Na última quarta-feira a final da Copa Sulamericana entre
São Paulo e Tigre reacendeu uma velha polêmica do futebol na América do Sul:
até quando catimba deve ser tolerada?
Durante o primeiro tempo, como havia sido no jogo de ida, os
argentinos provocaram e agiram com muita truculência. O meia Lucas, o mais caçado, além de
entradas violentas na disputa de bola, recebeu um pisão nas costas quando
estava caído e uma cotovelada que lhe tirou sangue do nariz. Na saída para o
intervalo Lucas mostrou um algodão ensangüentado ao zagueiro que lhe deu a
cotovelada. Essa foi a desculpa que os argentinos queriam para começar a
empurrar e a xingar os brasileiros, tentando iniciar uma briga a todo custo.
Tentaram invadir o vestiário sãopaulino mas foram contidos pela polícia, em
seguida desceram para o vestiário dos visitantes, porém, tentaram novamente
entrar no vestiário do time da casa, agora pelos túneis subterrâneos do
Morumbi, e dessa vez foram contidos pelos seguranças do São Paulo.
Como se não
bastasse, numa grande demonstração de falta de espírito esportivo, os jogadores
do Tigre se recusaram a voltar ao gramado para jogar o segundo tempo da
partida. O fato de o São Paulo ter tentado impedir que os argentinos aquecessem
no gramado (o que é errado) não justifica tal reação.
Mas casos como
este não são coisa nova e nem raridade. Essa é a triste realidade do futebol
sulamericano já faz muito tempo. Faço agora uma reconstituição histórica e ao
final sugiro algo que pode trazer grandes melhoras.
Uma Noite em 1946
O céu já estava escuro quando a bola começou a rolar no Monumental de Nuñes, Buenos Aires. Brasil e Argentina disputavam a final do Campeonato Sulamericano de Seleções de 1946. O jogo inicia tenso, duro, quase violento. A torcida local chamava os jogadores visitantes de “monos” (macacos) como já era costume quando a escrete canarinho jogava do outro lado do Rio da Prata.
Uma Noite em 1946
O céu já estava escuro quando a bola começou a rolar no Monumental de Nuñes, Buenos Aires. Brasil e Argentina disputavam a final do Campeonato Sulamericano de Seleções de 1946. O jogo inicia tenso, duro, quase violento. A torcida local chamava os jogadores visitantes de “monos” (macacos) como já era costume quando a escrete canarinho jogava do outro lado do Rio da Prata.
O meia Jair da
Rosa Pinto sofre marcação intensa do zagueiro Salomón. Toda vez que o arbitro
voltava sua atenção para outro lado do campo o zagueiro aproveitava para chutar
a panturrilha de seu adversário para irritá-lo. Em um lance sem bola, e fora do
campo de visão do juiz, o argentino desferiu uma cotovelada em Jair. Aos 28 minutos
do primeiro tempo Jair e Salomón entram duro pra dividir uma bola, ambos se
machucam mas o jogador porteño leva a pior, fratura a perna. O arbitro alega
que ambos foram na bola e não expulsa ninguém.
Esse foi o
estopim de uma confusão generalizada iniciada pelos argentinos, inconformados
com a não expulsão de Jair. Parte da torcida invadiu o campo e começaram a
agredir os jogadores brasileiros. A polícia invadiu o campo e começou a agredir
os jogadores brasileiros com cassetetes! Depois de alguns intensos minutos de
linchamentos, os jogadores da seleção brasileira se refugiam e se trancam no
vestiário dos visitantes, alguns deles gravemente feridos.
Inicia-se ai uma
serie de tentativas frustradas para convencer os brasileiros a voltarem a campo
que acabou com a polícia argentina arrancando com pés de cabra o portão do
vestiário e escoltando os jogadores de volta ao campo. Ao final da partida o
placar apontava 2X0 para o time da casa, que foi conclamado campeão do torneio
pela Confederação Sulamericana como se nada de anormal ou irregular tivesse
ocorrido. Ninguém foi punido. O episodio fez a CBD romper relações com a AFA
por dez anos.
