
Nas ultimas semanas noticias sobre um racha no Clube dos 13 e a renovação dos direitos de transmissão dos jogos do brasileirão tem movimentado o futebol brasileiro. Para entender melhor o que é o Clube dos 13, pra que serve, e quais os interesses envolvidos, é necessário uma recapitulação histórica.
Na década de 1980 houve uma revolução no mundo da bola. Os clubes europeus finalmente perceberam que tinham um negocio multimilionário nas mãos, e que a maior parte lucro ficava com as federações, pois estas organizavam e geriam os campeonatos. Desta forma os principais clubes do continente se uniram e colocaram a UEFA contra parede: ou a federação européia permitia uma fatia maior nas quotas de TV e patrocínio dos campeonatos europeus aos clubes, ou os clubes boicotariam os campeonatos. A UEFA, sem saída, cedeu, afinal eram os clubes que faziam o show.
Pouco depois, na virada dos anos 80 para os 90, essa revolução aconteceu domesticamente e até se aprofundou: organizações criadas pelos clubes, as ligas, substituíram as federações nacionais na organização e gerenciamento dos campeonatos. Dessa forma surgiram a Premier League na Inglaterra, La Liga na Espanha, a Bundesliga na Alemanha, entre outras, deixando a cargo das federações apenas o comando das seleções nacionais.
Tais conquistas proporcionaram um aumento vertiginoso na receita dos clubes europeus a partir de então. No Brasil esse movimento teve forte repercussão. Liderado por uma rara geração de bons dirigentes, os principais clubes do país, cansados da má organização do campeonato brasileiro pela CBF, resolveram se unir e formaram o Clube dos 13 em 1987 (ou seja, 5 anos mais velho que a liga mais rica do mundo, a Premier League). O C13 era formado por Atletico-MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco. Seu intuito inicial era substituir a CBF e organizar o campeonato nacional dali em diante, e assim foi feito em 87, com a polêmica Copa União. A validade ou não desse torneio é um assunto complexo, e não cabe aqui discutir. O fato é que o torneio aconteceu e a CBF estava vendo seu poder se reduzir à seleção nacional.
Em um primeiro momento a CBF fez inúmeras concessões ao C13, com a finalidade que o campeonato voltasse para suas mãos, pelo menos temporariamente, e foi o que aconteceu. Em seguida, Ricardo Teixeira (que viria a se tornar presidente da CBF a partir de 89) e outros dirigentes da entidade usaram seu poder político para amansar os clubes. Aos poucos Teixeira conseguiu colocar homens de confiança no comando de clubes de grande expressão, ajudando-os a se perpetuar no poder . Essas personalidades ficaram conhecidas como “os ditadores do futebol brasileiro”. São eles: Mustafá Contursi no Palmeiras, Marcelo Teixeira no Santos, Zezé Perrela no Cruzeiro, Paulo Maracajá no Bahia, Alberto Dualib no Corinthians, Eurico Miranda no Vasco, Roberto Horcades no Fluminense, entre outros. Esses “ditadores” comandaram direta ou indiretamente esses clubes desde aquela época, muitas vezes priorizando interesses pessoais e escusos, e só começaram a sofrer derrotas políticas recentemente.
Com aliados na presidência da maioria absoluta dos clubes membros do C13, Ricardo Teixeira conseguiu articular vitorias dentro deste, e desde o inicio dos anos 90 até 2010, o candidato à presidência do C13 indicado pela CBF sempre foi o vencedor. Assim a autonomia do C13 diminuiu, se tornando um fantoche nas mãos de Ricardo Teixeira, que conseguiu frear a revolução que os clubes propunham, nos mesmos moldes do que aconteceu na Europa. Isso explica, em parte, o gigantesco aumento no êxodo de jogadores a partir de então (que já ocorria antes, mas não na mesma intensidade), já que os europeus melhoraram muito sua situação financeira, enquanto os brasileiros ficaram parados no mesmo lugar.
