terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Todos os Campeões Brasileiros


A CBF, Confederação Brasileira de Futebol, anunciou ontem que finalmente vai reconhecer os títulos da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, e dessa forma corrigir uma injustiça histórica.

Uma coisa que causa estranheza a qualquer gringo que olhe a relação dos campeões brasileiros de futebol, é que o primeiro campeonato teria ocorrido no ano de 1971. Todos os países de tradição nesse esporte criaram campeonatos até 1930, quando muito tardio. Foi assim com Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Espanha, Argentina, Uruguai, etc. Por isso essa data causa estranheza, e se pararmos para pensar, o Brasil já era tricampeão do mundo em 71.

Para entender o caso brasileiro é necessário um olhar mais atento. Sua peculiaridade pode ser explicada por causa do tamanho continental do país. Em 1920 houve uma tentativa de organizar um campeonato nacional de clubes, porém devido ao alto custo e duração das viagens, que chegava a durar meses, o campeonato foi um fracasso.

Dessa forma, o futebol brasileiro teve que se organizar estadualmente, e por isso que o Brasil é o único país do mundo que tem campeonatos estaduais tão prestigiados. O primeiro campeonato do Brasil foi o Paulista, em 1902, e até 1920 os principais centros (RJ, RS, MG, PE, BA, PR, CE, etc.) já tinham seus campeonatos regionais. Os campeões de Rio e São Paulo sempre foram chamados para torneios internacionais como legítimos campeões nacionais. Isso também explica porque o Brasil tem 12 times grandes, quando no resto do mundo existem de 2 a 4 por país. No Rio e em São Paulo se desenvolveram 4 grandes, no Rio Grande do Sul e em Minas se desenvolveram 2 grandes.

Em 1922 surgiu o campeonato nacional de seleções, onde os melhores jogadores de todos os campeonatos estaduais jogavam pelo estado de seu clube. O torneio era curto e organizado em uma sede fixa, geralmente o Distrito Federal (RJ na época). Esse torneio era bastante prestigiado, e foi uma boa solução para o problema da época. Com o desenvolvimento do transporte aéreo na década de 50, foi criada, em 1959, a Taça Brasil, então o torneio de seleções perdeu o sentido e foi extinto no inicio dos anos 60. A Taça Brasil foi um sucesso desde sua concepção, sendo seu vencedor sempre aclamado o campeão nacional. Porém, o transporte aéreo ainda não era tão acessível, e por isso um campeonato longo, de pontos corridos, como acontecia na Europa há um bom tempo, ainda não era possível, e por isso a Taça Brasil contava apenas com os campeões estaduais e o campeão do ano anterior. Foi nessa competição que ídolos imortais, como Pelé, Garrincha, Tostão e Ademir da Guia se consagraram nacionalmente.

Em 1967, a partir de iniciativa das federações paulista e carioca, foi criado o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, um campeonato maior, que não contava com times de todo o Brasil, mas contava com vários times dos maiores centros (SP, RJ, MG, BA, PE, CE, SC, PR e RS), aumentando a qualidade técnica. Os clássicos estaduais, em um campeonato nacional, foram o grande ingrediente do torneio, tendo sempre boas médias de publico.

Em 1971, o campeonato foi inflado, com times de todo o Brasil e também mudou de nome (para Campeonato Nacional), porém teve um regulamento bem semelhante ao do Robertão. O problema é que devido ao (mal) habito do brasileiro, de esquecer o passado, os títulos dos torneios anteriores foram desconsiderados. Em 75 o campeonato mudou novamente de nome(para Copa Brasil), mas desta vez preservaram os títulos de 71 até 74.

Alguns são contra a homologação desses torneios, pois dizem que são diferentes do Brasileirão, tem outros nomes. Como foi visto o Brasileirão teve vários nomes: Campeonato Nacional, Copa Brasil, Taça Ouro, Copa União, Copa João Avelange e Campeonato Brasileiro. Se o critério for o nome, devem ser contados apenas os títulos de 89 em diante, tirando o de 2000 (Copa João Avelange).

