Aconteceu finalmente. Gerações esperaram por este momento no Brasil: crime do colarinho branco sendo investigado a fundo e punido com severidade. Tirando meia dúzia de militantes que sofreram lavagem cerebral gritando “Dirceu guerreiro do povo brasileiro” na porta delegacia, o restante do país vive um momento de satisfação e esperança pelo fim da impunidade.
Mas chamo a atenção para um discurso perigoso de boa parte das pessoas e que foi bem expresso pela capa da Veja dessa semana:
“O STF decreta a prisão dos condenados do maior esquema de corrupção da historia”
Maior? Sob qual critério? Pelo volume de recursos desviados, alguns diriam.
Vejamos, segundo a Polícia Federal, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União, o Mensalão lesou o erário público em R$ 102 milhões. No caso do cartel do Metrô e da CPTM, o Ministério Público e o CADE (com base em documentos da Siemens) concluíram que os cofres paulistas foram lesados em R$ 425 milhões. Enquanto isso a Controladoria- Geral do Município de São Paulo aponta fraude de R$ 500 milhões na última gestão. Isso só pra citar dois casos recentes, fáceis de puxar pela memória...
“Mas no Governo Federal o Mensalão foi o maior!” Talvez tenha sido...talvez não...
Em 2005 o ex-deputado Roberto Jefferson fez uma denúncia grave contra o governo. Essa denúncia foi investigada, apurada, julgada e agora vemos as penas sendo aplicadas.
Em 1998 o governo foi acusado de ter comprado a emenda da re-eleição (que o próprio Fernando Henrique admitiu, dez anos após o termino de seu mandato, que pode ter acontecido). O que houve com essa denúncia? NADA! Nem CPI.
Em 1992 a Polícia Federal denunciou e indiciou 400 empresas e 110 empresários por manterem relacionamento escuso com o governo do ex-presidente Collor. Na época se falava em cifras que hoje representariam mais de R$ 1 Bilhão. A investigação não foi pra frente, não houve julgamento e os crimes prescreveram.
A corrupção dos governos militares se perderam no limbo uma vez que não se podia nem denunciar, quem dirá investigar tais crimes.
Enfim, a lista é extensa...
Existe hoje uma clara tentativa de hierarquização da corrupção, como fica explicito na manchete da revista supracitada. O Mensalão é um mero exemplo de uma pratica infelizmente comum no Brasil, tanto na vida pública quanto privada.
O perigo de tratar esse caso como o principal/mais greve/maior de todos é que então esse seria merecedor de mais atenção que os outros. O Mensalão não pode ser um regime de exceção, precisa ser um ponto de virada. Se nossa indignação for seletiva, os outros casos, tão graves quanto este, não serão punidos com a mesma severidade e assim voltaremos para a normalidade dos casos que acabam em pizza.