quinta-feira, 19 de julho de 2012

A Desindustrialização do Brasil


Se o desenvolvimento do Brasil no século XX pode-se ser descrito em uma palavra, essa seria industrialização. Foi a industria o motor dinâmico que tornou o Brasil um país urbano, que aumentou o padrão de vida da população, e responsável pelas maiores taxas de crescimento econômico da história do país.

O processo industrial brasileiro começou com Getulio Vargas em 1930, incentivando a produção de bens de consumo (não-durável) para diminuir a dependência externa do Brasil. Em 1956, com Juscelino Kubtschek, a industrialização entrou numa nova etapa, a dos bens de consumo durável. Com os militares veio a etapa derradeira, a dos bens de capital, processo que durou até meados dos anos 80. O Brasil foi um dos primeiros países do hemisfério sul a ter um parque industrial completo, com os 3 setores. Nesse período (1930-1980) o Brasil cresceu em média 7% ao ano (Ipeadata).

Nos últimos 25 anos o Brasil vem sofrendo um processo de desindustrialização. Isso não significa que a nossa indústria está produzindo menos, e sim que a importância relativa da indústria dentro da nossa economia está diminuindo. Em 1987 cerca de 40% do nosso PIB era proveniente da indústria, ano passado essa participação chegou a 14% (IBGE). Nosso déficit comercial na indústria está na casa dos US$100 Bilhões.

Mas porque a industria é tão importante se o superávit gerado pelas commodities supre o déficit industrial e faz com que tenhamos um bom resultado na Balança Comercial? Pra responder essa pergunta preciso antes deixar claro duas coisas:
a) A economia é composta por 3 setores: agropecuária e extrativismo (primário), indústria (secundário) e serviços (terciário).
b)Valor econômico adicionado é o valor adicional que os bens e serviços adquirem em cada uma das etapas do processo produtivo.

O setor de serviços pode ter pouca ou muita capacidade de adicionar valor dependendo do perfil da economia em que está inserido, por isso deixo ele de lado por enquanto e volto nele mais tarde. A agropecuária tem baixíssimo valor adicionado por unidade, uma atividade que depende quase exclusivamente da quantidade vendida, e não da qualificação técnica envolvida no processo, portanto gera empregos não qualificados. Já a industria é a única que necessariamente tem boa capacidade de adicionar valor, pois, além da maior parte das etapas do processo produtivo estarem contidas nesse setor, por essência ela transforma matérias-prima em produtos manufaturados, e por isso necessita de profissionais mais qualificados. A diferença entre se especializar em agropecuária e se especializar na indústria é a diferença entre vender minério de ferro e vender Ipads.

 Alguém poderá argumentar que o setor que mais cresceu e se tornou hegemônico foi o de serviços e não o agropecuário, o que é verdade. Mas é preciso pontuar algumas coisas:

Primeiro, o nosso superávit em Conta Corrente deve-se principalmente ao nosso saldo comercial em commodities e bens primários (nós não exportamos serviços), e à medida que uma nação enriquece (e isso é o que todos nós queremos para o Brasil) cresce a demanda por produtos industrializados, ou seja, no longo prazo teremos déficits cada vez maiores Balança Comercial, o que causaria fortes desequilíbrios nas Contas Nacionais. Por isso um país raramente fica rico sem ter uma indústria forte e articulada.

Segundo, desindustrializar não necessariamente é ruim, dependendo das circunstâncias que ela ocorre. Os países considerados desenvolvidos (Estados Unidos, Canadá, países da Europa, etc.) também se desindustrializaram entre os anos 80 e 90, e nesses casos os serviços também se tornaram o segmento mais dinâmico da economia. Então qual é a diferença?

Nos países desenvolvidos, antes de terem perdido importância relativa, as indústrias atingiram certo nível de maturidade e excelência que impediu fossem engolidas pela concorrência internacional. Mesmo perdendo muitas fábricas para o exterior, esses países contam com poderosas multinacionais que revertem lucros às suas sedes. Esses países  também se tornaram especialistas em desenvolver tecnologia e em economia criativa, e isso só foi possível graças dois aspectos:
a)Alta escolarização e qualificação técnica da população para desenvolver essas atividades. Educação e capacitação que foi adquirida na fase industrial desses países.
b)Alto nível de renda  da população. Imprescindível, pois esse tipo de serviço mais sofisticado requere um alto nível de acumulação de capital. Nos anos 1980 esses países ricos já tinham uma renda per capita da ordem de US$30 mil/ano.

No frigir dos ovos, trocaram empregos qualificados na indústria por empregos ainda mais qualificados nos serviços.

Numa situação oposta, a indústria brasileira ainda não atingiu estágios de produtividade e competitividade compatíveis com os níveis encontrados internacionalmente, e nossos manufaturados estão cada vez mais defasados, mesmo se comparados com produtos dos ditos países emergentes. Temos poucas multinacionais e nossas principais fabricas revertem lucros ao exterior. O Brasil ainda é um país de semi-analfabetos, com baixa qualificação técnica e com renda per capita na ordem de US$12 mil/ano. Isso faz com que surjam vagas de serviços pouco qualificados. Nos últimos tempos o comércio tem se notabilizado como o motor dinâmico da economia, o que é preocupante, pois crescer baseado em consumo inviabiliza a formação de poupança, o que implica baixa capacidade de investimento da economia, considerado um grande entrave ao crescimento sustentado no longo prazo.