Uma Historia de Sangue, Suor, Lagrimas e
Muita Baixaria
Historicamente um dos aspectos mais atraentes do futebol na América do Sul é promover o confronto entre o futebol brasileiro, de plasticidade, ginga e molecagem, e o futebol cisplatino (argentino e uruguaio), de raça, virilidade e doação. Esporte, assim como a arte, reflete a sociedade, e se na baixada cisplatina se joga dessa maneira é porque não apenas os atletas, mas o cidadão comum tem uma visão patriota do mundo, onde representar sua terra e seu povo é motivo de grande orgulho e extrema responsabilidade, características que, cá entre nós, nós brasileiros deveríamos ter um pouco mais.
Historicamente um dos aspectos mais atraentes do futebol na América do Sul é promover o confronto entre o futebol brasileiro, de plasticidade, ginga e molecagem, e o futebol cisplatino (argentino e uruguaio), de raça, virilidade e doação. Esporte, assim como a arte, reflete a sociedade, e se na baixada cisplatina se joga dessa maneira é porque não apenas os atletas, mas o cidadão comum tem uma visão patriota do mundo, onde representar sua terra e seu povo é motivo de grande orgulho e extrema responsabilidade, características que, cá entre nós, nós brasileiros deveríamos ter um pouco mais.
Tanto o futebol
argentino como o uruguaio tem uma historia invejável, de superação e glórias,
sendo suas escolas de futebol absolutamente consagradas. Mas representar seu
povo e sua terra não é desculpa para extrapolar os limites da civilidade, para
ser violento e para se utilizar de métodos escusos. O capitulo que narrei logo
acima foi um dos muitos episódios que só envergonham o futebol sulamericano. E
a baixaria não é privilegio das seleções.
A Taça
Libertadores da América teve sua primeira edição em 1960, e não demorou muito
para que esse espírito aguerrido tomasse conta da competição. Ao mesmo tempo em
que o torneio continental remete historias de superação, perseverança,
virilidade, plasticidade e consagração, também remete a historias de medo,
ameaças de morte, violência, linchamento e coerção. Durante muitos anos os
times brasileiros entregavam o jogo com medo de serem linchados pela torcida
local. Com o passar dos anos times da Bolívia, Peru e Equador também aderiram
ao futebol de baixaria e catimba (em geral, times do Paraguai, Chile e Colômbia
foram mais influenciados pela escola brasileira). Assim os clubes brasileiros
passaram a não levar a Libertadores tão a serio.
Chega a ser um
contra-senso que na era de ouro do futebol brasileiro, quando os clubes
brasileiros eram fortes e temidos no mundo todo, quando usualmente eram
convidados para jogar torneios internacionais contra times europeus, e
geralmente ganhavam, esses mesmos clubes brasileiros tivessem tão pouco êxito
no torneio continental.
Até mesmo a Copa
Intercontinental, que na época era disputada em jogos de ida e volta, foi
prejudicada. Muitos times europeus tinham medo vir jogar na América do Sul, e
alguns chegaram a boicotar o evento. A solução foi disputar o mundial em jogo
único no Japão.
Anos 90 e a Moralização
A sofisticação dos meios de comunicação, especialmente do TV, fez com que a partir dos anos 90 houvesse um clamor pela moralização da situação. Lances de extrema violência, embora longe do alcance dos árbitros, não mais escapavam do sem numero de câmeras espalhadas pelo estádio. O próprio zeitgeist moral da época passou a exigir níveis maiores de civilidade e espírito esportivo, o que proporcionou melhoras significativas.
A sofisticação dos meios de comunicação, especialmente do TV, fez com que a partir dos anos 90 houvesse um clamor pela moralização da situação. Lances de extrema violência, embora longe do alcance dos árbitros, não mais escapavam do sem numero de câmeras espalhadas pelo estádio. O próprio zeitgeist moral da época passou a exigir níveis maiores de civilidade e espírito esportivo, o que proporcionou melhoras significativas.
