junta com alguns outros líderes e funda seu próprio partido, com a certeza que levará seus eleitores consigo, pois lembremos, aqui o candidato vale mais que a idéia. Assim se formam inúmeros partidos com ideologias muito parecidas ou, alguns casos, quase idênticas.

Com o acirramento da disputa partidária os partidos passam a ser mais pragmáticos, abrindo mão de parte de seus anseios ideológicos em nome de seus projetos de poder, o que faz com que a situação fique ainda mais nivelada. Mas a pluralidade partidária tem efeitos ainda mais nefastos.

Quando um candidato assume algum cargo executivo no Brasil, seja prefeito, governador ou presidente, ele tem que estar disposto a fazer alianças, pois, por mais popular que seu partido seja, sempre terá uma minoria nas casas legislativas. Peguemos como exemplo o governo federal, comandado pelo PT, e que é também o partido mais bem representado na câmara dos deputados, com 88 deputados, o que, no entanto, representa apenas 17% da casa, muito pouco, mesmo para aprovar votações de maioria simples (50% +1). E novamente, em nome de seus projetos de poder, partidos que estão fora do poder podem boicotar idéias com as quais concordem e partidos que estão no poder podem aprovar idéias com as quais discordem, o que faz com que os governos sejam todos muito parecidos, diferenciando-se nos detalhes apenas.

Um dos piores efeitos disso tudo é a situação dos ministérios e secretarias, cujos cargos deveriam ser ocupados por especialistas, intelectuais e pessoas de renome em suas áreas especificas, independente de vinculo partidário. Ao invés disso são usados como moeda de troca para obter apoio nas casas legislativas, um verdadeiro loteamento político.

Em síntese, no Brasil o sistema estimula a busca do poder como fim e não como meio, enquanto ideologia fica em segundo plano.

Em Países Desenvolvidos
Em lugares onde há formação política bem desenvolvida os eleitores valorizam mais as idéias, políticos são apenas representantes dessas idéias e não os atores principais. Candidatos que transitem muito entre ideologias, que defendam redução de impostos ao mesmo tempo em que dizem que vão melhorar a saúde pública, são absolutamente insustentáveis. Nesses lugares é preciso se posicionar, ter um lado, e defende-lo com coerência. Nas últimas semanas do pleito presidencial que ocorreu nos EUA, Mitt Romney se viu em uma saia justa devido ao furacão Sandy. Romney sempre foi a favor que apenas os estados arquem com os custos de catástrofes naturais, sem que a União seja envolvida, e reafirmar sua opinião no último debate certamente lhe custou votos decisivos. Mas o candidato republicano fez isso porque o eleitor estadunidense preza coerência, e uma mudança repentina de idéia por casuísmo poderia significar o fim de sua carreira política. Isso fortalece os partidos como legítimos representantes de ideologias. Em lugares onde há esse tipo de mentalidade formam-se dois, três ou quatro partidos realmente relevantes.No já mencionado Estados Unidos há 2 (Republicano e Democrata), No Reino Unido 3 (Trabalhista, Conservador e Liberal Democrata), na França 2 (Partido Socialista e União por um Movimento Popular), na Espanha 2 (Partido Popular e Partido Socialista Operário Espanhol), e assim por diante.

“Mas uma quantidade pequena de partidos é incapaz de representar toda diversidade ideológica que existe!”

Ledo engano. Como mostrei, toda ideologia dentro de uma perspectiva democrática pode ser inserida em um dos dois grandes paradigmas, e mesmo que você fragmente esses paradigmas entre os mais moderados e os mais exaltados não será necessário mais que quatro partidos. O que ocorre é que discussões entre correntes dentro do mesmo paradigma ocorrem internamente aos partidos.

Peguemos um exemplo clássico, os EUA. Antes de desafiar Barack Obama, Mitt Romney teve que passar pelas prévias do partido Republicano. Romney, um dos principais lideres da ala Moderada do partido, teve acalorado enfrentamento com Ron Paul e Michele Bachmann do Tea Party, com Newt Gingrich dos Conservadores Fiscais, com Rick Perry e Rick Santorum da Direita Cristã, além do também Moderado Jon Huntsman. O último presidente republicano, George W. Bush, era da ala dos Neoconservadores. E essas são apenas algumas das correntes presentes dentro do partido. Quando há prévias do Partido Democrata também há embates entre os representantes de diversas alas como os Progressistas, os Democratas Liberais, os Sindicalistas, os Secularistas, a Esquerda Cristã, os Novos Democratas, as Minorias Étnicas, entre outras. As previas estadunidenses pegam fogo, tem debate, provocação,o eleitorado se envolve e até vota. A população efetivamente escolhe quem eles querem que seja o candidato conservador e o candidato liberal, para depois decidir entre um dos dois.

Outra vantagem de um eleitorado que valoriza idéias é que as pessoas escolhem seus candidatos ao legislativo baseado em sua escolha para o executivo, o que faz com que o chefe de governo geralmente tenha maioria nas casas legislativas, livrando-o da necessidade de fazer uma coalizão. Dessa maneira não há alianças espúrias, não há loteamento político e diminui-se o incentivo ao pragmatismo político.

Nem Tanto ao Céu, Nem Tanto ao Inferno
Fiz aqui uma descrição em linhas gerais e exceções vão haver. O brasileiro tem demonstrado evolução em sua consciência política, e o discurso político, a passos lentos, tem se sofisticado, mas ainda estamos léguas de distância do ideal. No mundo desenvolvido também nem tudo são flores, em minha análise desconsiderei elementos cruciais, como a influência de megacorporações. A intenção foi fazer uma aproximação para mostrar o abismo que separa essas duas realidades.

Conclusão
Ter mais partidos não significa ter mais correntes políticas, ao contrario, há uma relação inversa entre os dois. Mas a solução não é simplesmente proibir a existência de muitos partidos, isso não adiantaria se nada for feito com relação à formação política. A nossa democracia é jovem e a educação de nossa população deixa a desejar, mas à medida que amadurecermos nossa consciência política haverá uma tendência natural ao fortalecimento de alguns poucos partidos em detrimento de outros.

O que pode ser feito no curto prazo, e eu apoiaria, seria sancionar leis que sufoquem partidos pequenos e dificulte a criação de novos, para que as questões das alianças de interesse e de loteamento político sejam pelo menos atenuadas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Crise Europeia Explicada


Depois da consolidação do mercado comum europeu nos anos 90, bem como a criação do Euro na década seguinte, a Europa parecia madura para fazer frente aos Estados Unidos tanto economicamente quanto politicamente, num sistema que promovia bem estar social juntamente com eficiência econômica.  No entanto, a crise dos PIGS (PIIGS), e posteriores crises da zona do Euro e européia, colocaram fogo nesse sonho. Este texto pretende explicar com mais profundidade esta crise e suas conseqüências no Brasil.

Preâmbulo
A Segunda Guerra Mundial deixou como legado um mundo bipolarizado entre EUA e URSS, e o enfraquecimento das potências europeias, que haviam dominado o mundo num passado não tão distante. Nesse cenário, nos anos 50, surgiu um movimento de integração da comunidade européia, pois já começava a haver o entendimento de que sozinhos não teriam forças para encarar aqueles gigantes. A derrocada dos soviéticos anos mais tarde mostrou que estes não eram uma ameaça tão grande como aparentavam, mas os estadunidenses continuaram olhando o mundo de cima pra baixo, e de binóculo.

Aos poucos a comunidade européia foi se desenvolvendo até atingir seu clímax em 1992 com o Tratado de Maastricht, que criava obrigações fiscais comuns, política externa conjunta, um tribunal europeu e um mercado comum europeu. Surgia assim a União Européia. A livre circulação de insumos, mercadorias e mão-de-obra gerou um grau de integração nunca antes visto, o que foi economicamente muito proveitoso para os países membros. Porém ainda havia descompassos entre as economias dos países que atravancavam o desenvolvimento do bloco, como diferenças relevantes nas taxas de inflação e nas taxas de juros. Mais que isso, suas moedas não passavam nem perto de fazer frente ao dólar como padrão monetário internacional. A solução encontrada, já projetada pelo Tratado de Maastricht, entrou em vigor em 1 de janeiro de 2002, era a criação de uma moeda única, o Euro.

Trade-off Estabilidade X Desenvolvimento
Antes de prosseguir preciso fazer uma breve explanação sobre política fiscal, monetária e cambial em países desenvolvidos e em desenvolvimento. Como sabemos, inflação alta é ruim, pois dificulta o investimento, aumenta as taxas de captação de recursos externos, reduz a oferta de crédito, corrói os ganhos das empresas e dos trabalhadores, entre outros, e por isso, de maneira geral, os governos se esforçam para evitá-la. Um jeito bastante eficiente de fazer isso é dar o máximo de autonomia ao Banco Central, fazendo que seu único objetivo seja resguardar o valor da moeda, independentemente das conseqüências sociais disso. O problema é que em economias em desenvolvimento, que não possuem tanta capacidade técnica e tecnológica e por isso não possuem grande produtividade, essa política monetária ortodoxa pode levar a uma diminuição da atividade econômica e até mesmo à estagnação, gerando também desemprego (o velho trade-off entre inflação e desemprego) e redução de bem-estar social.