Com o passar dos anos Ricardo Teixeira conseguiu mais um importante aliado: Marcelo Campus Pinto, principal executivo da Globo Esportes (departamento da emissora que cuida dos programas esportivos). Por um lado a CBF concede regalias à Globo, entrevistas exclusivas, intercede em favor da emissora na FIFA pela venda dos direitos de transmissão das Copas, e principalmente, facilita a venda dos direitos de transmissão dos campeonatos nacionais, através de seu fantoche, o C13. Do outro lado, o jornalismo da Globo se cala sobre a CBF e Teixeira. Se calou sobre a CPI da CBF, se calou sobre o nepotismo na CBF, se cala sobre as falcatruas de Teixeira nas obras da Copa 2014, entre muitas outras. E é sabido o poder de profusão de informação da emissora da família Marinho, se a noticia não passa no JN, não é uma noticia consolidada, principalmente porque as outras emissoras têm medo de enfrentá-la (a Record tem mudado isso nos últimos anos). Marcelo e Ricardo são, inclusive, amigos pessoais hoje em dia.
Durante esse período Teixeira teve dois ferrenhos opositores: O São Paulo e o Flamengo (Ricardo Teixeira conseguiu colocar Kleber Leite no comando do Flamengo, mas por apenas 3 anos). Juntos eles foram os dois principais idealizadores do C13, e os principais defensores de um C13 mais autônomo, tentaram por diversas vezes articular uma vitoria sobre o candidato de Teixeira, mas sempre fracassavam. Até 2010. Ano passado a conjuntura política do futebol brasileiro havia mudado consideravelmente, vitorias importantes, como a queda de Mustafá Contursi no Palmeiras e de Eurico Miranda no Vasco, haviam acontecido. Com isso Patrícia Amorim e Juvenal Juvêncio lideraram a oposição e conseguiram derrotar Kleber Leite, candidato da CBF à presidência do C13. A primeira derrota de Teixeira em muitos anos.
É ai que começa a grande polêmica. A mudança mais notada nessa nova administração foram as novas regras para licitação dos jogos do Brasileirão. Antes, qualquer oferta de uma emissora era apresentada a Globo, que se pagasse uma quantia igual ficaria com os direitos de transmissão, sem possibilidade de contra proposta por parte da outra emissora, o que inibia a concorrência e a Globo pagava uma ninharia sempre. Pelas novas regras, as emissoras interessadas devem colocar suas propostas dentro de envelopes, que serão abertos juntos, a maior proposta ganha. Atualmente a Globo paga R$ 200 milhões por ano, o lance mínimo imposto pelas novas regras é de R$ 500 milhões por ano, ou seja, um aumento de 150%, e ainda assim 5 emissoras (de TV aberta – Globo, Record, SBT, Band e RedeTV) se mostraram interessadas na licitação, um recorde, o que mostra claramente como as regras anteriores inibiam a concorrência. E esse é o valor mínimo, numa disputa com 5 emissoras esse valor poderia crescer ainda mais, segundo informação apurada pelo jornalista Paulo Vinicius Coelho, a Record estaria disposta a pagar R$ 1 Bilhão pelos direitos de transmissão.
Esse realmente seria um marco no futebol brasileiro, mas, como era de se esperar, Ricardo Teixeira não ficou inerte. Voltemos um pouco no tempo, logo após derrota sofrida por seu candidato a presidência do C13, o cartola agiu rápido e colocou em pratica um plano ardiloso. Primeiro demonstrou autoridade, e nos dias seguintes à derrota no C13, Teixeira (que inexplicavelmente é o chefe da comissão organizadora da Copa 2014, coisas de Brasil) anunciou que o Murumbi estava fora da Copa, e dessa forma castigou o São Paulo. A parte seguinte do plano tem há ver com a taça das bolinhas. A taça das bolinhas é uma taça instituída em 1971, que deveria ser entrega ao primeiro clube que fosse campeão brasileiro 3 vezes seguidas ou 5 alternadas. O Flamengo se diz o legitimo dono dessa taça desde 92, porém a CBF não reconhecia o titulo de 87 (a Copa União), o que abria a possibilidade de um o outro clube vencer 5 vezes e conseguir taça, gerando uma grande polêmica. Por ironia do destino esse clube foi o São Paulo, o maior aliado do Flamengo, e Ricardo Teixeira soube usar isso a seu favor. Pouco mais de uma semana depois da derrota no C13, a CBF anunciou que o dono da taça das bolinhas era o São Paulo (a entidade não tinha se pronunciado sobre o assunto desde que o clube ganhou seu quinto titulo, em 2007), castigando o Flamengo, e incitando a discórdia entre os dois aliados. Após o anúncio oficial, a Caixa Econômica Federal, onde estava guardada a taça das bolinhas, diz que esta precisa de uma restauração, e será entregue em alguns meses.
