Postado no Facebook em 16 de julho de 2016
Há na Turquia uma disputa histórica entre os secularistas, que defendem clara separação entre o Estado e assuntos religiosos, e os anti-secularistas, que defendem o oposto. Desde 2002 o partido que controla a Turquia é o AKP, um partido conservador e islamista, favorável a que as tradições e os preceitos do islamismo influenciem a politica.
O atual presidente e ex-primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan, é acusado não apenas de atentar contra a laicidade do Estado, mas também por investidas para diminuir a autonomia do parlamento, de tentar exercer controle politico sobre as cortes do país, de desrespeitar direitos humanos de minorias curdas, de restringir a liberdade de expressão e de imprensa e também de fazer vista grossa ao fato de que o ISIS, principal grupo terrorista da atualidade, escoa petróleo pela Turquia, com objetivo de enfraquecer politicamente a Síria.
Atualmente Erdogan está amarrado pela Constituição turca, que restringe seus poderes, mas no fundo ele queria ter a relevância de Putin e poder exercer a truculência de Bashar al-Assad. Fazer a ponderação de que ele é melhor que outros fascinoras da região não faz dele bom, apenas menos pior.
A tentativa de Golpe na Turquia foi promovida por militares nacionalistas. Os nacionalistas turcos historicamente defendem um Estado secular e voltado a valores iluministas.
As teocracias são o cerne do problema no Oriente Médio e dificilmente haverá paz na região enquanto não houver separação clara entre Estado e questões religiosas. A tradição nacionalista é sem dúvida a grande responsável por manter a Turquia em relativa paz durante o século XX.
"Ah Soneca, então você apoia a tentativa de Golpe?"
Erdogan é um mal para a Turquia, não há dúvida quanto a isso, mas um mal que foi levado ao poder pelo seu povo e que deve ser tirado de lá através do debate, do dialogo, do convencimento e do voto, não através de tanques e fuzis.
Um vizinho da Turquia, o Irã, já assistiu a esse filme. Depois da Segunda Guerra Mundial os britânicos deixaram o país sob o comando do xá Reza Pahlavi, que implantou uma monarquia autocrática (eufemismo para ditadura) com valores liberais e seculares alinhados ao ocidente.
Essa situação de "iluminismo na marra", além de ser uma contradição em termos, gestou grupos radicais que em 1979 levaram o aiatolá Khomeini ao poder e transformaram o Irã numa teocracia bizarra que condena a morte homossexuais, adúteros e até mulheres vitimas de estupro.
O Iraque, outro vizinho da Turquia, foi invadido pelos EUA três vezes, sempre sob o pretexto da liberdade e da democracia, mas todas as vezes que as tropas estadunidenses deixavam o Iraque uma nova ditadura pior que a anterior era instaurada.
A batalha pelo secularismo, pelo humanismo e pela liberdade deve ser vencida pelo legitimo e soberano poder de autodeterminação dos povos e não incutindo valores goela abaixo de uma sociedade. Não se trata de dizer que este é o melhor caminho, é o único. Ao tentar depor Erdogan através da violência os golpistas turcos conseguiram colar um rotulo de "vilão" nos mocinhos.