Melhoras que se
refletiram em campo, com os brasileiros voltando a se interessar pela conquista
do torneio. Até 1992 a Argentina tinha 15 títulos da Libertadores, o Uruguai tinha 8 e o Brasil tinha apenas 5.
Hoje a Argentina tem 22, o Brasil tem 16 e o Uruguai permanece com 8.
Muito Por Fazer
Apesar de ter melhorado muito, a situação ainda está longe do ideal. Ainda é normal invasão de campo, jogar objetos no gramado e em alguns jogos ainda há muita violência. Este ano Neymar foi vitima de uma chuva de pedras e frutas na Bolivia. Em 2004, em um jogo entre São Caetano e o América (MEX), a torcida mexicana jogou um carrinho de mão no campo e depois invadiu o gramado. Sabe o que aconteceu nesses casos? NADA! Não houve interdição do estádio, não houve punição aos clubes, nada. A CONMEBOL que nunca fez nada para mudar esse quadro continua sendo absolutamente inerte. Não se importam nem com a violência dentro de campo, uma vez que cartões amarelos não geram sequer suspensões (há a pífia multa de 100 dólares por cartão).
Apesar de ter melhorado muito, a situação ainda está longe do ideal. Ainda é normal invasão de campo, jogar objetos no gramado e em alguns jogos ainda há muita violência. Este ano Neymar foi vitima de uma chuva de pedras e frutas na Bolivia. Em 2004, em um jogo entre São Caetano e o América (MEX), a torcida mexicana jogou um carrinho de mão no campo e depois invadiu o gramado. Sabe o que aconteceu nesses casos? NADA! Não houve interdição do estádio, não houve punição aos clubes, nada. A CONMEBOL que nunca fez nada para mudar esse quadro continua sendo absolutamente inerte. Não se importam nem com a violência dentro de campo, uma vez que cartões amarelos não geram sequer suspensões (há a pífia multa de 100 dólares por cartão).
Diante da
situação ainda precária do futebol no continente eu sugiro que os clubes
brasileiros boicotem todas as competições da CONMEBOL sempre que se sintam
prejudicados pela inércia da Confederação. Em 2009 os clubes mexicanos (que nem
são filiados à CONMEBOL) foram eliminados do torneio devido à gripe suína, que
já era epidemia por lá (absolutamente compreensível). Os principais clubes do
país se juntaram e ameaçaram boicotar a competição nos próximos anos em razão
dessa decisão, a CONMEBOL voltou atrás, fez de tudo para contornar a situação e
no final deu vagas diretas às oitavas de final na edição seguinte aos clubes
que haviam sido eliminados, além de um pedido de desculpas. Agora imagine o
efeito que um boicote brasileiro causaria.
Os clubes
brasileiros são hoje os melhores e mais ricos do mundo fora da Europa e
deveriam fazer valer sua força. Num eventual rompimento entre CONMEBOL e clubes
brasileiros, a CONMEBOL certamente perderia muito mais. Ao invés ficarmos
sempre como reféns da Confederação Sulamericana, deveríamos forçar uma reforma
nos regulamentos e estatutos da instituição para que atendam mais aos nossos
interesses. Evidente que ajudaria muito se ainda tivéssemos uma associação dos
principais clubes do país, e não consigo deixar de lembrar o desfavor que
Ricardo Teixeira, Andrés Sanches e a Rede Globo fizeram ao futebol brasileiro
destruindo o Clube dos 13.
Ainda assim o
boicote é possível e os clubes deveriam pensar seriamente nisso. Os frutos não
seriam bons apenas para nós, mas valorizariam o futebol sulamericano como um todo.
Adendo
Meu texto pode dar a impressão que brasileiros nunca se utilizaram de catimba e violência e somos todos santos: não é verdade! O texto trata de tendências, e eventuais casos isolados que invertam a lógica apresentada também devem ser condenados e coibidos.
