quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Conservadorismo Retrogrado

Nos últimos meses alguns acontecimentos de cunho notadamente retrógrados ganharam boa repercussão, e vou fazer minhas considerações sobre eles.

O primeiro aconteceu em meio à campanha eleitoral, foi sobre o aborto. Assunto polêmico, eu sei, o problema é acusar pessoas favoráveis a descriminalização do aborto de anti-éticas e contra a vida. Primeiramente, é bom esclarecer, ser a favor do aborto é diferente de ser a favor da descriminalização do aborto. O primeiro consiste em considerar o aborto uma pratica correta, é uma opinião pessoal, o segundo consiste em deixar a cargo de cada um, baseado em seus valores (uma vez que o Estado é laico, lembre-se), decidir se abortar é aceitável ou não. Além disso, essas organizações religiosas que se dizem “a favor da vida”, não pensam na vida de mais de 30 mil mulheres que abortam em clinicas clandestinas todos os anos, no Brasil. Não reconhecer que o aborto é uma pratica comum é hipocrisia. A legislação de um país deve amparar todos os grupos e não apenas uma maioria absoluta.

Em seguida, o fim do processo eleitoral e a vitória de Dilma desencadearam uma onda anti-norte/nordeste na Internet, onde os nordestinos e nortistas eram acusados de serem os “culpados” pela vitória de Dilma. As ofensas começaram no twitter, mas se espalharam por toda a rede (blogs, youtube, orkut, etc.). As declarações variavam desde a educada “Faça um favor ao Brasil, mate um nordestino afogado”, até a separatista “Norte/Nordeste não é Brasil!”. Ora, tal afirmação se quer encontra embasamento na realidade, já que mesmo sem os votos do Norte/Nordesta Dilma também ganharia (por uma diferença bem menor claro). Pouco se falou que as contundentes vitórias em Minas, no Rio de Janeiro e em Brasília foram tão importantes quanto nas regiões ao Norte do país, e que as vitórias de Serra nos estados do Sul e Centro-Oeste foram ínfimas (as maiores votações do candidato foram, quem diria, no Acre e no Maranhão). Veja, no Nordeste todo há um colégio eleitoral de 22 milhões de eleitores, só no estado de São Paulo há um colégio eleitoral com os mesmos 22 milhões de eleitores, portanto, se houvesse realmente uma dicotomia entre Norte e Sul, os sulistas levariam a melhor sem sombra de duvida.

Também tentaram desvalorizar o voto dos analfabetos e dos miseráveis, dizendo que esses não deveriam poder votar, pois “trocam voto por cesta básica”. Veja bem, o sujeito de classe média, por exemplo, que escolhe um candidato esperando que este reduza drasticamente a carga tributaria sobre consumo não é (e nem deve ser) acusado de “trocar o voto por um iPhone 4”, então porque seria errado o sujeito miserável dar seu voto ao candidato que ele considera que poderá lhe propiciar mais comida na mesa? É uma atitude legitima.

O ultimo desses acontecimentos envolve os homossexuais. Dada a iminência da aprovação da PL 122, lei que tenta criminalizar a homofobía, varias autoridades e grupos religiosos se posicionaram raivosamente contra, o que estimulou agressões físicas e intolerância contra homossexuais. Tais grupos religiosos chegaram a organizar passeatas pelo direito de ser homófobo. Não sei vocês, mas pra mim passeata pela homofobia soa tão moderno e plausível quanto uma passeata contra o direito de voto das mulheres ou passeata em favor da escravidão.

Vários estudos sobre violência no Brasil mostram que crimes terríveis, como espancamento, são cometidos numa proporção muito maior contra os homossexuais do que contra outros segmentos, e que, portanto é cabível que se faça uma lei para protegê-los (como foi a lei do racismo no passado).

Os religiosos também têm medo que depois da aprovação dessa lei, a bancado liberal no congresso tente alçar vôos maiores, como permitir o casamento gay, da mesma forma que já ocorreu no México e na Argentina. Essa reivindicação dos homossexuais que querem ter direitos civis semelhantes aos dos heterossexuais é bastante pertinente, afinal se o Estado não reconhece o homossexual como pessoa física, por quê diabos cobra Imposto de Renda dessa gente?

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