Economias periféricas também não gostam de inflação, mas precisam fazer sua economia crescer e gerar bem-estar, e na impossibilidade de aumentar sua produtividade ao nível dos países desenvolvidos no curto prazo, essas economias recorrem à senhoriagem e ao câmbio defensivo. Na prática o primeiro mecanismo promove investimento e benefícios sociais através da emissão de moeda (inflação) e o segundo consiste em inflacionar propositalmente sua moeda para que ela se desvalorize e suas mercadorias fiquem mais competitivas no mercado internacional. A vantagem desses mecanismos é que gera desenvolvimento sem gerar divida.

Enquanto os países desenvolvidos geralmente optam pela estabilidade, pois já tem eficiência produtiva, as economias em desenvolvimento vêem-se constantemente diante de um dilema, tendendo hora para um lado, hora para outro.

A Crise dos PIGS (PIIGS)
O Euro surgiu como moeda escritural em 1 de janeiro de 1999 e como moeda física em 1 de janeiro de 2002, e efetivamente ampliou ainda mais o grau de integração entre os países da zona do Euro, além de realmente ter se mostrado uma opção ao dólar como padrão monetário internacional. Atualmente a zona do Euro conta com 17 países, mas 5 deles (Eslovênia, Chipre, Malta, Eslováquia e Estônia) entraram recentemente, com o mundo já em crise, e portanto não fazem parte da historia dessa crise, que tem como protagonistas os outros 12 países que aderiram ao Euro desde o inicio (Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Portugal e Grécia).

Para nós brasileiros, quando nos deparamos com este grupo de 12 países pensamos neles simplesmente como países desenvolvidos, o que não está errado, mas a verdade é que há diferenças sensíveis entre eles, sendo uns mais desenvolvidos que outros. De maneira grosseira poderíamos separar os países em dois grupos, o primeiro, dos países com grande eficiência e competitividade seria composto por Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, Holanda e Luxemburgo, e o segundo, de países menos eficientes e menos competitivos composto por Espanha, Itália, Portugal, Irlanda e Grécia. A França é um caso a parte, de difícil classificação, mas que se aproxima mais do bloco dos eficientes.

Antes do Euro, novamente fazendo uma aproximação grosseira, podemos dizer que o grupo encabeçado pela Alemanha manteve política monetária e cambial ortodoxa, enquanto o grupo encabeçado pela Espanha transitava entre a ortodoxia e a heterodoxia. Porém a criação do Euro obrigava esses países aderirem a uma política monetária e cambial única.

Como exigência alemã, pais mais forte da região, e aval dos outros países, o Banco Central europeu deveria ter viés semelhante ao do Bundesbank, ou seja, extremamente ortodoxo. Dessa maneira, os países membros abriram mão de sua autonomia com relação à moeda e ao câmbio e receberam em troca taxas de inflação extremamente baixas.

Sem câmbio e sem emissão de moeda, a única política econômica que restava nas mãos dos governos era a fiscal. Na verdade, na teoria, até mesmo a política fiscal deveria ser engessada, pois o Tratado de Maastricht determinava que o déficit fiscal dos países membros não poderia ultrapassar 3% do PIB e a relação dívida/PIB não poderia ser maior que 60%. O problema é que não havia (e não há) nenhuma instituição supranacional para supervisionar e punir, caso necessário, os países que andassem fora da linha. Caso fosse seguido à risca o Tratado de Maastricht, esses países da periferia da zona do Euro teriam que reduzir os benefícios sociais, fazer menos investimento e encarar taxas de crescimento menos animadoras, mas o que o aconteceu foi exatamente o oposto: aumento de benefícios, investimento e crescimento.

A adesão ao Euro fez esses países periféricos se depararem com uma situação nova: seus títulos do tesouro agora valiam tanto quanto títulos do tesouro alemão. Ou seja, a oferta de credito era muito maior e as taxas de captação de recursos muito menores. Veja, uma quantidade nunca antes imaginada de crédito se abriu para esses países, sendo essa a única área que eles ainda tinham alguma autonomia. O resultado foi o financiamento de avanços econômicos e sociais através de sucessivos déficits fiscais e aumento da dívida. Um fenômeno que contribuiu para essa explosão da divida foi à migração proveniente de países do leste europeu, como Macedônia, Albânia, Romênia, etc., para esses países periféricos da zona do Euro, que não tinham experiência com essa situação e acabaram acolhendo muita gente. Num mundo em expansão é fácil fazer rolar sua dívida, pegando cada vez mais, principalmente se você remunera sua dívida com moeda forte (o Euro) e títulos “seguros” (na verdade os títulos não tinham lastro, estavam apenas pegando carona na credibilidade de países como Alemanha, Holanda e Finlândia), mas com um mundo em crise...

A partir de 2007 os ativos podres do subprime e o estouro da bolha imobiliária começavam a vir tona, e uma possível crise começava a preocupar os investidores, que costumam ser mais conservadores em tempos de crise.  No inicio de 2008 a revista inglesa The Economist trazia uma matéria de capa sobre um grupo de países que a revista chamava de PIGS. A palavra, porcos em inglês, fazia alusão ao fato de os países estarem altamente endividados (sujos, de certa forma), e é formado pela inicial dos quatro países que formavam esse grupo: Portugal (Portugal), Irlanda (Ireland), Grécia (Greece) e Espanha (Spain). Segundo a revista esses países teriam grandes problemas com a escassez de crédito que se avizinhava. O tempo mostrou que a previsão era correta, e que na verdade a Itália também fazia parte desse grupo de países altamente endividados, e foi criado o termo PIIGS.

Com o inicio da crise os investidores correram para resgatar seus títulos, o que não podia ser feito, pois como foi dito, os títulos dos PIIGS não tinham lastro. Diante da situação há três opções para esses países:

Calote: Não pagar a dívida é o pior dos mundos, pois certamente geraria isolamento do mercado internacional e escassez de crédito pelas próximas décadas.

Abandono do Euro: Geraria desconfiança do mercado internacional e conseqüente aumento dos juros, além de colocar uma pá de cal no sonho de uma Europa integrada. Sem contar que o financiamento de uma dívida dessa magnitude com emissão de moeda geraria um terrível choque inflacionário.

Choque de Ortodoxia: Cortar benefícios e serviços públicos, aumentar impostos, encarar estagnação econômica e desemprego.

Crise da Zona do Euro e Européia
Falemos agora dos países eficientes da Zona do Euro. Para esses o Euro foi extremamente positivo, com o aumento da integração entre os países europeus eles aumentaram muito suas exportações e conseguiam insumos a um custo muito menor. Para esses países é muito ruim que os PIIGS entrem em recessão, pois estes têm importância fundamental nas pautas de exportação daqueles.

Mas mais grave do que isso é que os principais credores dos PIIGS são justamente os países eficientes da zona do Euro, com destaque para Alemanha e França. Portanto para eles seria péssimo um calote, ou mesmo o abandono do Euro (primeiro porque perderiam parceiros comerciais, e segundo porque receberiam moeda fraca, sem liquidez internacional e em constante desvalorização). Nesse cenário o mais interessante seria se os PIIGS adotassem as tais políticas ortodoxas, mas para isso seria necessário aprovar ajuda financeira a esses países, o que implica que países como Alemanha e França também adotem políticas ortodoxas para ajudar a pagar a conta. E dessa maneira a crise deixa de ser só dos PIIGS e passa a abranger toda a Zona do Euro. As mesmas relações de causa e efeito podem ser aplicadas, em menor grau, ao conjunto dos países da União Européia, fazendo desta uma crise européia.

Por enquanto os países endividados estão aplicando as políticas de austeridade fiscal, mas há risco real de calote ou de abandono do Euro. No campo político não há uma tendência dos europeus à esquerda nem à direita, há uma tendência pela mudança de governo. Nos últimos 3 anos países que tinham governos liberais trocaram por governos conservadores, e países que tinham governos conservadores trocaram por governos liberais. Angela Merkel é uma das únicas que consegue se manter no governo, mas balança. A crise também fortaleceu um velho fantasma que ronda a Europa, o neonazismo.

No Brasil
Deste lado do Oceano Atlântico, o Brasil também foi influenciado pela crise. Nosso país, grande exportador de alimentos e commodities, e que tem nesses produtos a maior parte de sua pauta exportação, viu suas exportações diminuírem de maneira substancial devido à redução das importações européias. Porém, esse efeito não foi tão relevante pois a demanda chinesa segurou o preço das commodities e sustentou a oferta brasileira.

Outro efeito importante foi a fuga de capitais da Europa, procurando um investimento mais seguro e com boa rentabilidade, e os títulos do tesouro brasileiro caem como uma luva nesse sentido. Esse fenômeno fez com que o câmbio brasileiro se apreciasse tempos atrás.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Organização do Estado Brasileiro


Esse texto tem por objetivo descrever a organização político-administrativa do governo brasileiro, e fará isso através de tópicos, para melhor organização e entendimento.

O Brasil é uma República(I) Presidencialista(II) Federativa(III) Constitucional(IV), cujo Estado é dividido em 3 poderes: Executivo(V), Legislativo(VI), e Judiciário(VII).