Também há quem diga que os regulamentos eram diferentes. O que, em primeiro lugar, não é verdade, os regulamentos de 71 a 74 eram muito parecidos com o do Robertão (67-70), e, em segundo lugar, o Brasil já experimentou todos os sistemas de disputa possíveis, se esse for o critério, então só devem valer os títulos de 2003 em diante (pontos corridos).

O não reconhecimento do Robertão chega a ser absurdo, se tratava exatamente do mesmo campeonato com nome diferente. A Taça Brasil já é um caso mais complicado, mas ainda assim defendo sua equivalência. Argumentam que era um campeonato muito curto e que por isso não deveria valer, mas o primeiro campeonato italiano, por exemplo, foi disputado por quatro clubes, em mata-mata, no mesmo dia. Ou seja, em um mesmo dia, a Roma venceu duas partidas e sagrou-se campeã italiana, e seu titulo nunca foi questionado. O que deve ser levado em conta é a importância relativa que o torneio teve na época, que foi grande. Da mesma maneira a Taça Brasil foi um campeonato de grande prestigio, com grandes craques, e que os campeões eram capas de revista, jornal e sempre recebidos com festa. Negligenciar isso é negar a historia do futebol brasileiro. Esses títulos não podem ficar perdidos no limbo!

Alguns defendem que a Taça Brasil deveria equivaler a atual Copa do Brasil, mas isso seria uma falsa simetria. A Copa do Brasil é um campeonato de segunda linha, que as principais forças do país não jogam, e que a vaga na libertadores é mais importante que o titulo em si, muito diferente da Taça Brasil, que era o titulo mais importante do país na época.

Um ultimo argumento contrario a equivalência é que a Taça Brasil coexistiu por dois anos (67 e 68) com o Robertão, e portanto haveriam dois campeões nacionais nesses anos. Ter dois campeões nacionais no mesmo ano não é um problema, na Argentina, desde os anos 80, sempre há dois campeões por ano. A federação alemã considera os títulos do campeonato da Alemanha oriental e ocidental, e, portanto dois campeões por ano nesse período. Existem vários outros exemplos. O fato é que em 67/68 a Taça Brasil já era um campeonato estabelecido, e com grande prestigio, por outro lado, o Robertão foi um sucesso instantâneo devido aos clássicos regionais e ao alto nível técnico, e, portanto houve dois campeonatos principais nesses anos, e dois campeões brasileiros legítimos.

Até no futebol (ou principalmente no futebol) a historia do Brasil é complicado, mas não deixemos que essa complicação apague a historia da chamada Era de Ouro do futebol brasileiro, que trouxe três títulos mundiais para o Brasil. A homologação dos títulos veio tarde, mas, pelo menos, veio.


Tabela dos títulos brasileiros sem Taça Brasil e Robertão.
Clube Titulos
São Paulo 6
Flamengo* 5
Corinthians 4
Palmeiras 4
Vasco 4
Internacional 3
Fluminense 2
Grêmio 2
Santos 2
Atletico-MG 1
Atletico-PR 1
Bahia 1
Botafogo 1
Coritiba 1
Cruzeiro 1
Guarani 1
Sport* 1



Tabela dos títulos brasileiros com Taça Brasil e Robertão.
Clube Titulos

Palmeiras 8
Santos 8
São Paulo 6
Flamengo* 5
Corinthians 4
Vasco 4
Internacional 3
Fluminense 3
Grêmio 2
Bahia 2
Botafogo 2
Cruzeiro 2
Atletico-MG 1
Atletico-PR 1
Coritiba 1
Guarani 1
Sport* 1

*Oficialmente o Sport é o campeão de 87 e não o Flamengo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Conservadorismo Retrogrado

Nos últimos meses alguns acontecimentos de cunho notadamente retrógrados ganharam boa repercussão, e vou fazer minhas considerações sobre eles.

