quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Crise Europeia Explicada


Depois da consolidação do mercado comum europeu nos anos 90, bem como a criação do Euro na década seguinte, a Europa parecia madura para fazer frente aos Estados Unidos tanto economicamente quanto politicamente, num sistema que promovia bem estar social juntamente com eficiência econômica.  No entanto, a crise dos PIGS (PIIGS), e posteriores crises da zona do Euro e européia, colocaram fogo nesse sonho. Este texto pretende explicar com mais profundidade esta crise e suas conseqüências no Brasil.

Preâmbulo
A Segunda Guerra Mundial deixou como legado um mundo bipolarizado entre EUA e URSS, e o enfraquecimento das potências europeias, que haviam dominado o mundo num passado não tão distante. Nesse cenário, nos anos 50, surgiu um movimento de integração da comunidade européia, pois já começava a haver o entendimento de que sozinhos não teriam forças para encarar aqueles gigantes. A derrocada dos soviéticos anos mais tarde mostrou que estes não eram uma ameaça tão grande como aparentavam, mas os estadunidenses continuaram olhando o mundo de cima pra baixo, e de binóculo.

Aos poucos a comunidade européia foi se desenvolvendo até atingir seu clímax em 1992 com o Tratado de Maastricht, que criava obrigações fiscais comuns, política externa conjunta, um tribunal europeu e um mercado comum europeu. Surgia assim a União Européia. A livre circulação de insumos, mercadorias e mão-de-obra gerou um grau de integração nunca antes visto, o que foi economicamente muito proveitoso para os países membros. Porém ainda havia descompassos entre as economias dos países que atravancavam o desenvolvimento do bloco, como diferenças relevantes nas taxas de inflação e nas taxas de juros. Mais que isso, suas moedas não passavam nem perto de fazer frente ao dólar como padrão monetário internacional. A solução encontrada, já projetada pelo Tratado de Maastricht, entrou em vigor em 1 de janeiro de 2002, era a criação de uma moeda única, o Euro.

Trade-off Estabilidade X Desenvolvimento
Antes de prosseguir preciso fazer uma breve explanação sobre política fiscal, monetária e cambial em países desenvolvidos e em desenvolvimento. Como sabemos, inflação alta é ruim, pois dificulta o investimento, aumenta as taxas de captação de recursos externos, reduz a oferta de crédito, corrói os ganhos das empresas e dos trabalhadores, entre outros, e por isso, de maneira geral, os governos se esforçam para evitá-la. Um jeito bastante eficiente de fazer isso é dar o máximo de autonomia ao Banco Central, fazendo que seu único objetivo seja resguardar o valor da moeda, independentemente das conseqüências sociais disso. O problema é que em economias em desenvolvimento, que não possuem tanta capacidade técnica e tecnológica e por isso não possuem grande produtividade, essa política monetária ortodoxa pode levar a uma diminuição da atividade econômica e até mesmo à estagnação, gerando também desemprego (o velho trade-off entre inflação e desemprego) e redução de bem-estar social.

Economias periféricas também não gostam de inflação, mas precisam fazer sua economia crescer e gerar bem-estar, e na impossibilidade de aumentar sua produtividade ao nível dos países desenvolvidos no curto prazo, essas economias recorrem à senhoriagem e ao câmbio defensivo. Na prática o primeiro mecanismo promove investimento e benefícios sociais através da emissão de moeda (inflação) e o segundo consiste em inflacionar propositalmente sua moeda para que ela se desvalorize e suas mercadorias fiquem mais competitivas no mercado internacional. A vantagem desses mecanismos é que gera desenvolvimento sem gerar divida.

Enquanto os países desenvolvidos geralmente optam pela estabilidade, pois já tem eficiência produtiva, as economias em desenvolvimento vêem-se constantemente diante de um dilema, tendendo hora para um lado, hora para outro.

