Um
aumento de vinte centavos na tarifa do transporte público abriu a caixa de
pandora e milhões de pessoas em todo o país tomaram as ruas numa das mais
relevantes serie de manifestações da historia do Brasil. Entender e interpretar
o momento histórico é complicado, mas farei minha leitura dos acontecimentos
até agora (com uma grande chance de mudar de opinião).
A Pauta
Chovendo no molhado: não foi por 20 centavos, apesar de está ter sido a pauta
inicial dos protestos. Mas também não foi por causa da PEC 37, nem por causa dos gastos
da Copa, nem por causa da corrupção, nem por causa da cura-gay, apesar de estes
terem sido pautados nas manifestações. O brasileiro foi pra rua reivindicar
voz. A multidão invadiu as principais avenidas do Brasil porque não se sente
representada.
O grito de “sem partido!” talvez tenha sido o mais emblemático das
manifestações pois escancara que nosso sistema de representação falhou em
representar os anseios da população, e isso ocorre principalmente porque a
vanguarda política (os partidos) falhou em sua tarefa de representar as
ideologias (as razões para isso eu discuto no post Porque o Pluripartidarismo Prejudica o Pluralismo Ideológico
no Brasil de 11/2012, pra quem quiser procurar). A raiva direcionada às agremiações
partidárias é tanta que a manifestações que começaram apartidárias se tornaram
anti-partidárias em certo momento.
É evidente que precisamos não só de partidos, mas de qualquer tipo de
instituição política organizada para organizar as pautas e as reivindicações,
tornando-as mais coesas, o que ocorre é que nossas instituições políticas
precisam se portar como legítimos representantes das idéias e dos anseios
populares. Como podem ver, na minha visão a pauta principal deveria ser a da reforma
política (pelo visto o governo teve a mesma leitura), onde devem ser tratadas
questões como voto ao legislativo em dois turnos, fim do quoeficiente eleitoral, entre outras
medidas que afastem os parlamentares de seus financiadores e os aproxime de
seus eleitores, e que também estimule a valorização das ideologias.
O Gigante Acordou?
Os brasileiros estão acordando já há algum tempo, haja visto o aumento do
numero de manifestações e relevância destas nos últimos anos, além do grau
politização da população que vem aumentando paulatinamente. Mas ainda estamos
longe do ideal.
Foi muito comentado que faltou foco nas manifestações, e faltou mesmo, havia de
fato muitas reivindicações despolitizadas. Mas é o que temos para hoje, não dá
pra exigir um alto grau de politização da noite pro dia. Eu vi muita gente
chamando esses despolitizados de “coxinha”, iniciaram o movimento #saidarua,
entre outros sarcasmos, o que na minha visão é um erro. Estamos vivendo um
momento impar, onde tem muita gente interessada em entender mais sobre política
e sobre os problemas do país, e o recado que está sendo passado para essas
pessoas é “você é um coxinha e isso não é pra você!”. Ao contrário, esse é o
momento dos grupos politizados exporem suas ideologias chamando os despolitizados
para compor seus grupos também!
Legado
Geração acomodada? Povo passivo? Brasileiro só liga pra futebol? Protesto
não adianta nada? Os acontecimentos das últimas semanas desafiam a lógica e
vários axiomas da nossa sociedade. O êxito dos protestos pode despertar em nós o
que os mexicanos chamam de “si, se puede”. Sim, nós podemos exigir direitos,
nós não somos meros reféns do sistema.
O momento é tão complexo que nem nome tem ainda. Uns chamam de Revolução dos 20
Centavos, outros de Revolta do Vinagre, mas o que eu mais gosto é Movimento Vem
Pra Rua, porque no fundo é disso que se trata.
Excelente, soneca. Fiz uma leitura muito parecida com a sua! Tenho um certo receio em relação aos fatos que vão seguir, mas de toda forma, até agora tem sido positivo.
ResponderExcluir