Hoje gostaria de comentar o excesso de respeito com relação à religião. Não, você não leu errado, é respeito mesmo. É incrível como a fé e a religião são blindadas de criticas e como as maiores barbaridades são cometidas sob o pretexto da liberdade de culto.
Vou começar citando um caso que aconteceu há algumas semanas, e me chamou a atenção. Uma mulher muçulmana foi impedida de prestar a prova teórica do DETRAN pois se recusou a retirar o véu (o islamismo não permite que mulheres apareçam descobertas em público), e é proibido fazer a prova de cabeça coberta. Após o ocorrido a mulher acusou o DETRAN de discriminação religiosa, o caso teve algum destaque na imprensa, boa parte da opinião pública se manifestou favorável a mulher, o DETRAN se desculpou e deixou a mulher fazer a prova de véu num outro dia. Eu posso estar muito louco, mas discriminação foi deixar a mulher fazer a prova com o véu! Se a lei diz que não se pode fazer a prova com a cabeça coberta, então ninguém pode fazer a prova com a cabeça coberta!
Um exemplo clássico que mostra como a religião é tratada com privilégios é o famigerado chá de Ayahuasca. Como se sabe, drogas psicotrópicas (que afetam o sistema nervoso) são proibidas no Brasil, incluindo o chá citado, mas existe uma exceção: o chá está liberado para uso em rituais religiosos. Há muitos anos médicos reivindicam que a cannabis sativa fosse liberada para fins medicinais, pois já é comprovado que esta alivia náusea e desconforto de doentes com câncer submetidos a quimioterapia. Cientistas gostariam que outras ervas fossem liberadas para poder estudar suas propriedades. Medicina e a ciência não são suficientes para comover nossas autoridades, mas basta uma seita alegar fins religiosos, e pronto! Ta liberado! (mas só pra este fim).
Imagine se os integrantes de uma sociedade apreciadora de arte alegassem à Justiça que acreditam precisar de um alucinógeno para aumentar sua compreensão de quadros impressionistas ou surrealistas. Seriam ridicularizados, certo? Então, por quê o mesmo argumento é plausível só porque falamos em religião?
Um cientista que pretende fazer experimentos com animais tem que atender um serie de requisitos, bastante rígidos, para evitar que o animal seja torturado e exposto a grande sofrimento, o que eu acho corretíssimo. Mas você sabia que no Rio Grande do Sul foi sancionada uma lei que permite que animais sejam torturados e mortos em rituais religiosos, e que outros estados têm projetos de lei semelhantes?
Isso é muito interessante, tortura de animais, em qualquer outro contexto é crime, mas dentro do contexto religioso é aceitável.
Outro exemplo clássico: dizimo em igrejas evangélicas. Pastores induzem os fieis a doar quantias enormes, prometendo um terreno no céu, a salvação do inferno, prosperidade na vida, entre outras coisas. Se aproveitam da boa vontade de pessoas pouco instruídas, coagindo-as com a possibilidade do fogo eterno e da desaprovação de deus. Existem vários casos de pessoas que se endividaram para doar para a igreja. Isso em outro contexto seria facilmente classificado como extorsão, mas estamos falando de religião, então pode.
O interessante é que basta a igreja ou seita alegar que “acreditam” e pronto, ninguém contesta. Não precisam fornecer provas.
Um caso especialmente revoltante pra mim, é o de pastores e pastoras mirins. Crianças de três, quatro, cinco anos berrando, fazendo pregação de coisas que elas sequer têm idade pra entender. Fora de um contexto religioso isso seria caso pro conselho tutelar tirar a guarda da criança, mas não, elas estão falando de Jesus, então tudo bem.
Lógico que esses são casos extremos, mas, via de regra, nós somos doutrinados desde a infância. Se você ouvir que uma criança de 6 anos é esquerdista, isso certamente lhe causara estranheza, ainda mais se ela começar a discorrer sobre a desigualdade social no Brasil. Você pensaria, com razão, que os pais dessa criança encheram a cabeça dela de coisas que ela não tem idade suficiente para entender e tirar suas próprias conclusões, que houve uma doutrinação política clara. Se uma criança da mesma idade se diz neoliberal e manifesta-se favorável ao mercado livre, sem barreiras alfandegárias, isso também soaria absurdo. Mas então, por que quando uma criança da mesma idade se diz católica, e conta uma parábola de Jesus, a maioria das pessoas acha normal, ou até mesmo bonito?
Crianças de 6 anos não têm maturidade para ter uma opinião sobre política, nem sobre economia e muito menos sobre religião. Esse é mais um exemplo de como somos brandos com a religião, qualquer tipo de doutrinamento é abominável, exceto o doutrinamento religioso.
Como reflexo desse doutrinamento, nós crescemos achando que falar e questionar credos é um tabu. Você pode (e deve) questionar tudo: a política ambiental, o aumento dos juros, a nova descoberta cientifica, mas quando se fala de fé, questionamento é confundido com falta de respeito. Dizer que a bíblia é um livro da Era do Bronze e não deve servir como base moral da sociedade contemporânea não é desrespeitar, principalmente porque boa parte deste livro repulsivo de acordo com a moralidade atual (escravidão, assassinatos, vingança, incestos, genocídios, etc.). Argumentar que, com o conhecimento cientifico que se tem hoje, acreditar que uma virgem deu a luz ao filho de deus é um absurdo não é desrespeitar. Desrespeitar é agredir alguém só porque ele tem certa crença, ou então entrar no meio da missa dizendo que deus não existe.
Mas principalmente, cumprir o que determina a lei não é desrespeitar a crença. Se a sociedade considera que torturar e matar animais, usar drogas psicotrópicas ou extorsão são crimes, então que isso valha para todos e em todos os contextos, incluindo o religioso.
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