A Crise dos PIGS (PIIGS)
O Euro surgiu como moeda escritural em 1 de janeiro de 1999 e como moeda física em 1 de janeiro de 2002, e efetivamente ampliou ainda mais o grau de integração entre os países da zona do Euro, além de realmente ter se mostrado uma opção ao dólar como padrão monetário internacional. Atualmente a zona do Euro conta com 17 países, mas 5 deles (Eslovênia, Chipre, Malta, Eslováquia e Estônia) entraram recentemente, com o mundo já em crise, e portanto não fazem parte da historia dessa crise, que tem como protagonistas os outros 12 países que aderiram ao Euro desde o inicio (Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Portugal e Grécia).

Para nós brasileiros, quando nos deparamos com este grupo de 12 países pensamos neles simplesmente como países desenvolvidos, o que não está errado, mas a verdade é que há diferenças sensíveis entre eles, sendo uns mais desenvolvidos que outros. De maneira grosseira poderíamos separar os países em dois grupos, o primeiro, dos países com grande eficiência e competitividade seria composto por Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, Holanda e Luxemburgo, e o segundo, de países menos eficientes e menos competitivos composto por Espanha, Itália, Portugal, Irlanda e Grécia. A França é um caso a parte, de difícil classificação, mas que se aproxima mais do bloco dos eficientes.

Antes do Euro, novamente fazendo uma aproximação grosseira, podemos dizer que o grupo encabeçado pela Alemanha manteve política monetária e cambial ortodoxa, enquanto o grupo encabeçado pela Espanha transitava entre a ortodoxia e a heterodoxia. Porém a criação do Euro obrigava esses países aderirem a uma política monetária e cambial única.

Como exigência alemã, pais mais forte da região, e aval dos outros países, o Banco Central europeu deveria ter viés semelhante ao do Bundesbank, ou seja, extremamente ortodoxo. Dessa maneira, os países membros abriram mão de sua autonomia com relação à moeda e ao câmbio e receberam em troca taxas de inflação extremamente baixas.

Sem câmbio e sem emissão de moeda, a única política econômica que restava nas mãos dos governos era a fiscal. Na verdade, na teoria, até mesmo a política fiscal deveria ser engessada, pois o Tratado de Maastricht determinava que o déficit fiscal dos países membros não poderia ultrapassar 3% do PIB e a relação dívida/PIB não poderia ser maior que 60%. O problema é que não havia (e não há) nenhuma instituição supranacional para supervisionar e punir, caso necessário, os países que andassem fora da linha. Caso fosse seguido à risca o Tratado de Maastricht, esses países da periferia da zona do Euro teriam que reduzir os benefícios sociais, fazer menos investimento e encarar taxas de crescimento menos animadoras, mas o que o aconteceu foi exatamente o oposto: aumento de benefícios, investimento e crescimento.

A adesão ao Euro fez esses países periféricos se depararem com uma situação nova: seus títulos do tesouro agora valiam tanto quanto títulos do tesouro alemão. Ou seja, a oferta de credito era muito maior e as taxas de captação de recursos muito menores. Veja, uma quantidade nunca antes imaginada de crédito se abriu para esses países, sendo essa a única área que eles ainda tinham alguma autonomia. O resultado foi o financiamento de avanços econômicos e sociais através de sucessivos déficits fiscais e aumento da dívida. Um fenômeno que contribuiu para essa explosão da divida foi à migração proveniente de países do leste europeu, como Macedônia, Albânia, Romênia, etc., para esses países periféricos da zona do Euro, que não tinham experiência com essa situação e acabaram acolhendo muita gente. Num mundo em expansão é fácil fazer rolar sua dívida, pegando cada vez mais, principalmente se você remunera sua dívida com moeda forte (o Euro) e títulos “seguros” (na verdade os títulos não tinham lastro, estavam apenas pegando carona na credibilidade de países como Alemanha, Holanda e Finlândia), mas com um mundo em crise...

