segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Transporte Público

Na esquina esperando o farol fechar para atravessar e tomar a condução. Do outro lado da avenida uma comitiva de 4 (Q-U-A-T-R-O) trólebus sentido Ferrozopolis, 3 deles praticamente vazios.
Impotente, assisto um a um deixar o ponto, quase como se estivessem apontando e rindo de mim.
Farol fecha, atravesso, 25 longos minutos de espera por um novo "Ferrozopolis". Lotado. A maior parte da viagem espremido, antes da catraca.
Transporte público: uma metáfora da vida.

Escola Sem Partido


Postado no Facebook em 20 de julho de 2016
A polêmica da vez é um projeto de lei que surgiu com o propósito de combater a "doutrinação marxista" nas escolas. Tal proposta parte das seguintes premissas:
1. A maioria dos professores de Ensino Fundamental e Médio, sobretudo os de humanidades como História, Geografia, Filosofia e Sociologia, tem direcionamento ideológico de esquerda.
2. Esses professores usam sua autoridade como educador e a vulnerabilidade intelectual dos educandos para incutir desde cedo ideias de esquerda nos alunos.
O primeiro problema que eu enxergo nisso é que a fundamentação desse projeto ocorre basicamente através de evidência anedótica, ou seja, através de denúncias esparsas que não necessariamente fazem uma tendência.
"Ah mas teve um livro aprovado pelo MEC que diz que o socialismo é bom!"
Mas você verificou todos os livros aprovados pelo MEC ou pelo menos uma amostra considerável? Será que não há livros aprovados pelo MEC que falem mal do socialismo?
"Ah mas teve um professor que mandou ler o Manifesto Comunista!"
Eu vi um caso de um professor que colocou Olavo de Cavalho como bibliografia básica, então é possível afirmar que há um doutrinamento conservador nas escolas? (e cá entre nós, é possível discordar de cada palavra escrita por Marx mas é impossível negar sua relevância como autor, enquanto Olavo é apenas um charlatão mesmo).
São questionamentos honestos, não me sinto qualificado a afirmar nem que há e nem que não há doutrinação nas escolas, reconheço ainda que se há é um problema, contudo, enquanto não houver um estudo nacional amplo que avalie o perfil dos professores e seu comportamento em sala de aula à partir de critérios objetivos, o Escola Sem Partido será uma empreitada digna de Dom Quixote contra moinhos de vento.
Mas vamos além. Suponhamos que haja doutrinação nas escolas e que o projeto tenha razão de existir, vamos analisa-lo.
"Art. 3º. São vedadas (...) a veiculação de conteúdos ou a realização de atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes."
Uma pesquisa feita pelo Pew Reasearch Center em 2009 nos EUA aponta que 97% dos cientistas aceitam a Teoria da Evolução, o que equivale a dizer que a academia daquele país considera a Evolução um fato cientifico.
O Escola Sem Partido dá o poder de famílias religiosas denunciarem ao Ministério Público um professor que ensina sobre a Evolução (ou o Big Bang, ou o heliocentrismo, etc.), privando os alunos de conhecimentos fundamentais.
Dá pra perceber o quão grave é isso?
Debates sobre atualidades (ou de qualquer natureza) em sala de aula se tornam inviáveis. Estimular o senso crítico dos alunos se torna algo a ser evitado, o ensino bom será aquele acético, pasteurizado e mastigado.
Na justificação os autores do projeto chegam ao absurdo de afirmar "não existe liberdade de expressão no exercício estrito da atividade docente".
Censório, bizarro e talvez até sem propósito. Esse é o Escola Sem Partido.

