
Por incrível que possa parecer, a Copa América desse ano está valorizada como há muito tempo não acontecia. A primeira razão disso é que a Argentina, que não ganha um título oficial com sua seleção principal há 18 anos, conta com o atual melhor jogador do mundo, Messi, e jogará em casa para tentar quebrar esse tabu. A expectativa entre o porteños é tão grande que os ingressos para os principais jogos estão praticamente esgotados. Outro fator é que, já há algum tempo, a Copa América virou uma disputa particular entre Brasil e Argentina, mas essa edição promete ser diferente. Paraguai e principalmente o Uruguai, foram bem na Copa do Mundo ano passado. Os paraguaios venderam caro a passagem às semi-finais para futura campeã Espanha, e o Uruguai chegou entre 4 melhores, fez partidas duríssimas contra Holanda e Alemanha, e Forlan foi eleito o melhor jogador do torneio. Este ano o Peñarol foi finalista da Taça Libertadores, prova da recuperação do futebol uruguaio, que estava longe dos holofotes há algumas décadas. Por fim, tem o Brasil, que num primeiro momento pode parecer desinteressado no torneio (como sempre), uma vez que ganhou 4 das últimas 5 edições, mas, olhando por outra perspectiva, o Brasil tem uma geração de jovens talentos que ainda precisam provar seu valor, e quase ninguém tem vaga garantida, o que pode trazer uma boa motivação ao time, além disso, cá entre nós, ser tri-campeão seguido em cima da Argentina (o Brasil venceu a Argentina nas últimas duas finais), na casa deles, ia ser bom demais.
Porém esta postagem tem outro enfoque, ao invés de tentar explicar porque este ano o torneio está mais badalado, tentarei explicar porque normalmente a Copa América é tão desvalorizada. Como a Eurocopa consegue ter um status de quase Copa do Mundo, transmitida em 6 continentes, e a Copa América, que reúne um total de 9 títulos mundiais, não consegue ser importante nem mesmo para nós, sul-americanos.
A primeira razão para esse descrédito, eu acredito que seja a banalização dos títulos. Explico. A contagem oficial dos títulos atualmente é a seguinte: Argentina e Uruguai têm 14, Brasil tem 8, Paraguai e Peru têm 2, Colômbia e Bolívia têm 1. É muito título, isso banaliza a conquista e tira méritos dela. Como chegamos a essa contagem? Pois bem, 7 títulos foram de torneios amistosos ou eliminatórias mas mesmo assim valem como oficiais. O “Quadrangular do Centenário da Independência Argentina” (1916), o “Torneio Quarto Centenário de Santiago” (1941), o “Hexagonal Cidade de Guayaquil” (1959) e até mesmo as “Eliminatórias das Olimpíadas de 1936” (1935), todos valem como títulos oficiais. O detalhe é que só ganharam o status de oficial depois de muitos anos de terem ocorrido, devido ao poder político das seleções de Uruguai e Argentina. Sem eles a Argentina teria 11 títulos e o Uruguai teria 10. Mas não é só isso.
Também acho um equivoco a equiparação entre o antigo Sul-Americano de Seleções e a atual Copa América. Para explicar meu ponto de vista vou fazer um resumo da historia das duas competições.