I.República – É uma forma de governo no qual o Chefe de Estado (mais alto representante de um Estado) é eleito através de sufrágio universal, preferencialmente livre e secreto, de forma direta (povo elege seu líder) ou indireta (o povo elege representantes, que elegem seu líder). O Chefe de Estado pode ou não acumular o poder executivo. Uma República pode ser presidencialista, parlamentarista, semipresidencialista, entre outros, sendo o Brasil uma República-Presidencialista. República é geralmente colocada em oposição a Monarquia, onde o papel de Chefe de Estado é passado de pai para filho.

São características gerais de uma república:
- Responsabilidade política dos governantes pelo cometimento de algumas infrações chamadas de crimes políticos.
- Eletividade: os representantes são eleitos através do voto.
- Temporariedade: na república, os governantes vêm e vão, ou seja, há uma alternância no poder geralmente representada por mandatos fixos e determinados.

Em contrapartida, são características da monarquia:
- Irresponsabilidade política do monarca
- Hereditariedade: os representantes são determinados pelo parentesco, como, por exemplo, a ascendência
- Vitaliciedade: o monarca governa até o fim de seus dias, não há prazo previamente estipulado para o exercício do poder

II.Presidencialismo – É um sistema de governo onde um Presidente da República, eleito democraticamente, acumula os cargos de Chefe de Estado e Chefe de Governo (exerce o poder executivo). Além do poder executivo, exercido pelo Presidente, o presidencialismo pressupõe ainda a existência do poder legislativo, exercido por um parlamento, e do poder judiciário, exercido por juízes. No Brasil há eleições diretas para Presidente a cada 4 anos, com a possibilidade de uma re-eleição, e o presidente pode ser destituído de seu cargo pela prática de crime comum ou de crime de responsabilidade. No primeiro caso, o julgamento é feito pelo STF, no segundo, pelo Senado Federal.

Breves comentários sobre o parlamentarismo:
- chefe de Estado e de governo são pessoas diferentes
- chefe de Estado tem funções protocolares, simbólicas, de representação do Estado
- chefe de governo , também chamado de Primeiro Ministro, é escolhido pelo parlamento e geralmente provém do partido com maioria na casa. É auxiliado por um Gabinete (que são como “ministros”).  Seu mandato não tem prazo certo, enquanto estiver com o apoio do parlamento ele continua no poder.

Breves comentários sobre o semiparlamentarismo/semipresidencialismo:
- chefe de estado: Presidente da República
- chefe de governo: Primeiro Ministro ( escolhido pelo Presidente da República)
- nesse sistema de governo, o presidente da república (chefe de estado) não exerce apenas funções protocolares. A ele são atribuídas importantes funções políticas, tais como apresentar projetos de lei, comandar as forças armadas, conduzir a política externa e submeter leis ao controle de constitucionalidade, além de escolher o Primeiro Ministro

III.Federalismo – É um sistema político onde um Estado soberano é composto por entidades territoriais autônomas dotadas de governo próprio (como estados, municípios, províncias, comunidades autônomas, etc.). No Brasil há 3 esferas de governo: federal, já citada, estadual e municipal (além do distrito federal, que tem status de estado), cada uma com seus respectivos poderes executivo, legislativo e judiciário (salvo municípios que não possui poder judiciário).

Características de uma Federação:
-os entes federativos são unidos por uma Constituição, qual seja, a CRFB/88.
-os entes federativos são dotados de autonomia apenas, e não de soberania.
-é vedado o direito de secessão em uma Federação (Art. 1ª, CRFB/88).
-descentralização político-administrativa
-princípio da Participação: a vontade dos estados-membros deve ser ouvida na formação da vontade do Estado como um tudo (esse princípio se apresenta no Senado Federal, pois é a casa que representa os estados-membros, todos tendo a mesma importância – 3 senadores).
Obs.: municípios são entes federativos no Brasil, mas não participam da formação da vontade nacional

Capacidade de auto-organização dos entes federativos:
                - Estados: Constituição Estadual
                - Municípios: Lei Orgânica Municipal
                - DF: Lei Orgânica Distrital
                - União: Constituição Federal

IV.Constituição – É um conjunto de normas que estabelecem a estrutura, procedimentos, poderes e direitos de um governo, bem como os direitos e deveres de seus cidadãos. O Brasil já teve sete constituições. A vigente foi outorgada em 1988 e é conhecida como Constituição Cidadã, pois garante vários direitos aos cidadãos, principalmente em seu Art. 5º. Toda a estruturação dos 3 poderes está na Constituição, porém os entes federativos podem regulamentar essas previsões, sempre respeitando a ordem geral da Constituição.

V. Poder Executivo – É o poder do Estado que tem como atribuições governar o povo, administrar o interesse público e exercer o papel de Chefe de Governo, sempre cumprindo a lei. No Brasil o poder executivo é exercido pelo Presidente, eleito através do voto direto a cada 4 anos, com possibilidade de uma re-eleição, pelos ministérios, cujos ministros são nomeados pelo Presidente, e pela Defensoria Pública da União. Em âmbito estadual (e no distrito federal), o poder executivo é exercido pelo Governador, também eleito a através do voto direto a cada 4 anos, com possibilidade de uma re-eleição, e pelas Secretarias Estaduais, cujos secretários são nomeados pelo Governador. Nos municípios o executivo é exercido pelo Prefeito, eleito conforme as mesmas regras que o Presidente e o Governador, e pelas Secretarias Municipais, cujos secretários são nomeados pelo Prefeito.

Em caso de ausência do Chefe do Executivo, nas 3 esferas de governo, o poder executivo deverá ser exercido pelo seu Vice, e em caso de ausência deste, é ativada a linha sucessória presidencial, vindo em seguida, nessa ordem: Presidente da Câmara dos Deputados, Presidente do Senado Federal, Presidente do STF. Lembrando que isso só vale para o âmbito da União. Estados e municípios podem estabelecer normas diferentes.

VI. Poder Legislativo – É o poder do Estado que tem como atribuições criar leis e emendas constitucionais e fiscalizar o executivo. No Brasil, em nível federal, existem 2 casas legislativas:

Câmara dos Deputados: Constituída de Deputados Federais, eleitos a cada 4 anos com possibilidade permanente de re-eleição. O número de Deputados por estado varia de acordo com sua população (sendo um mínimo de 8 e um máximo de 70 por estado, totalizando 513). São eleitos pelo  sistema proporcional (coeficiente eleitoral).

Senado Federal: Constituído por 81 Senadores, 3 para cada estado e o distrito federal. Há eleição para o Senado a cada 4 anos, porém o mandato é de 8 anos, portanto em uma eleição são eleitos 2 senadores e na seguinte apenas 1, e assim sucessivamente. Não há limite de re-eleição. O Senado existe para manter a isonomia entre as unidades da federação, uma vez que na Câmara dos Deputados, os estados com maior população tendem a fazer prevalecer seus interesses em detrimento dos que tem menor população. São eleitos pelo sistema majoritário.

VII. Poder Judiciário – É o poder que cuida da resolução de conflitos. Como não é possível ao próprio cidadão resolver seus problemas de maneira coercitiva, através da força, cabe ao Poder Judiciário dirimir as desavenças entre as pessoas públicas e privadas.

A estruturação do Judiciário no Brasil é relativamente simples. A primeira grande, e importante, divisão é entre justiça comum e justiça especializada.
Justiça comum: é aquela que trata de assuntos mais gerais, que não dizem respeito às justiças especializadas. Pode ser divida em Justiça Estadual e Justiça Federal.
- Justiça Federal: em linhas bem gerais, tem competência para resolver causas nas quais haja interesse direto da União, de autarquias federais ou empresas públicas federais. Em primeiro grau, é representada pelos juízes federais. Em segundo grau, é representada pelos Tribunais Regionais Federais (são 5 TRFs, que correspondem a 5 macrodivisões do território nacional).
- Justiça Estadual: tem competência residual, ou seja, tudo aquilo que não é da competência de alguma justiça especializada ou da justiça federal será de competência da justiça estadual. Em primeiro grau, é representada pelos juízes de direito das comarcas. Em segundo grau, pelos Tribunais de Justiça dos Estados (cada estado tem o seu).
             Justiça especializada: trata de matérias específicas, como:
                               - Justiça do Trabalho
                               - Justiça Eleitoral
                               - Justiça Militar

Por fim, cabe falar um pouco sobre a competência dos tribunais superiores:
- Superior Tribunal de Justiça (STJ): aprecia recursos dos TJs e TRFs (justiça comum como um todo). Sua competência, primordialmente, é a defesa da legislação federal e sua correta aplicação em nosso território. Também julga, originariamente, algumas autoridades em certos crimes.
- Superior Tribunal Militar (STM): último grau recursal (salvo STF) da Justiça Militar.
- Tribunal Superior do Trabalho (TST): último grau recursal (salvo STF) da Justiça do Trabalho.
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE): último grau recursal (salvo STF) da Justiça Eleitoral.
- Supremo Tribunal Federal (STF):
                               - Função primordial: defesa da Constituição Federal.
                               - Última possibilidade recursal do Judiciário.
                               - Aprecia ações de controle de constitucionalidade.
                               - Julga, originariamente, algumas autoridades em certos crimes.
- Composto por 11 ministros vitalícios, nomeados pelo Presidente da República e aprovados pelo Senado Federal.

domingo, 19 de agosto de 2012

Os 15 Maiores Atletas Brasileiros de Todos os Tempos


Bom, como ainda estamos no clima das Olimpíadas, nesse post tentarei fazer algo muito polêmico e difícil: eleger os 15 maiores atletas brasileiros de todos os tempos. Eleger apenas 15 dentre tantos notórios atletas é uma tarefa complicada, grandes personalidades tem que ser deixadas de fora, mas acredito a que a lista tenha ficado justa . Lembrando que não são os melhores, são os mais importantes relevantes. E já aviso: não tem jeito, futebolistas vão predominar na lista.