Meu texto pode dar a impressão que brasileiros nunca se utilizaram de catimba e violência e somos todos santos: não é verdade! O texto trata de tendências, e eventuais casos isolados que invertam a lógica apresentada também devem ser condenados e coibidos.
Primeiro é preciso esclarecer que não tenho nenhum sentimento "contra argentinos" ou qualquer ufanismo cego de rivalidade Brasil x Argentina.
ResponderExcluirDado esse ponto, quero falar sobre todo o problema com a Libertadores/Sulamericana. Os dois torneios mais importantes do continente, que possui 5 + 2 + 2 Copas do Mundo e uma lista sem fim de craques do futebol mundial, são um retrato do despreparo de nossos dirigentes.
Hoje temos um maior acesso aos grandes torneios europeus, tanto nacionais quanto a própria Champions League. Logo, é possível observar as grandes diferenças do nosso futebol com o Europeu. A organização da Champions é impecável: eles sabem que possuem um produto que gera um lucro extraordinário e fãs que querem assistir e consumir “Champions”. Para que isso ocorra, todos os aspectos são pensados para se realizar um torneio que conquista cada vez mais fãs ao longo dos anos. Do sorteio dos grupos, a música inicial, os estádios seguros, a punição para jogadores e times (quando necessária) e o cuidado com os jornalistas/imprensa. Vale lembrar: dois dias antes de qualquer partida da Champions, o estádio passa para a administração da UEFA, e ela que define segurança, credenciais etc, evitando casos sulamericanos como fechar vestiário para o time rival ou outras atitudes covardes.
Nos torneios da Conmebol, os fãs que se danem. Assistir o torneio da Libertadores é pedir para ir em lugares sem policiamento, jogadores e comissão técnica ameaçados pela torcida (é só lembrar da clássica cena que ocorre em todos os jogos: um jogador tenta bater escanteio e a polícia precisa protegê-lo dos objetos jogados pela torcida), um sorteio duvidoso de grupos (e sem emoção), punições inexistentes (ou simbólicas, como US$400 por cartão amarelo, em vez da suspensão) e uma entrega de troféus de campeão mal organizadas (lembram do Santos ano passado?!) e com uma quantidade de políticos e dirigentes superior ao de atletas no local da entrega, fora uma lista imensa de outros problemas.
O futebol brasileiro evoluiu nos últimos anos. A discussão de que o futebol evoluiu mais pelo crescimento da economia brasileira e a ascensão de uma classe C ou de uma melhor organização propriamente dos clubes não está em questão. Hoje temos um campeonato brasileiro de pontos corridos bem estabelecido, crescimento da receita dos clubes e boas iniciativas (profissionalização do Corinthians/Internacional, programas de sócio torcedor etc), o que nos fortalece na qualidade (quantidade de times campeões ou finalistas da Libertadores nos últimos anos) e no tamanho propriamente dito do futebol.
Como maior país do continente, com uma Copa do Mundo chegando e como penta campeão mundial, cabe ao Brasil começar a comprar briga com a Conmebol. Nossa liderança no aspecto técnico é gritante (desde 2005 temos times na final da Libertadores, com 3 campeões mundials posteriormente no Japão), temos um futebol mais organizados e não podemos aceitar tamanha desorganização na “nossa Champions”. Uma Libertadores forte ajuda todos os mercados de futebol do continente, como ajuda na Europa.
É preciso exigir maior organização, maior profissionalismo e melhores práticas. Não acho que seremos maiores que a Champions League, mas um torneio com um sorteio de clubes mais interativo, estádios que possam garantir a proteção do torcedor e dos jogadores, cerimônias de premiação menos políticas não são difíceis de serem feitas. Basta vontade política para mudar a Conmebol, e isso o Brasil tem totais condições de impor e propor. Não é possível termos o tamanho do nosso futebol e aceitar leis da instituição evitando que clubes do mesmo país estejam na final (clara atuação contra o Brasil e as finais de 2005 e 2006 da Libertadores). Como torcedores, só pedimos atenção aos jogadores e aos torcedores, em vez de politicagem.