O primeiro aconteceu em meio à campanha eleitoral, foi sobre o aborto. Assunto polêmico, eu sei, o problema é acusar pessoas favoráveis a descriminalização do aborto de anti-éticas e contra a vida. Primeiramente, é bom esclarecer, ser a favor do aborto é diferente de ser a favor da descriminalização do aborto. O primeiro consiste em considerar o aborto uma pratica correta, é uma opinião pessoal, o segundo consiste em deixar a cargo de cada um, baseado em seus valores (uma vez que o Estado é laico, lembre-se), decidir se abortar é aceitável ou não. Além disso, essas organizações religiosas que se dizem “a favor da vida”, não pensam na vida de mais de 30 mil mulheres que abortam em clinicas clandestinas todos os anos, no Brasil. Não reconhecer que o aborto é uma pratica comum é hipocrisia. A legislação de um país deve amparar todos os grupos e não apenas uma maioria absoluta.

Em seguida, o fim do processo eleitoral e a vitória de Dilma desencadearam uma onda anti-norte/nordeste na Internet, onde os nordestinos e nortistas eram acusados de serem os “culpados” pela vitória de Dilma. As ofensas começaram no twitter, mas se espalharam por toda a rede (blogs, youtube, orkut, etc.). As declarações variavam desde a educada “Faça um favor ao Brasil, mate um nordestino afogado”, até a separatista “Norte/Nordeste não é Brasil!”. Ora, tal afirmação se quer encontra embasamento na realidade, já que mesmo sem os votos do Norte/Nordesta Dilma também ganharia (por uma diferença bem menor claro). Pouco se falou que as contundentes vitórias em Minas, no Rio de Janeiro e em Brasília foram tão importantes quanto nas regiões ao Norte do país, e que as vitórias de Serra nos estados do Sul e Centro-Oeste foram ínfimas (as maiores votações do candidato foram, quem diria, no Acre e no Maranhão). Veja, no Nordeste todo há um colégio eleitoral de 22 milhões de eleitores, só no estado de São Paulo há um colégio eleitoral com os mesmos 22 milhões de eleitores, portanto, se houvesse realmente uma dicotomia entre Norte e Sul, os sulistas levariam a melhor sem sombra de duvida.

Também tentaram desvalorizar o voto dos analfabetos e dos miseráveis, dizendo que esses não deveriam poder votar, pois “trocam voto por cesta básica”. Veja bem, o sujeito de classe média, por exemplo, que escolhe um candidato esperando que este reduza drasticamente a carga tributaria sobre consumo não é (e nem deve ser) acusado de “trocar o voto por um iPhone 4”, então porque seria errado o sujeito miserável dar seu voto ao candidato que ele considera que poderá lhe propiciar mais comida na mesa? É uma atitude legitima.

O ultimo desses acontecimentos envolve os homossexuais. Dada a iminência da aprovação da PL 122, lei que tenta criminalizar a homofobía, varias autoridades e grupos religiosos se posicionaram raivosamente contra, o que estimulou agressões físicas e intolerância contra homossexuais. Tais grupos religiosos chegaram a organizar passeatas pelo direito de ser homófobo. Não sei vocês, mas pra mim passeata pela homofobia soa tão moderno e plausível quanto uma passeata contra o direito de voto das mulheres ou passeata em favor da escravidão.

Vários estudos sobre violência no Brasil mostram que crimes terríveis, como espancamento, são cometidos numa proporção muito maior contra os homossexuais do que contra outros segmentos, e que, portanto é cabível que se faça uma lei para protegê-los (como foi a lei do racismo no passado).

Os religiosos também têm medo que depois da aprovação dessa lei, a bancado liberal no congresso tente alçar vôos maiores, como permitir o casamento gay, da mesma forma que já ocorreu no México e na Argentina. Essa reivindicação dos homossexuais que querem ter direitos civis semelhantes aos dos heterossexuais é bastante pertinente, afinal se o Estado não reconhece o homossexual como pessoa física, por quê diabos cobra Imposto de Renda dessa gente?