15-Leônidas da Silva (Futebol – Atacante)
Muito mais que o inventor da bicicleta, foi primeiro jogador brasileiro a ser considerado o melhor do mundo. Em 1938 foi artilheiro da Copa, com 8 gols, e eleito melhor jogador do torneio. O Brasil terminou em terceiro, mas na única derrota da seleção, Leônidas, lesionado, não jogou. Em 38 o Diamante Negro (como ficou conhecido) ainda era jovem, mas a Segunda Guerra Mundial viria castigá-lo, cancelando as Copas de 42 e 46, e acabando com suas chances de um titulo mundial. Por clubes foi campeão carioca 3 vezes (por Vasco, Botafogo e Flamengo) e campeão paulista 5 vezes (pelo São Paulo). Seu futebol colocou o Brasil definitivamente na lista das potências do esporte.

14-Hortência (Basquete – Ala)
Hortência é a maior pontuadora da historia da Seleção Brasileira com 3.160 pontos marcados em 127 jogos, média de 24,9 pontos/partida. Fez dupla formidável com a armadora Paula (que infelizmente tive que cortar da lista), numa seleção que levou o Brasil várias vezes ao pódio. Nos Jogos Panamericanos foi Bronze em 83, Prata em 87 e finalmente Ouro em 91. Mas sua grande conquista foi em 1994, quando ajudou o Brasil a ganhar a Copa do Mundo, vencendo as estadunidenses na semifinal (até então somente EUA e URSS tinham conseguido erguer a taça). Dois anos mais tarde, Hortência chegou à final olímpica, mas perdeu a revanche para as estadunidenses. Em 2002 foi incluída no Hall da Fama do Basquete.

13-Marta (Futebol – Atacante)
Uma jogadora a frente de seu tempo, que faz as  outras parecerem amadoras. Ganhadora por 5 vezes seguidas do prêmio de melhor do mundo da FIFA, foi ainda duas considerada a segunda melhor, e uma vez a terceira, sendo que ela ainda terá alguns anos jogando em alto nível. Ou seja, indicada 8 vezes seguida entre as finalistas, algo que dificilmente vai voltar a acontecer (tanto no feminino quanto no masculino), o que já a coloca como a maior jogadora de futebol da história. Por clubes já ganhou 8 títulos nacionais, 7 deles nas duas ligas mais difíceis do mundo (dos EUA e da Suécia), além da UEFA Women’s Cup e Copa Libertadores Feminina. Infelizmente a geração atual da seleção feminina sofre do mesmo mal que seleção de Telê Santana enfrentou nos anos 80: tem dificuldade em jogos decisivos, mesmo tendo um time que dá espetáculo. Foi assim nas traumáticas derrotas nas finais olímpicas de 2004 e 2008, contra os EUA, e também nas não menos traumáticas derrotas para Alemanha na final da Copa 2007 e para os EUA nas quartas de final da Copa 2011 (com gol de empate aos 16minutos do segundo tempo da prorrogação e derrota nos pênaltis). E é bom lembrar que Marta jogou bem todas essas decisões, marcou gols em quase todas elas, mas o esporte nem sempre é justo. Pela seleção tem 4 títulos oficiais - 2 pans e 2 sulamericanos -, além de ser a maior artilheira da excrete canarinho com nada menos que 85 gols em 85 jogos.

12-César Cielo (Natação)
O maior nome da natação brasileira em todos os tempos. Apesar da idade, já ganhou 6 medalhas de ouro em mundiais da natação, duas a mais que Gustavo Borges e Fernando Scherer, além de ser o único a trazer uma medalha de ouro olímpica pra natação brasileira (nos 50m livre). Em Pequim, além do Ouro, trouxe uma medalha de Bronze nos 100 m livre. Ele foi mal em Londres, conquistando apenas uma medalha de Bronze nos 50 m livre, mas provavelmente chegará nadando em alto nível no Rio em 2016, e com possibilidade mais alguma conquista olímpica.

11-Romário (Futebol – Atacante)
O principal jogador da seleção que acabou com um jejum de 24 anos sem títulos mundiais, recolocando a excrete canarinho no caminho das vitórias, o que lhe rendeu o titulo de melhor jogador do mundo da FIFA em 1994. Antes disso, em 1989, ao lado de Bebeto, com quem formaria dupla afinada também na Copa de 94, conquistou a primeira Copa América para o Brasil. Em 97 formaria junto com Ronaldo uma das maiores duplas de ataque da historia do futebol, conquistando a Copa América e a Copa das Confederações daquele ano. No seguinte, porém, foi cortado da Copa do Mundo devido a um estiramento na panturrilha. Ficou novamente de fora da Copa em 2002, dessa vez por indisciplina. Romário é o terceiro maior artilheiro da seleção com 55 gols em 70 jogos, e o segundo maior artilheiro do futebol mundial com 927 gols oficiais. Jogou pelo Vasco da Gama, PSV, Barcelona, Flamengo, Valencia, Fluminense, Al-Sadd,Miami F.C., Adelaide United, e encerrou sua carreira pelo América, time de seu pai. Jogando por clubes ganhou mais de 20 títulos estaduais, nacionais e continentais.

10-Éder Jofre (Boxe – Peso galo)
O nosso Rocky Balboa. Jofre é dono de um dos mais impressionantes cartéis da historia do boxe: 78 lutas, com 72 vitórias (50 por nocaute), 4 empates e apenas 2 derrotas. Iniciou sua em 1953 no torneio Forja dos Campeões, do qual viria a se sagrar campeão ainda naquele ano. Em 58 se tornou campeão brasileiro, em 60 foi campeão sul-americano, e alguns meses depois, faturou o cinturão da AMB (Associação Mundial de Boxe) ao vencer o mexicano José Becerra. Menos de dois anos mais tarde unificaria os títulos da AMB e UEB (União Européia de Boxe) ao vencer o irlandês John Caldwell.  No ano seguinte acumularia mais um cinturão, o do Conselho Mundial de Boxe (CMB). Em maio de 1965, porém, depois de um resultado controverso, Jofre perdeu os três cinturões para o japonês Masahiko Harada. No ano seguinte Jofre perdeu a revanche contra o japonês, novamente em um resultado contestável. Mas deu a volta por cima. Em maio de 1973 voltou a conquistar o cinturão do CMB, titulo que manteve até sua aposentadoria em 17 de junho de 1974.

9-Wlamir Marques (Basquete – Ala)
É difícil de imaginar, mas o Brasil já teve o melhor time de basquete do mundo, comandado por um monstro chamado Wlamir Marques, que chegou a quatro finais de Copa do Mundo, vencendo duas vezes, feito que só seria igualado pela lenda croata Kresimir Cosic. Vice campeão em 1954, conseguiu o titulo em 1959, e o bi 1963. Terceiro e lugar 1967, voltou a conseguir a segunda colocação em 1970. Nas olimpíadas conseguiu duas medalhas de bronze, em 1960 em 1964, ainda hoje, os melhores resultados do país na competição.

8-Giba (Vôlei – Ponteiro)
O principal jogador da geração mais vitoriosa da história do vôlei, e talvez de todos os esportes coletivos. Conquistou mais de 30 títulos pela seleção brasileira (!), incluindo 8 ligas mundiais, 3 Campeonatos Mundiais, 2 Copas do Mundo, 3 Copas dos Campeões, além de um Ouro e duas Pratas olímpicas. De 2001 a 2010 a chamada “Era Bernardinho” assombrou o mundo. Nesse período o Brasil disputou 35 campeonatos, com 26 medalhas de ouro, 7 de prata, 1 de bronze e um quarto lugar, sem nunca ter ficado fora da semifinal. Isso mesmo, em 10 anos a seleção verde e amarela ficou fora do pódio apenas uma vez (e fora da final apenas duas!). A Gazzeta Dello Sport, famoso jornal italiano de esportes, chegou a classificar o vôlei como “esporte com seis jogadores de cada lado, uma rede no meio, e, invariavelmente, o Brasil no pódio”. E Giba foi sem dúvida o mais importante jogador dessa geração inesquecível, seja com suas recepções precisas, ou com seus ataques certeiros. Nos últimos dois anos a seleção caiu de rendimento, mas o Brasil continua entre os melhores. Giba se despediu da seleção na final olímpica de Londres.