Ainda em 2010, Ricardo Teixeira castigaria São Paulo e Flamengo mais uma vez ao reconhecer os títulos da Taça Brasil e do Robertão. Como já escrevi no blog, eu considero o reconhecimento justo, mas ele aconteceu pelo motivo errado. Antes Flamengo e São Paulo eram considerados os maiores campeões brasileiros, pela “nova” contagem, Palmeiras e Santos passam a frente. Teixeira esteve 21 anos a frente da CBF, por que foi reconhecer esses títulos só agora?
Outro personagem importante nessa historia é Andrés Sanchez, o lacaio. Sanchez, como se sabe, foi um grande entusiasta de seu predecessor, Alberto Dualib, e só mudou de lado na iminência da saída do “ditador”. Porém, mal assumiu a presidência do Corinthians e já se tornou o maior aliado de outro “ditador”, Ricardo Teixeira.
Ambos vêm trocando favores a um bom tempo, e Sanchez já é, inclusive, o mais cotado para a presidência da CBF quando Teixeira sair para tentar a presidência da FIFA. Foi até o chefe da delegação da seleção brasileira na Copa 2010. Ricardo Teixeira também soube agradecer, aprovando o projeto de estádio do Corinthians para a Copa sem ao menos ver o projeto (como o próprio Andrés afirmou).
Depois da derrota do candidato da CBF no C13, Andrés Sanchez disse à imprensa que a instituição não servia pra nada e deveria acabar. Em seguida tentou reorganizar a situação que havia virado oposição, e conseguiu. Nos últimos meses Andrés vêm criticando as novas regras de licitação dos direitos de transmissão, dizendo que as cotas de TV são importantes, mas o dinheiro do patrocínio também é, e prefere expor seus parceiros na Globo, porque tem uma audiência maior, e portanto a emissora carioca deveria sim ter preferência na licitação. Como se o torcedor fosse deixar de ver o jogo do seu time só porque vai passar na Record e não mais na Globo.
Pois bem, faltando cerca de dez dias para o inicio da licitação o São Paulo recebe da Caixa Econômica Federal a taça das bolinhas, e faz uma grande festa, chamando a imprensa, o que gerou novas discussões e átrios com o Flamengo. Mostrando o quão imbecil e infantil é Juvenal Juvêncio.
Dois dias antes do inicio da licitação a CBF anuncia que reconhece o titulo brasileiro de 87, do Flamengo, e que portanto este é o legitimo dono da taça das bolinhas, isto menos de um ano depois de afirmar categoricamente que o São Paulo era o dono. Os desentendimentos entre São Paulo e Flamengo pegam fogo, o que fortalece a oposição. O Corinthians de Sanchez inicia o motim e anuncia que está fora do C13. O Flamengo devido ao desentendimento muda de lado junto com o Fluminense, se unindo a Botafogo e Vasco, e anunciando sua saída em conjunto, logo em seguida os outros times da oposição fazem o mesmo.
Esses que saíram anunciam que vão negociar separadamente, o que é terrível pro futebol brasileiro, pois diminui muito a quantia que cada clube receberá de cota de TV. Se por exemplo, o Corinthians vender seus direitos para a Globo, e o São Paulo para RedeTV!, o clássico entre os dois times não poderá ser transmitido por nenhuma emissora, nem se as duas estiverem em comum acordo, porque o CADE não permite. Por isso é sempre bom negociar em conjunto.
No final das contas a única emissora que mandou proposta para o C13 foi a RedeTV!, um pouco mais que o mínimo, R$ 516 milhões, bem abaixo do que poderia ser, mas mais de 150% maior que o valor recebido atualmente, porém a está altura o C13 já não tem mais autonomia para negociar pelos clubes. A tendência é que a Globo consiga negociar em particular com os clubes, sendo bem mais generosa com aliados que ajudaram a manter seus privilégios de negociação.
O futebol brasileiro perdeu uma grande chance nessa licitação, e a culpa não é só de maus dirigentes como Ricardo Teixeira e Andrés Sanchez, mas também dos patéticos Juvenal Juvêncio e Patrícia Amorim, que jogaram por terra uma vitoria histórica por causa de uma taça sem valor nenhum como a das bolinhas.
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