Quem você acha que adiciona mais valor à economia, o desenvolvedor que faz um novo software para gerenciar aplicativos no smartphone ou o vendedor de TV de plasma (importada) das casas Bahia? Essa é a diferença dos empregos criados aqui e lá.

E chegamos à pergunta que não quer calar, porque então o Brasil está passando por uma desindustrialização tão precocemente? A minha tese é que alguns dos fatores condicionantes deste processo (vou listá-los) são subprodutos das medidas de combate a inflação que ocorrem desde a segunda metade da década de 80. A experiência inflacionária brasileira foi tão traumática que motivou políticas severas e duradouras, e talvez seja o momento de afrouxá-las um pouco.

Esses fatores condicionantes, bastante interligados entre si, são:

1) Taxa de juros muito elevada. Desde os anos 90 os juros brasileiros são os maiores do mundo (o governo Dilma está fazendo esforço para diminuí-los, mas ainda são bem elevados). Os juros são altos em parte para conter a inflação, em parte porque o governo precisa fazer rolar sua dívida, e faz isso através de títulos do tesouro, e em parte porque a acumulação de poupança no Brasil é muito baixa, o que empurra os juros para cima.

2) Excessiva valorização cambial. Isso ocorre devido a 2 fatores: os já citados juros altos, que provoca elevada entrada de divisas no país, e também por causa da grande vantagem comparativa do país na produção e exportação de commodities e bens primários, o que gera expressiva entrada de moedas conversíveis no país. Esse aporte de moedas estrangeiras valoriza o real, deixando os produtos nacionais mais caros e os produtos estrangeiros mais baratos, o que prejudica outros setores. Valorização cambial também ajuda no combate a inflação (pelo lado dos custos).

3) Custo Brasil. Há duas maneiras de melhorar a competitividade de uma indústria: reduzindo custos de produção ou melhorando a qualidade dos produtos ofertados. Pelo lado dos custos a situação é bastante complicada para o empresário brasileiro: estrutura tributária ineficiente, excesso de burocracia, inadequada infra-estrutura de transporte, energia e telecomunicação, além dos já citados juros altos, elevam os custos dos investimentos, exigindo taxas de retorno maiores, e quando não possíveis, inviabilizam projetos industriais.

4) Falta de capacitação técnica e de investimento em P&D. Por outro lado, só há um jeito de melhorar a qualidade dos produtos ofertados: capacitação, empreendedorismo e inovação. Isso só será possível através de pesados e maciços investimentos em educação (isso já até virou clichê), além de fortes estímulos à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). O número de patentes registradas no Brasil é ínfimo.

Quando digo que podemos afrouxar algumas políticas anti-inflacionárias, estou falando de juros e câmbio. É possível reduzir os juros e manter a inflação baixa, desde que a taxa de poupança aumente bastante (comento mais adiante), e para isso é preciso romper com essa lógica de estimulo ao consumo para crescer. Uma diminuição, mesmo que não seja drástica, do déficit público poderia auxiliar nesse processo. Pelo lado do câmbio, temos que aceitar uma realidade: dumping cambial (desvalorização proposital da moeda nacional) existe, e países como China e Índia usam e abusam desse artifício. Até mesmo os Estados Unidos, paladinos do livre mercado, estão emitindo dólares com a intenção de desvalorizar sua moeda e incentivar as exportações. Não estou defendendo um câmbio completamente fixo, mas intervenções pontuais com objetivo bem definido seriam bem vindas.

Mesmo com essas medidas ainda é possível se indagar se o Brasil não é demasiadamente rígido no controle inflacionário. Claro que ninguém quer que a hiperinflação dos anos 80 volte, mas há 18 anos que a nossa inflação fica na casa de um dígito, e não acho que seria tão preocupante ela desgarrar um pouco mais se isso significar um crescimento consistente do produto.

É necessário ainda, chamar a atenção para a formação de poupança. Um nível alto de poupança ajuda a derrubar os juros de duas maneiras: (1)mais poupança significa mais oferta de investimento, forçando seu preço (os juros) para baixo;(2)a ausência de poupança interna obriga o país a se socorrer com poupança estrangeira, então juros altos são necessários para atrair investidores internacionais. Quanto mais poupança interna, menos o país terá que se socorrer externamente, e menor poderão ser os juros.  Com juros menores os vultuosos investimentos para suprir os gargalos de infra-estrutura serão mais viáveis, e muitos empreendimentos serão mais acessíveis. Mas hoje, a cada mínimo solavanco da economia, o governo anuncia um pacote de estimulo ao consumo para voltar a crescer. Precisamos para com isso e incentivar a formação de poupança. Na China, a taxa de poupança em relação ao PIB está na casa dos 40%, e é por isso que eles conseguem fazer tanto investimento. A relação poupança/PIB brasileira é de 17%.

Por fim, podemos citar reforma tributária (ela mesma), redução da burocracia, reforma educacional e investimento em P&D, como outros pilares fundamentais à retomada da indústria e do desenvolvimentismo brasileiro.

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