7-Ronaldo (Futebol – Atacante)
Estreou como profissional no Cruzeiro e em menos de um ano já havia faturado 2 títulos pelo clube (Copa do Brasil e Campeonato Mineiro), e fez parte do grupo tetracampeão do mundo nos EUA. Logo depois da Copa se transferiu para o PSV da Holanda, onde atuou por duas temporadas e foi eleito o melhor jogador do mundo pela primeira vez (o único a ser eleito jogando por um time holandês). No ano seguinte se transferiu para o Barcelona, onde recebeu o apelido de fenômeno pelos seus incríveis 49 gols em 47 jogos com incrível plasticidade e objetividade, o que lhe rendeu mais um prêmio de melhor do mundo. Vendido a peso de ouro para a Internazionale, Ronaldo viveu duas grandes temporadas na Itália, até que em um jogo contra o Lecce, estourou o joelho. Seis meses depois volta aos gramados, mas em seu primeiro jogo o joelho cede novamente.Muitos especialistas diziam que ele jamais voltaria a jogar em alto nível. Mas voltou, ganhou a Copa de 2002, se transferiu para o Real Madrid, onde foi campeão do mundo pela segunda vez em seis meses, e ganhou o prêmio de melhor do mundo pela terceira vez, um feito inédito. Uma das mais incríveis historias de superação do esporte. Viveu bons momentos na capital espanhola, se transferiu para o Milan e encerrou a carreira pelo Corinthians.
Pela Seleção, além do titulo mundial em 1994, Ronaldo formou uma dupla incrível com Romário, faturando em 1997, uma Copa América e uma Copa das Confederações. Apesar do “apagão” na final, Ronaldo fez uma boa Copa do Mundo em 1998. Voltou a conquistar a Copa América em 1999. Em 2002 se tornou o herói de uma geração ao conquistar o penta. O Fenômeno ainda se tornaria o maior artilheiro de todas as Copas em 2006, quando marcou seu décimo quinto gol na competição. Também foi o segundo maior artilheiro da seleção brasileira em todos os tempos, com 62 gols.

6-Maria Esther Bueno (Tênis)
Famosa pela potência de seu serviço, Maria Esther Bueno é o maior nome do Tênis no Brasil. Nas duplas, ganhou os 4 torneios de Grand Slam (campeã de Rolanda Garros e do Australian Open, pentacampeã de Winbledon e tetracampeã do U.S. Open), única praticante brasileira do esporte a conseguir tal feito. No individual ganhou 3 vezes em Winbledon, 4 vezes o U.S. Open, e foi finalista de Roland Garros e do Australian Open uma vez cada. Foi a número 1 do ranking entre 1959 e 1960, voltando ao topo em 1964 e em 1966. Com seu nome incluído no Hall da Fama do Tênis desde 1978, Maria Esther Bueno foi uma das maiores tenistas de todos os tempos.

5-Robert Sheidt (Vela – Classes Laser e Star)
O maior medalhista olímpico do Brasil ao lado de Torben Grael, com 5 medalhas, é também um mito da Vela em todo mundo. Levantou seu primeiro troféu com apenas 11 anos no Sulamericano da Classe Optmist (para até 15). Aos 13 se transferiu classe Laser, onde se tornaria lenda. Logo em seu ano de estréia foi Campeão Brasileiro Junior. Foram 45 títulos na Classe Laser, incluindo 11 campeonatos Brasileiros, 8 Campeonatos Mundiais e do Ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta e Atenas, além de uma medalha de Bronze e duas de Prata em Mundiais, e da medalha de Prata Jogos de Sidney. Em 2006, sem adversários a altura na Classe Laser, resolveu se aventurar na Classe Star, onde recomeçou sua carreira ao lado de Bruno Prada, e onde voltou a ser campeão brasileiro e tri-campeão mundial, além de uma medalha de Prata em Mundiais, outra medalha de Prata nos Jogos de Pequim e um Bronze nos Jogos de Londres. Um dos velejadores mais vitoriosos de todos os tempos.

4-Adhemar Ferreira da Silva (Atletismo – Salto Triplo)
Foi numa de tarde de verão em Helsinque, em 1952, que, com seus três saltos, Adhemar Ferreira da Silva encerrou um jejum brasileiro de 42 anos sem medalhas de Ouro Olímpicas, acabando com a espera de gerações de brasileiros, e se tornando o protagonista do maior acontecimento esportivo do Brasil até então. Não satisfeito, Adhemar repetiu a dose em 1956, em Melbourne, se tornando o primeiro bicampeão olímpico brasileiro, feito que só seria repetido quase meio século depois, nas Olimpíadas de Atenas 2004 (Giovane, Mauricio, Robert Scheidt, Torben Grael e Marcelo Ferreira conquistaram sua segunda medalha de ouro nessa edição). Adhemar conquistou mais de 40 troféus em sua carreira, incluindo, além do bi-olímpico, um pentacampeonato sulamericano e um tricampeonato panamericano. A título de curiosidade, as duas estrelas amarelas no escudo do São Paulo Futebol Clube, são uma homenagem às duas medalhas douradas conquistadas em Olimpíadas pelo atleta, que defendia as cores do clube. É o único brasileiro no Hall da Fama do Atletismo.

3-Ayrton Senna (Automobilismo – Formula 1)
Senna começou no automobilismo em 1981, obtendo grande êxito no F-3, o que acabou por levá-lo a Formula 1 em 1984. Mesmo correndo por escuderias menores (primeiro pela Toleman e depois pela Lotus), Senna conseguia resultados expressivos, sempre pontuava, conseguia frequentemente pole-positions, alcançava vários pódios e até vencia grandes prêmios, e chegou até a disputar títulos pela Lotus. Sua ascensão meteórica chamou a atenção da McLaren, que o contratou em 1988. Logo em seu ano de estréia por uma escuderia de ponta, Senna se sagrou campeão da F-1.Em 1989 foi vice-campeão num campeonato controverso em que perdeu o título para seu companheiro de equipe e desafeto, Alain Prost, mesmo tendo vencido mais Grandes Prêmios. Voltou a ser campeão em 1990 e em 1991, se consagrando definitivamente entre os melhores de todos os tempos.
Um piloto que se tornou ídolo mundial não apenas por suas vitórias, mas por seu estilo agressivo e destemido, de ultrapassagens arriscadas, não se conformava com conquistas pragmáticas, gostava de se arriscar e vencer sempre. Entre a segunda metade dos anos 80 e inicio dos 90, o Brasil passava por um momento político e econômico instável, e até mesmo a seleção de futebol passava por uma fase complicada, neste cenário, Senna surgiu como campeão, artista e patriota, dando uma injeção de orgulho numa nação carente de ídolos, além de um motivo para acordar cedo no domingo e pendurar a bandeira verde e amarela na janela.
Com o acirramento da rivalidade com Alain Prost, seu rendimento foi prejudicado, o que o levou a trocar a McLaren pela Willians em 1994, porém em sua terceira corrida com a nova scuderia, devido a uma falha mecânica, Senna perdeu o controle do carro e bateu no muro do circuito de Ímola, levando-o a morte. Sua morte, da maneira que foi, acabou por reforçar ainda mais o mito Ayrton Senna.

2-Garrincha (Futebol – Ponta Direita)
Dotado de uma inteligência espacial fora do comum, Mané transformou uma séria limitação física (as pernas tortas) em vantagem competitiva. Com as duas pernas arcadas pra esquerda, Garrincha tinha um extraordinário arranque para o lado direito. Soma-se a isso, sua imensurável capacidade de driblar, seus passes e lançamentos extremamente precisos, além de chutes muito bem colocados, e pronto, você tem um dos maiores jogadores de todos os tempos.
Garrincha iniciou como profissional no Botafogo, em 1953, quando o time estava em baixa, à sombra de Vasco  e do Flamengo, mas junto com uma geração que tinha Didi, Nilton Santos, Zagallo, entre outros, o Botafogo se tornaria em pouco tempo o time a ser batido, principalmente por causa dos dribles desconcertantes de Garrincha, que tinha um prazer sádico de humilhar os rivais em clássicos. A Alegria do Povo, como era conhecido, ganhou 3 títulos cariocas e 2 Rio-SP, além de mais de uma dezena de torneios internacionais mundo afora.
Mané foi grande com a camisa do Fogão, mas foi com a camisa da seleção que se imortalizou. Na Copa de 1958, depois de uma vitoria e um empate pouco convincentes, o técnico Vicente Feola resolveu desobedecer à recomendação da CBD de evitar jogadores negros entre os titulares, e escalou Pelé, Garrincha e Didi no time principal. Mal sábia ele como seria recompensado pela ousadia. Juntos eles formarão um dos maiores esquadrões de todos os tempos, jogavam por música e massacravam os adversários. O título mundial conquistado na Suécia é mais importante do que pode parecer, pois ajudou a consolidar a identidade nacional de um país que tentava se firmar internacionalmente. E os dribles e cruzamentos de Garrincha foram fundamentais nessa campanha.
Em 1962, depois de Pelé se machucar, Garrincha assumiu o posto de líder e comandante do time. Voltou do Chile como campeão, artilheiro e melhor jogador do mundo. Pelé e Garrincha jogando juntos pela seleção, nunca perderam uma partida sequer, o que é muito significativo para uma dupla que jogou mais de 40 partidas junta.