Turquia, Iran, Iraque e a Autodeterminação Dos Povos

Postado no Facebook em 16 de julho de 2016
Há na Turquia uma disputa histórica entre os secularistas, que defendem clara separação entre o Estado e assuntos religiosos, e os anti-secularistas, que defendem o oposto. Desde 2002 o partido que controla a Turquia é o AKP, um partido conservador e islamista, favorável a que as tradições e os preceitos do islamismo influenciem a politica.
O atual presidente e ex-primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan, é acusado não apenas de atentar contra a laicidade do Estado, mas também por investidas para diminuir a autonomia do parlamento, de tentar exercer controle politico sobre as cortes do país, de desrespeitar direitos humanos de minorias curdas, de restringir a liberdade de expressão e de imprensa e também de fazer vista grossa ao fato de que o ISIS, principal grupo terrorista da atualidade, escoa petróleo pela Turquia, com objetivo de enfraquecer politicamente a Síria.
Atualmente Erdogan está amarrado pela Constituição turca, que restringe seus poderes, mas no fundo ele queria ter a relevância de Putin e poder exercer a truculência de Bashar al-Assad. Fazer a ponderação de que ele é melhor que outros fascinoras da região não faz dele bom, apenas menos pior.
A tentativa de Golpe na Turquia foi promovida por militares nacionalistas. Os nacionalistas turcos historicamente defendem um Estado secular e voltado a valores iluministas.
As teocracias são o cerne do problema no Oriente Médio e dificilmente haverá paz na região enquanto não houver separação clara entre Estado e questões religiosas. A tradição nacionalista é sem dúvida a grande responsável por manter a Turquia em relativa paz durante o século XX.
"Ah Soneca, então você apoia a tentativa de Golpe?"
Erdogan é um mal para a Turquia, não há dúvida quanto a isso, mas um mal que foi levado ao poder pelo seu povo e que deve ser tirado de lá através do debate, do dialogo, do convencimento e do voto, não através de tanques e fuzis.
Um vizinho da Turquia, o Irã, já assistiu a esse filme. Depois da Segunda Guerra Mundial os britânicos deixaram o país sob o comando do xá Reza Pahlavi, que implantou uma monarquia autocrática (eufemismo para ditadura) com valores liberais e seculares alinhados ao ocidente.
Essa situação de "iluminismo na marra", além de ser uma contradição em termos, gestou grupos radicais que em 1979 levaram o aiatolá Khomeini ao poder e transformaram o Irã numa teocracia bizarra que condena a morte homossexuais, adúteros e até mulheres vitimas de estupro.
O Iraque, outro vizinho da Turquia, foi invadido pelos EUA três vezes, sempre sob o pretexto da liberdade e da democracia, mas todas as vezes que as tropas estadunidenses deixavam o Iraque uma nova ditadura pior que a anterior era instaurada.
A batalha pelo secularismo, pelo humanismo e pela liberdade deve ser vencida pelo legitimo e soberano poder de autodeterminação dos povos e não incutindo valores goela abaixo de uma sociedade. Não se trata de dizer que este é o melhor caminho, é o único. Ao tentar depor Erdogan através da violência os golpistas turcos conseguiram colar um rotulo de "vilão" nos mocinhos.

Eu Sou Ariana!


Postado no Facebook em 8 de julho de 2016
Este ano, em uma conversa descontraída na casa de uma amiga, conheci uma pessoa que estava fazendo entrevistas para dividir seu apartamento e falava sobre os candidatos que havia entrevistado, quando um comentário me chamou a atenção.
-Tinha um (candidato) que era de escorpião com ascendente em escorpião, eliminei na hora!
Aquilo me soou tão inaceitável quanto se tivesse dito "ele era nordestino, eliminei na hora!". Para meu espanto todos na conversa receberam aquela afirmação com naturalidade. Resolvi insistir, talvez houvesse alguma informação que eu tivesse deixado escapar ou alguma ironia que eu não soube interpretar. Não havia, o motivo da eliminação era porque o candidato era "o escorpião do escorpião".
Em outra conversa também este ano, com uma conhecida desta vez, ela contava que seu namorado não falava com ela desde que, alguns dias antes, ela jogou o celular dele pela janela por um motivo que ela mesma, já de cabeça fria, reconhecia ser bobagem.
-Eu sou ariana, ele tem que se acostumar com isso!
Dizia isso como se fosse uma vítima das circunstâncias e não houvesse nada que pudesse ser feito.
Algum tempo atrás um outro conhecido comentou que havia alterado a data de uma reunião de negócios porque sua lua estava em saturno (ou alguma coisa nessa linha).
Astrologia deixou de ser uma brincadeira inofensiva e se tornou algo que realmente influencia na vida das pessoas. É digno de nota que muitas pessoas que rejeitam as religiões acreditam ou tem simpatia por astrologia.
Amigos, astrologia pode até ser menos inflexível, fazer menos juízo moral e ter uma roupagem mais moderna, mas na prática não é muito diferente de uma crença religiosa.