A partir de 2007 os ativos podres do subprime e o estouro da bolha imobiliária começavam a vir tona, e uma possível crise começava a preocupar os investidores, que costumam ser mais conservadores em tempos de crise.  No inicio de 2008 a revista inglesa The Economist trazia uma matéria de capa sobre um grupo de países que a revista chamava de PIGS. A palavra, porcos em inglês, fazia alusão ao fato de os países estarem altamente endividados (sujos, de certa forma), e é formado pela inicial dos quatro países que formavam esse grupo: Portugal (Portugal), Irlanda (Ireland), Grécia (Greece) e Espanha (Spain). Segundo a revista esses países teriam grandes problemas com a escassez de crédito que se avizinhava. O tempo mostrou que a previsão era correta, e que na verdade a Itália também fazia parte desse grupo de países altamente endividados, e foi criado o termo PIIGS.

Com o inicio da crise os investidores correram para resgatar seus títulos, o que não podia ser feito, pois como foi dito, os títulos dos PIIGS não tinham lastro. Diante da situação há três opções para esses países:

Calote: Não pagar a dívida é o pior dos mundos, pois certamente geraria isolamento do mercado internacional e escassez de crédito pelas próximas décadas.

Abandono do Euro: Geraria desconfiança do mercado internacional e conseqüente aumento dos juros, além de colocar uma pá de cal no sonho de uma Europa integrada. Sem contar que o financiamento de uma dívida dessa magnitude com emissão de moeda geraria um terrível choque inflacionário.

Choque de Ortodoxia: Cortar benefícios e serviços públicos, aumentar impostos, encarar estagnação econômica e desemprego.

Crise da Zona do Euro e Européia
Falemos agora dos países eficientes da Zona do Euro. Para esses o Euro foi extremamente positivo, com o aumento da integração entre os países europeus eles aumentaram muito suas exportações e conseguiam insumos a um custo muito menor. Para esses países é muito ruim que os PIIGS entrem em recessão, pois estes têm importância fundamental nas pautas de exportação daqueles.

Mas mais grave do que isso é que os principais credores dos PIIGS são justamente os países eficientes da zona do Euro, com destaque para Alemanha e França. Portanto para eles seria péssimo um calote, ou mesmo o abandono do Euro (primeiro porque perderiam parceiros comerciais, e segundo porque receberiam moeda fraca, sem liquidez internacional e em constante desvalorização). Nesse cenário o mais interessante seria se os PIIGS adotassem as tais políticas ortodoxas, mas para isso seria necessário aprovar ajuda financeira a esses países, o que implica que países como Alemanha e França também adotem políticas ortodoxas para ajudar a pagar a conta. E dessa maneira a crise deixa de ser só dos PIIGS e passa a abranger toda a Zona do Euro. As mesmas relações de causa e efeito podem ser aplicadas, em menor grau, ao conjunto dos países da União Européia, fazendo desta uma crise européia.

Por enquanto os países endividados estão aplicando as políticas de austeridade fiscal, mas há risco real de calote ou de abandono do Euro. No campo político não há uma tendência dos europeus à esquerda nem à direita, há uma tendência pela mudança de governo. Nos últimos 3 anos países que tinham governos liberais trocaram por governos conservadores, e países que tinham governos conservadores trocaram por governos liberais. Angela Merkel é uma das únicas que consegue se manter no governo, mas balança. A crise também fortaleceu um velho fantasma que ronda a Europa, o neonazismo.

No Brasil
Deste lado do Oceano Atlântico, o Brasil também foi influenciado pela crise. Nosso país, grande exportador de alimentos e commodities, e que tem nesses produtos a maior parte de sua pauta exportação, viu suas exportações diminuírem de maneira substancial devido à redução das importações européias. Porém, esse efeito não foi tão relevante pois a demanda chinesa segurou o preço das commodities e sustentou a oferta brasileira.

Outro efeito importante foi a fuga de capitais da Europa, procurando um investimento mais seguro e com boa rentabilidade, e os títulos do tesouro brasileiro caem como uma luva nesse sentido. Esse fenômeno fez com que o câmbio brasileiro se apreciasse tempos atrás.

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