1-Pelé (Futebol – Ponta de Lança/Meia-Armador)
Millôr Fernandes sabiamente dizia “Nada mais falso que uma verdade estabelecida”. Mas como é difícil fugir dessa verdade estabelecida chamada Pelé...
Edson Arantes do Nascimento iniciou sua carreira profissional em 1956, com apenas 15, e marcou seu primeiro gol logo em seu jogo de estréia contra o Corinthians de Santo André. O clube que defendia era o Santos Futebol Clube, que naquele tempo era considerado um clube médio de São Paulo, mas que 18 anos depois, em 1974, quando Pelé fizesse sua despedida, seria um gigante do futebol mundial, conhecido em 5 continentes. Defendendo as cores do alvinegro praiano, Pelé conquistou mais de 40 títulos, incluindo 11 paulistas, 6 brasileiro, 2 libertadores, 2 mundiais e mais de uma dezena de torneios internacionais. O Santos de Pelé era temido e respeitado, e historias que comprovem isso não faltam, seja na vez que o poderoso Real Madrid desistiu de jogar contra o Santos pelo torneio de Buenos Aires, com medo de uma goleada, seja na vez que parou a Guerra do Congo.
Pelé era um jogador completo, cabeceava bem, driblava num curto espaço, lançava com precisão, tinha um chute certeiro, era bom na bola parada, tinha ímpeto e explosão, mas sabia pensar o jogo, antever a jogada, era ambidestro, tinha frieza dentro da área, e por ai vai. O Rei do futebol também era flexível, começou a carreira jogando de atacante, foi centro-avante, mas se firmou como ponta de lança, porém, durante a carreira também atuou eventualmente como ala e até como goleiro (pasmem, jogou cerca de 70 minutos no gol e não tomou nenhum gol, o goleiro menos vazado da história). Com o passar dos anos, e a idade pesando, foi recuando ao meio de campo, primeiro como meia-atacante, e depois, definitivamente, como meia-armador.
O único jogador três vezes campeão da Copa do Mundo, foi também o maior artilheiro do Santos, com 1.091 gols em 1.114 jogos, o maior artilheiro da Seleção Brasileira com 95 gols em 114 jogos, e o maior artilheiro do futebol mundial com 1.250 gols em 1.311 jogos (64 gols marcados pelo NY Cosmos, onde jogou no final da carreira e também ganhou títulos). O único a conseguir marcar mais que mil vezes.
Em 1999 Pelé foi eleito pela IFHS e pela France Football o melhor jogador do século XX, no ano seguinte foi eleito novamente o melhor jogador do século, dessa vez pela FIFA (e é bom lembrar que o Maradona ficou em quinto lugar tanto na eleição da IFHS como da FIFA). Ainda em 2000, Pelé conquistou uma honra ainda maior, foi eleito pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) o atleta do século XX, considerando todos os esportes. Portanto, aos hermanitos que teimam em tentar traçar algum paralelo de comparação entre Pelé e Maradona, saibam que Michael Jordan, Roger Federer, Nadia Comaneci, Michael Phelps e Tiger Woods estão mais a altura do Rei. Ao Maradona ainda falta provar que foi melhor Cruyff, Puskas, Garrincha, Di Stéfano e Beckenbauer.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A Desindustrialização do Brasil


Se o desenvolvimento do Brasil no século XX pode-se ser descrito em uma palavra, essa seria industrialização. Foi a industria o motor dinâmico que tornou o Brasil um país urbano, que aumentou o padrão de vida da população, e responsável pelas maiores taxas de crescimento econômico da história do país.

O processo industrial brasileiro começou com Getulio Vargas em 1930, incentivando a produção de bens de consumo (não-durável) para diminuir a dependência externa do Brasil. Em 1956, com Juscelino Kubtschek, a industrialização entrou numa nova etapa, a dos bens de consumo durável. Com os militares veio a etapa derradeira, a dos bens de capital, processo que durou até meados dos anos 80. O Brasil foi um dos primeiros países do hemisfério sul a ter um parque industrial completo, com os 3 setores. Nesse período (1930-1980) o Brasil cresceu em média 7% ao ano (Ipeadata).

Nos últimos 25 anos o Brasil vem sofrendo um processo de desindustrialização. Isso não significa que a nossa indústria está produzindo menos, e sim que a importância relativa da indústria dentro da nossa economia está diminuindo. Em 1987 cerca de 40% do nosso PIB era proveniente da indústria, ano passado essa participação chegou a 14% (IBGE). Nosso déficit comercial na indústria está na casa dos US$100 Bilhões.

Mas porque a industria é tão importante se o superávit gerado pelas commodities supre o déficit industrial e faz com que tenhamos um bom resultado na Balança Comercial? Pra responder essa pergunta preciso antes deixar claro duas coisas:
a) A economia é composta por 3 setores: agropecuária e extrativismo (primário), indústria (secundário) e serviços (terciário).
b)Valor econômico adicionado é o valor adicional que os bens e serviços adquirem em cada uma das etapas do processo produtivo.

O setor de serviços pode ter pouca ou muita capacidade de adicionar valor dependendo do perfil da economia em que está inserido, por isso deixo ele de lado por enquanto e volto nele mais tarde. A agropecuária tem baixíssimo valor adicionado por unidade, uma atividade que depende quase exclusivamente da quantidade vendida, e não da qualificação técnica envolvida no processo, portanto gera empregos não qualificados. Já a industria é a única que necessariamente tem boa capacidade de adicionar valor, pois, além da maior parte das etapas do processo produtivo estarem contidas nesse setor, por essência ela transforma matérias-prima em produtos manufaturados, e por isso necessita de profissionais mais qualificados. A diferença entre se especializar em agropecuária e se especializar na indústria é a diferença entre vender minério de ferro e vender Ipads.

 Alguém poderá argumentar que o setor que mais cresceu e se tornou hegemônico foi o de serviços e não o agropecuário, o que é verdade. Mas é preciso pontuar algumas coisas:

Primeiro, o nosso superávit em Conta Corrente deve-se principalmente ao nosso saldo comercial em commodities e bens primários (nós não exportamos serviços), e à medida que uma nação enriquece (e isso é o que todos nós queremos para o Brasil) cresce a demanda por produtos industrializados, ou seja, no longo prazo teremos déficits cada vez maiores Balança Comercial, o que causaria fortes desequilíbrios nas Contas Nacionais. Por isso um país raramente fica rico sem ter uma indústria forte e articulada.

Segundo, desindustrializar não necessariamente é ruim, dependendo das circunstâncias que ela ocorre. Os países considerados desenvolvidos (Estados Unidos, Canadá, países da Europa, etc.) também se desindustrializaram entre os anos 80 e 90, e nesses casos os serviços também se tornaram o segmento mais dinâmico da economia. Então qual é a diferença?

Nos países desenvolvidos, antes de terem perdido importância relativa, as indústrias atingiram certo nível de maturidade e excelência que impediu fossem engolidas pela concorrência internacional. Mesmo perdendo muitas fábricas para o exterior, esses países contam com poderosas multinacionais que revertem lucros às suas sedes. Esses países  também se tornaram especialistas em desenvolver tecnologia e em economia criativa, e isso só foi possível graças dois aspectos:
a)Alta escolarização e qualificação técnica da população para desenvolver essas atividades. Educação e capacitação que foi adquirida na fase industrial desses países.
b)Alto nível de renda  da população. Imprescindível, pois esse tipo de serviço mais sofisticado requere um alto nível de acumulação de capital. Nos anos 1980 esses países ricos já tinham uma renda per capita da ordem de US$30 mil/ano.

No frigir dos ovos, trocaram empregos qualificados na indústria por empregos ainda mais qualificados nos serviços.

Numa situação oposta, a indústria brasileira ainda não atingiu estágios de produtividade e competitividade compatíveis com os níveis encontrados internacionalmente, e nossos manufaturados estão cada vez mais defasados, mesmo se comparados com produtos dos ditos países emergentes. Temos poucas multinacionais e nossas principais fabricas revertem lucros ao exterior. O Brasil ainda é um país de semi-analfabetos, com baixa qualificação técnica e com renda per capita na ordem de US$12 mil/ano. Isso faz com que surjam vagas de serviços pouco qualificados. Nos últimos tempos o comércio tem se notabilizado como o motor dinâmico da economia, o que é preocupante, pois crescer baseado em consumo inviabiliza a formação de poupança, o que implica baixa capacidade de investimento da economia, considerado um grande entrave ao crescimento sustentado no longo prazo.

Quem você acha que adiciona mais valor à economia, o desenvolvedor que faz um novo software para gerenciar aplicativos no smartphone ou o vendedor de TV de plasma (importada) das casas Bahia? Essa é a diferença dos empregos criados aqui e lá.

E chegamos à pergunta que não quer calar, porque então o Brasil está passando por uma desindustrialização tão precocemente? A minha tese é que alguns dos fatores condicionantes deste processo (vou listá-los) são subprodutos das medidas de combate a inflação que ocorrem desde a segunda metade da década de 80. A experiência inflacionária brasileira foi tão traumática que motivou políticas severas e duradouras, e talvez seja o momento de afrouxá-las um pouco.