O Sul-Americano de Seleções foi uma competição criada em 1917, e servia para suprir a necessidade de um campeonato continental já que um campeonato entre clubes era inviável. Portanto o Sul-Americano acontecia anualmente em uma sede fixa, sempre pelo sistema de pontos corridos (ou seja, uma Liga). O Campeonato aconteceu todos os anos até 1929. Em 1930 as confederações de Uruguai e Argentina romperam relações devido a um desentendimento com relação à final da copa do Mundo de 1930 (entre as duas seleções). O Sul-Americano seguinte só acorreu em 1937, depois das duas entidades reatarem. Porém, o torneio retornou sem a mesma força e era organizado em períodos irregulares (1937, 1939, 1942, 1947, 1949, 1953, etc.), o que tirou muito da credibilidade da competição. Para piorar, em 1946, em uma partida entre Brasil e Argentina, na Argentina, a torcida invadiu o campo para espancar os jogadores brasileiros, que fugiram e se trancaram no vestiário, porém policia argentina arrombou a porta e forçou os jogadores a voltarem pro campo, o que gerou revolta da delegação brasileiro, que acabou rompendo relações com a Confederação Argentina por 10 anos, só voltando a participar do Sul-Americano em 1957 (exceção feita às edições de 1949 e 1953, daí foi a Argentina que não participou). Esse foi outro duro golpe no torneio, a ausência de uma potencia mundial do esporte tirou muito da competitividade. Em 1957 o Brasil voltou a disputá-lo, mas sem muito entusiasmo, tanto que a CBD mandava seleções regionais (seleção gaúcha, mineira e até pernambucana) para representá-la. Uruguai e Argentina também tinham perdido entusiasmo no torneio, prova disso é que em 1963 a Bolívia(!) se sagrou campeã. A organização do torneio era cada vez mais rara, e a edição de 1967 foi a derradeira.
A Copa America surgiu em 1975, na tentativa de recriar um torneio continental, mas agora não mais um Liga e sim uma Copa, no sistema mata-mata, que aconteceria a cada 4 anos. Repare que a gênese das duas competições é completamente distinta, se tratando de torneios diferentes (os Sul-Americanos foram equiparados à Copa América mais de uma década depois da criação desta). Além disso igualando os dois torneios, a Copa América herda a desorganização e o descrédito do Sul-Americano. Os maiores vencedores da Copa América são as potências Brasil (com 5), Uruguai (com 3) e Argentina (com 2). As seleções médias do Paraguai, Peru e Colômbia têm 1 titulo cada. Esse é um placar bem menos banalizado do que o oficial da CONMEBOL.
Lógico que há erros na organização da Copa América. Em 89 ela passou a ser a cada dois anos, o que incorre os mesmos problemas citados anteriormente, porém, em 2004 passou a ser trienal e esse ano vai voltar a ser de quatro em quatro anos. Confuso também, mas nada comparado ao Sul-Americano.
Um segundo fator a ser analisado é que a Copa América não tem eliminatória. Uma tendência natural a qualquer ser humano é deixar de valorizar aquilo que vem muito fácil, e é baseado nisso que defendo eliminatórias. É bem verdade que a CONMEBOL tem poucos filiados, apenas 10, mas acredito que 8 seja o numero de participantes ideal (até 1996 a Eurocopa tinha apenas 8 participantes, e a UEFA já tinha em torno de 40 filiados). A questão do calendário seria facilmente resolvida se fizéssemos igual na África, onde as eliminatórias para Copa do Mundo também servem para a Copa Africana de Nações. Poderia ser algo do tipo: o anfitrião e o último campeão já têm vaga garantida, e os 6 melhores colocados nas eliminatórias (excetuando o campeão o anfitrião) se classificam. Isso valorizaria a Copa America e as eliminatórias, pois as seleções que não tem mais chances de ir à Copa do Mundo lutariam para se classificar pra Copa America.
Mas ao invés de fazer eliminatórias, a CONMEBOL, desde o inicio dos anos 90, convida duas seleções de outra confederação. Entre os times que já foram convidados estão: México, EUA, Honduras, Costa Rica e até o Japão (na Copa AMERICA?!). Essas seleções são convidadas para que o numero de participantes chegue a 12, e dessa forma dividi-los em 3 grupos de 4 seleções cada, o que também é um erro, porque esse negócio de os melhores terceiros colocados também se classificarem banaliza ainda mais o torneio (se classificam os 2 melhores colocados de cada grupo, mais os 2 melhores terceiros). Tudo isso junto gera uma impressão de várzea e competição mal organizada.
Infelizmente a Copa América sofre com o descaso de dirigentes como Julio Grondona, Nicolás Leoz e Ricardo Teixeira, que estão mais preocupados em se perpetuar no poder e aumentar ainda mais seu patrimônio, do que efetivamente contribuir para organização do futebol na America do Sul.
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