Custo Político


Postado no Facebook em 16 de junho de 2016
"(...) desde 1946 havia um padrão segundo o qual os empresários moldavam seus orçamentos com incorporação do conceito de "custo político" (...) é o percentual de qualquer relação contratual entre empresa privada e poder público a ser destinado a propinas (...) esse percentual é de 3% no nível federal, de 5 a 10% no nível estadual e de 10 a 30% no nível municipal (...) recentemente, em todos os níveis de governos, as pessoas saíram desse padrão e foram além, envolvendo a estrutura das empresas estatais e dos órgãos públicos, o que antes não acontecia;"
MACHADO, José Sérgio de Oliveira (Delação premiada, página 83).
Obs.: "recentemente" não se refere à chegada do PT ao poder, Machado faz essa introdução para em seguida relatar como ele, Teotônio Vilela e Aécio Neves captaram recursos ilegalmente, boa parte vindo de Furnas, para eleição de deputados do PSDB na eleição de 1998.

Pray For Orlando, Pray Paris, Pray For Beirut, Pray For Baghdad


Postado no Facebook em 13 de junho de 2016
Barbáries são fomentadas pela religião e a sugestão é rezar? Até quando vamos tentar resolver um problema com mais do mesmo problema? Desde o fim do IRA em 2005 e do ETA em 2011 atentados terroristas passaram a ser quase uma exclusividade de grupos com motivações religiosas, então sim, as religiões são parte do problema. Enquanto os terroristas forem tratados como fieis radicais que "não entenderam a mensagem" e que as religiões não tem nada a ver com isso, nada vai mudar.
É preciso reconhecer o radicalismo intrínseco às religiões. Se a fé islâmica é responsável em larga medida pelo terrorismo no mundo (embora ainda haja casos de terrorismo cristão), a fé cristã não tem dado vida fácil ao humanismo e ao laicismo no ocidente.
É dito que as religiões sempre pregam tolerância, não é verdade, livros sagrados em geral trazem mensagens ambíguas. Ao Jesus do Sermão da Montanha, que ensina a "dar a outra face" (Lucas 6:27-31), também é atribuído "Não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o filho e seu pai, entre a filha e sua mãe" (Mateus 10:34-37). A mensagem "certa" depende do interprete e do momento.
Jesus foi uma pessoa a frente de seu tempo, um humanista de sua época, mas há um outro livro que compila tudo de bom dito por ele de uma maneira bem mais sofisticada e moderna, chama-se declaração universal dos direitos humanos, uma obra-prima do humanismo secular, um guia moral muito superior a qualquer livro sagrado.
Propor que se reze em momentos de tragédia empodera as religiões e suas mensagens ambíguas e subjetivas em detrimento de posturas mais racionais e realistas baseados no humanismo e no secularismo. Em outras palavras, religiões endossam "amar ao próximo" na mesma medida que endossam isso:
"Pois vós praticardes vossas luxúrias sobre homens em preferência a mulheres: vós sois de fato um povo cheio de iniquidade. E atiramos sobre vós uma chuva de pedras."
Corão (7:80-84)
"O homem que se deitar com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação, deverão morrer, e seu sangue cairá sobre eles."
Levíticos (20:13)

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Postado no Facebook em 12 de junho de 2016
Sempre tem os fanboys da Argentina que em época de competição entre seleções sul-americanas ficam repetindo "futebol argentino sempre foi melhor, futebol brasileiro não tem história, viva o Maradona, blá blá blá".
Aí fera, vocês são tão insistentes que eu tô quase concordando, só queria fazer uma pergunta, vocês também conseguem colocar 2195 gols em uma foto?