Esses fatores condicionantes, bastante interligados entre si, são:

1) Taxa de juros muito elevada. Desde os anos 90 os juros brasileiros são os maiores do mundo (o governo Dilma está fazendo esforço para diminuí-los, mas ainda são bem elevados). Os juros são altos em parte para conter a inflação, em parte porque o governo precisa fazer rolar sua dívida, e faz isso através de títulos do tesouro, e em parte porque a acumulação de poupança no Brasil é muito baixa, o que empurra os juros para cima.

2) Excessiva valorização cambial. Isso ocorre devido a 2 fatores: os já citados juros altos, que provoca elevada entrada de divisas no país, e também por causa da grande vantagem comparativa do país na produção e exportação de commodities e bens primários, o que gera expressiva entrada de moedas conversíveis no país. Esse aporte de moedas estrangeiras valoriza o real, deixando os produtos nacionais mais caros e os produtos estrangeiros mais baratos, o que prejudica outros setores. Valorização cambial também ajuda no combate a inflação (pelo lado dos custos).

3) Custo Brasil. Há duas maneiras de melhorar a competitividade de uma indústria: reduzindo custos de produção ou melhorando a qualidade dos produtos ofertados. Pelo lado dos custos a situação é bastante complicada para o empresário brasileiro: estrutura tributária ineficiente, excesso de burocracia, inadequada infra-estrutura de transporte, energia e telecomunicação, além dos já citados juros altos, elevam os custos dos investimentos, exigindo taxas de retorno maiores, e quando não possíveis, inviabilizam projetos industriais.

4) Falta de capacitação técnica e de investimento em P&D. Por outro lado, só há um jeito de melhorar a qualidade dos produtos ofertados: capacitação, empreendedorismo e inovação. Isso só será possível através de pesados e maciços investimentos em educação (isso já até virou clichê), além de fortes estímulos à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). O número de patentes registradas no Brasil é ínfimo.

Quando digo que podemos afrouxar algumas políticas anti-inflacionárias, estou falando de juros e câmbio. É possível reduzir os juros e manter a inflação baixa, desde que a taxa de poupança aumente bastante (comento mais adiante), e para isso é preciso romper com essa lógica de estimulo ao consumo para crescer. Uma diminuição, mesmo que não seja drástica, do déficit público poderia auxiliar nesse processo. Pelo lado do câmbio, temos que aceitar uma realidade: dumping cambial (desvalorização proposital da moeda nacional) existe, e países como China e Índia usam e abusam desse artifício. Até mesmo os Estados Unidos, paladinos do livre mercado, estão emitindo dólares com a intenção de desvalorizar sua moeda e incentivar as exportações. Não estou defendendo um câmbio completamente fixo, mas intervenções pontuais com objetivo bem definido seriam bem vindas.

Mesmo com essas medidas ainda é possível se indagar se o Brasil não é demasiadamente rígido no controle inflacionário. Claro que ninguém quer que a hiperinflação dos anos 80 volte, mas há 18 anos que a nossa inflação fica na casa de um dígito, e não acho que seria tão preocupante ela desgarrar um pouco mais se isso significar um crescimento consistente do produto.

É necessário ainda, chamar a atenção para a formação de poupança. Um nível alto de poupança ajuda a derrubar os juros de duas maneiras: (1)mais poupança significa mais oferta de investimento, forçando seu preço (os juros) para baixo;(2)a ausência de poupança interna obriga o país a se socorrer com poupança estrangeira, então juros altos são necessários para atrair investidores internacionais. Quanto mais poupança interna, menos o país terá que se socorrer externamente, e menor poderão ser os juros.  Com juros menores os vultuosos investimentos para suprir os gargalos de infra-estrutura serão mais viáveis, e muitos empreendimentos serão mais acessíveis. Mas hoje, a cada mínimo solavanco da economia, o governo anuncia um pacote de estimulo ao consumo para voltar a crescer. Precisamos para com isso e incentivar a formação de poupança. Na China, a taxa de poupança em relação ao PIB está na casa dos 40%, e é por isso que eles conseguem fazer tanto investimento. A relação poupança/PIB brasileira é de 17%.

Por fim, podemos citar reforma tributária (ela mesma), redução da burocracia, reforma educacional e investimento em P&D, como outros pilares fundamentais à retomada da indústria e do desenvolvimentismo brasileiro.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Mitos Eleitorais


Um programa que eu gostava bastante era “Os Caçadores de Mitos”, onde os especialistas em efeitos especiais Adam Savage e Jamie Hyneman utilizavam elementos de método cientifico para colocar a prova diversos tipos de sabedoria popular, classificando-os como mitos ou verdades. Pretendo fazer algo parecido nesta postagem. Como estamos em ano eleitoral, colocarei à prova algumas afirmações sobre o sistema eleitoral que estão se tornando cada vez mais freqüentes.

Afirmação 1
Voto em branco e voto nulo tem finalidades distintas.

MITO

Ambos servem para o eleitor não destinar seu voto para nenhum candidato ou legenda, excluindo seu voto do pleito. Esse tipo de opção deve ser dado uma vez que o voto no Brasil é compulsório (apesar da multa por não votar ser bem baixa). A diferença se dá apenas na forma de efetuar o voto. O voto nulo ocorre quando se digita um numero que não corresponde a nenhum candidato ou legenda e confirma, enquanto o voto em branco acontece quando a tecla “BRANCO” é acionado, mas os dois tem exatamente a mesma finalidade e o mesmo efeito no sistema eleitoral.

Afirmação 2
Se você votar em branco o voto vai para quem está ganhando.

MITO

Como foi dito, ao optar por votar em branco nenhum candidato ou legenda recebera seu voto. Porém, apesar da afirmação ser falsa, há uma ponta de verdade nela.

Para um candidato se eleger (no executivo), ele precisa de 50% + 1 dos votos VÁLIDOS, e votos brancos/nulos NÃO SÃO VÁLIDOS. Sintetizando:

Colégio Eleitoral
= votos válidos + votos nulos + votos em branco + abstenções

Quando alguém opta por votar em branco ou nulo, optou por excluir seu voto do pleito, o que faz com que o peso relativo daqueles que votaram em um candidato ou legenda aumente. A lógica vale tanto para o executivo quanto para o legislativo. Vejamos um exemplo prático:

Suponhamos que uma cidade tem três candidatos a prefeito (A, B e C) e um colégio eleitoral de dez pessoas.

Cenário 1:
Candidato A – 5 votos
Candidato B – 3 votos
Candidato C – 2 votos
Brancos – 0 votos
Nulos – 0 votos

Neste caso haveria segundo turno entre o Candidato A e o Candidato B, pois, lembremos, é preciso 50% + 1 dos votos válidos para ser eleito, como tivemos 10 votos válidos, seriam necessários 6 votos para se eleger (50% de 10= 5, 5+1=6).

Cenário 2:
Candidato A – 5 votos
Candidato B – 3 votos
Candidato C – 0 votos
Brancos – 1 voto
Nulos – 1 voto

Neste caso o Candidato A se elegeria em primeiro turno, pois tivemos apenas 8 votos válidos (lembre-se brancos/nulos não são válidos), então seria necessário apenas 5 votos para se eleger (50% de 8=4, 4+1=5).

Repare que em ambos os casos tanto o Candidato A como o Candidato B tiveram exatamente o mesmo numero de votos, mas o resultado da eleição foi substancialmente diferente devido à quantidade de votos brancos/nulos.

Afirmação 3
Se a quantidade de votos nulos for maior que 50% a eleição é anulada, e os candidatos são impedidos de se candidatar novamente.

MITO

Repito, somente votos válidos são levados em conta na eleição, brancos/nulos são excluídos, portanto a afirmação é falsa. Mas, mesmo assim, tem sido cada vez mais comum receber esse boato via e-mail, especialmente em anos eleitorais. Reconheço, porém, que essa balela pode ter surgido a partir de uma pessoa bem intencionada. O artigo 224 do Código Eleitoral (Lei no 4.737) diz que:

“Se a nulidade atingir a mais da metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do estado nas eleições federais e estaduais, ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudiciais as demais votações, e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40(quarenta) dias”

A confusão provavelmente deve ter surgido daí. Nulidade do voto diz respeito a votos fraudados, ou seja, o que o artigo diz é que se houver, comprovadamente, mais que 50% de votos fraudados, a eleição será, obrigatoriamente, anulada e nova eleição será marcada (se houver menos que 50% a decisão fica a cargo do TSE e do TRE). Nulidade do voto não tem nada a ver com voto nulo.

O artigo, lido fora de contexto, realmente engana, por isso digo que a pessoa que espalhou esse “hoax” pode ter tido boa intenção. Agora, na parte que afirma que os candidatos são  impedidos de se candidatarem novamente prevaleceu a máxima “quem conta um conto aumenta um ponto”.

Afirmação 4
Se um candidato obtiver uma grande votação leva consigo outros candidatos de seu partido ou coligação, sem que estes tenham votos suficientes para se elegerem.

VERDADE

As eleições legislativas são muito mais complexas do que se pode imaginar. Ao contrario do que a lógica poderia indicar, ter uma boa votação não quer dizer que você será eleito, e ter uma votação ruim não quer que você não será eleito. Isso porque quando votamos num candidato, estamos na verdade votando no partido dele.

No Brasil as cadeiras nas câmaras municipais, estaduais e federal são decididas através de um mecanismo chamado Coeficiente Eleitoral. A conta é a seguinte:

Coeficiente Eleitoral = (número de votos válidos)/(número de cadeiras disponíveis)

Coeficiente Partidário = (número de votos do partido)/(Coeficiente Eleitoral)
Coeficiente Partidário = número de vagas que o partido tem direito na Câmara

Primeiro obtém-se o Coeficiente Eleitoral, depois soma-se os votos de todos os candidatos de determinado partido ou coligação, mais os votos na legenda, e dividi-se pelo Coeficiente Eleitoral. Este será o número de cadeiras que o partido irá assumir na Câmara (o arredondamento será sempre para baixo, independente de qual seja a fração). Caso sobrem vagas (e sempre sobra porque os Coeficientes Partidários dificilmente serão todos números inteiros) deve-se fazer o seguinte calculo:

(Coeficiente Partidário)/(número de vagas já conquistadas pelo partido ou coligação + 1)

O Partido ou coligação que tiver o maior índice fica com a vaga. O processo deve ser repetido até que não haja mais vagas sobrando.

Ou seja, na pratica votamos no partido e não no candidato. Em 2002, Enéas carneiro teve mais de 1,5 milhões de votos para Deputado Federal e levou consigo outros cinco candidatos de seu partido, o PRONA, todos com votações irrisórias. Esses candidatos eram Amauri Gasques (18.421 votos), Irapuan Teixeira (673),Ildeu Araújo (382), Elimar Máximo Damasceno (284) e Vanderlei Assis (275). Naquela eleição houveram candidatos com mais de 300 mil votos que não se elegeram.

E enganam-se quem pensa que esse foi um fenômeno restrito a aquela eleição. Em 2006 e em 2010 ocorreram casos parecidos com Clodovil e Tiririca respectivamente. Segundo levantamento feito pelo DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), em 2010, dos 513 Deputados Federais eleitos, apenas 36 foram eleitos com seus próprios votos (quatro a mais que em 2006, quando apenas 32 se elegeram sozinhos).

Ou seja, é sempre bom dar uma olhada nas pesquisas, pois se o seu candidato estiver muito na frente, o seu voto pode ajudar a eleger um candidato pelo qual você não tem nenhuma afinidade.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Sexismo e Sexualismo


Este fim de semana ocorreu a Marcha das Vadias, o que me estimulou a escrever este artigo. Não vou escrever sobre a Marcha, mas sobre o debate que ela gera. Atualmente há uma discussão bastante acalorada sobre o movimento feminista: de um lado afirmam que ainda há um machismo opressor no Brasil, e de outro afirmam que feminismo e machismo nada mais são que os dois lados da mesma moeda.

Respondendo às feministas: não, eu não acho que ainda exista machismo opressor no Brasil. Existe sim machismo, mas, uma vez que a constituição e as leis definem direitos e deveres iguais entre gêneros e respalda a mulher em todos os sentidos, aquele machismo opressor de outros tempos não existe mais. Apesar, é claro, que ainda existe em muitos países mundo afora.

Agora, respondendo aos críticos das feministas: não, machismo e feminismo não se equivalem. Essa confusão é comum porque falamos muito em machismo e feminismo, mas nunca abordamos o femismo e o masculinismo.

O femismo (este sim) e o machismo são os dois lados de uma moeda chamada sexismo (para simplificar, não abordarei aqui o sexismo contra identidade/orientação sexual). O Sexismo é a corrente de pensamento que visa privilegiar um gênero em detrimento do outro. Como os nomes sugerem machismo é a crença que o homem deve ser privilegiado e o femismo é a crença que a mulher deve ser privilegiada. Um exemplo de pensamento machista é aquele, segundo o qual, homem que fica com várias mulheres é pegador, e mulher que fica com vários homens é vagabunda. Do outro lado, um exemplo de femista clássico é a mulher que quer ganhar tanto quanto os homens mas ainda assim quer ser “bancada” pelo parceiro.

É interessante notar que com bastante freqüência machismo é tido como sinônimo de sexismo, o que é muito ruim, pois joga nas costas dos homens todos os males do sexismo. Evidentemente que, colocado numa perspectiva histórica, os homens tiranizaram muito mais do que foram tiranizados. O que não faz da colocação menos errada.

O movimento feminista, bastante conhecido, luta por direitos iguais entre sexos e pelo fim de padrões que oprimem a mulher. O masculinismo nada mais é que a contraparte masculina do feminismo. São exatamente a mesma coisa, só que um é visto pela ótica masculina e outro é visto pela ótica feminina. Esses movimentos de luta por igualdade e pelo fim de padrões opressores, dos dois lados, fazem parte de algo maior chamado sexualismo.

O Sexualismo abrange muitas coisas, como sexo, erotismo, reprodução, e o mais importante para esta discussão, identidade e papeis de gênero, e é nesse contexto que masculinismo e feminismo se encaixam dentro do sexualismo. (novamente excluirei do debate tudo que tenha relação com identidade/orientação sexual com o intuito de não fugir do escopo de discussão proposto).

À primeira vista o masculinismo parece ser uma idéia estranha, idiota até, pois, afinal, os homens sempre foram os opressores e portanto não tem pelo que lutar. Um pensamento bastante ingênuo eu diria.

Quer um exemplo de dever (no sentido legal) exclusivamente masculino? Alistamento militar obrigatório. Ora, ou todos somos obrigados, ou nenhum de nós o é.

Um padrão opressor? “Homem não chora”. Parece besta, mas segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), homens são muito mais suscetíveis a doenças causados por estresse. Isso porque homens precisam ser sempre fortes e providos de um equilíbrio emocional inabalável. Se por algum motivo chora ou demonstra demais seus sentimentos, isso é tido como fraqueza.

Não é porque existem mais injustiças de um lado, que não há injustiças do outro.

As reivindicações feministas são bastante conhecidas, importantes e justas. Entre elas: valorização da mulher no mercado de trabalho; autonomia sobre seu corpo; fim da violência doméstica; entre muitas outras.

Neste ponto da argumentação haverá aqueles que suscitarão: “Então homens e mulheres devem ser iguais em tudo? Usar as mesmas roupas, ter os mesmos hábitos e exercer os mesmos papeis na sociedade?”.

NÃO!!

Os sexualistas reconhecem que homens e mulheres não são perfeitamente iguais, e diante do imenso arcabouço empírico - cientifico que temos, não admitir isso é burrice. Nesse momento tenho que fazer um parêntese para explicar algo mais amplo.

Falando agora não apenas de gênero, e sim de tudo que tange a sociedade. O nosso problema não é identificar e criar padrões sociais, e sim impedir/não admitir que haja exceções aos padrões. Os padrões são necessários e inevitáveis, mas precisamos tomar cuidado para que não se tornem padrões absolutos, pois estes são necessariamente opressores.

Homens e mulheres têm incontáveis diferenças físicas, fisiológicas e mentais , que evidentemente influenciam em seus hábitos, maneira de pensar e desempenho em determinadas tarefas. A sociedade não precisa ser hipócrita e ignorar isso, mas precisa aceitar como perfeitamente normal e aceitável quando surgirem exceções (e elas surgirão). Masculinidade e feminilidade podem ser muito saudáveis desde que respeitem as individualidades de cada um. Respeitando a liberdade alheia, ninguém deve ser privado de fazer aquilo que tem vontade ou agir de modo que se sinta mais confortável.


Portanto, ao contrario do que se possa imaginar devido à luta por direitos equânimes e pela extinção de padrões opressores, o sexualismo valoriza e exalta as diferenças entre gêneros tal qual o sexismo. A diferença é que, enquanto o segundo consiste numa guerra dos sexos sem fim, onde homens tentam puxar para si direitos e empurrar deveres, e mulheres o inverso, o primeiro propõe um encontro de interesses que respeite as partes e os indivíduos. Enquanto um diverge, o outro converge.

Depois disso tudo posto, não posso deixar de comentar que há muitas femistas por ai se passando por feministas, e muitos masculinistas sendo injustamente acusados de serem machistas. Por isso é sempre bom nos atentarmos muito mais aos argumentos do que aos rótulos.

Estamos rodeados de machistas e femistas enrustidos. Porém, há aqueles, mais honestos, que defendem o sexismo de maneira consciente, o que implica uma visão de mundo diferente e que deve ser respeitada. Mas é importante pontuar que uma mulher que apresenta comportamento femista está autorizando os homens a serem machistas com ela, e os machistas estão autorizando as mulheres a serem femistas. Sexismo é um “jogo” de dominação e dominado. Se hoje você é o opressor não pode reclamar se amanhã for o oprimido.

Apesar disso, o sexualismo ganhou muito espaço e tende a ganhar ainda mais. Essa deve ser a tendência num mundo que desde o iluminismo é cada vez mais libertário, apesar dos percalços e retrocessos no meio do caminho. É difícil dizer hoje, se vivemos numa época predominantemente sexista ou sexualista, mas é certo que numa sociedade que preza cada vez mais a igualdade, o pensamento crítico e racional, o empirismo e a ciência, posturas filosóficas como o sexismo terão cada vez menos espaço.