Copa América 2007. Uma envolvente seleção argentina é totalmente neutralizada pela ótima marcação do time brasileiro, que anota três gols de contra-ataque e se sagra campeão. Ainda em 2007, o São Paulo vence o Brasileirão com uma mão e dois pés nas costas, jogando um futebol defensivo e paciente, com lançamentos e chutes de longa distância (muito parecido com a escola alemã). Em 2008 o São Paulo repete o feito. Copa do Mundo 2010. O Brasil fica pelo caminho com um time pragmático e pouco criativo, e a Espanha, com um futebol vistoso e atraente, levanta o caneco. Mundial de Clubes 2011. O Santos assiste, atônito, o Barcelona tocar a bola e criar inúmeras chances de gol.
O importante não são os resultados, mas o que tem acontecido nos últimos anos mostra que o Brasil passa por uma crise de identidade. Hoje nós usamos as armas que usavam contra nós, enquanto outros usam as armas que costumavam ser nossas. Quando foi que perdemos nossas características clássicas? A troca de passes, o improviso, os deslocamentos, a velocidade, o passe curto, o virtuosismo, a ginga, a técnica, o drible, o estilo ofensivo, enfim, o futebol arte? Quando foi que perdemos nossa identidade? Perder pra Espanha ou pro Barcelona, mais do que um sentimento de derrota, nos traz o sentimento de termos sido usurpados. O que foi nosso por gerações, não é mais. É deles.
O futebol arte surgiu no Brasil em meados da década de 20. Antes disso o futebol era um esporte de elite no Brasil, que não passava de uma seleção média no cenário mundial. Foi nos anos 20 que os negros e as camadas populares começaram jogar esse esporte que viria a ser o mais popular do país. Conseqüentemente, foi nessa época que começaram a surgir os primeiros esboços da escola brasileira de futebol. O fim do amadorismo e inicio do profissionalismo nos anos 30 deu uma grande contribuição para essa nova escola ganhar corpo, desenvolvendo aquelas características que hoje o mundo todo conhece.
Em 1938 o futebol arte parecia finalmente ter chegado a maturidade, e foi na Copa do Mundo daquele ano que o Brasil iria realmente debutar no futebol mundial. A escrete canarinho já havia participado das Copas de 1930 e 1934, mas foi em 1938 que o mundo do futebol viu, espantado, as potencialidades daquele novo jeito de jogar futebol. Foi ali que pela primeira vez os europeus viram que era possível penetrar na área de outro modo que não fosse por infindáveis cruzamentos. Bastava jogo de corpo para sair driblando vários marcadores. O craque Leônidas da Silva foi apelidado de “Rubber Man” (Homem de Borracha) pelos jornalistas ingleses, pelo jeito como se contorcia e se livrava da marcação. Leônidas acabou se contundindo e não jogou a semi-final que o Brasil perdeu por 2X1 para a Itália (bicampeã 34-38), mas foi o artilheiro e eleito o melhor jogador daquele torneio pela imprensa mundial. No final o time brasileiro acabou em terceiro, mas foi o time sensação daquele mundial. Além disso, a geração de jogadores dos anos 40 era repleta de craques como Heleno de Freitas, Zizinho e Domingos da Guia, o que trouxe muitas expectativas.
Mas tinha uma Segunda Guerra Mundial no meio do caminho. As Copas do Mundo de 42 e 46 foram canceladas, o que fez com que as glorias dessa geração se limitasse à América do Sul.
Mas em 1950 a seleção brasileira ainda era é forte, e dessa vez chegou à final, novamente dando espetáculo. Porém o futebol arte caiu diante do que viria a ser um de seus maiores inimigos: o descontrole emocional. De qualquer forma, aquele vice-campeonato serviu para consolidar um estilo. Tão consolidado que já começava a influenciar times do outro lado do oceano. Naquele mesmo ano de 1950, começava a se formar uma seleção húngara que assimilou várias características do futebol brasileiro, como posse de bola, passes curtos, velocidade, entre outros. Bem verdade que essa seleção ainda mantinha várias influências das escolas européias clássicas, mas a influência do futebol brasileiro era clara. Fato é que esse foi o melhor time do mundo na primeira metade da década de 1950, e foi justamente nesse time que o Brasil (numa época de entressafra) esbarrou em 1954. Mas a hora do Brasil estava para chegar....
Em 1958 veio, finalmente, a consagração. Com um time que é apontado por muitos especialistas como um postulante ao título de melhor time da história (até mesmo por seu equilíbrio ataque/meio-de-campo/defesa), e que contava com quatro jogadores da seleção do século XX da FIFA (Pelé, Garrincha, Nilton Santos e Djalma Santos), o Brasil foi campeão dando espetáculo atrás de espetáculo. Em 1962 veio o Bi. Em 1966 o futebol arte perdeu para a violência (que é diferente de raça e virilidade) e para passividade dos árbitros. Mas em 1970, com outro time postulante a melhor da história, veio o tricampeonato.
Pelos clubes a situação não foi diferente. Desde a metade da década de 1950, os clubes brasileiros eram convidados para diversos torneios ao redor do mundo. Mais que serem convidados, clubes como Palmeiras, Botafogo e principalmente o Santos goleavam os adversários dentro de seus próprios domínios. Clubes de expressão como Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Benfica, Boca Juniors e Milan tem estórias embaraçosas relacionadas á clubes brasileiros na década de 60. Um período de absoluta hegemonia do futebol canarinho.
Gradualmente clubes e seleções de todo o mundo foram assimilando um pouco daquele estilo de jogo, enquanto outros descobriam alguns antídotos para pará-lo. O que fez com que nos anos 70 a coisa fosse mais nivelada, o futebol de espetáculo ainda prevalecia no mundo, o Brasil ainda era forte, mas a grande seleção daquela década foi a Holanda (que, no entanto, foi vice em 74 e 78).
No inicio da década de 80 o Brasil voltou a formar uma seleção memorável, que goleava impiedosamente seus adversários. Seleção que seria protagonista de um dos jogos mais emblemáticos da historia. Apesar de todo favoritismo, na Copa de 82, o time de Zico, Falcão e Sócrates foi derrotado pela pragmática Itália. Esse jogo ficou conhecido mundialmente como “A Tragédia do Sarria” (em alusão ao nome do estádio). Mais do que uma simples zebra, aquele foi um marco representativo da mudança de paradigma no futebol mundial. Aquela eliminação suscitou a máxima de que espetáculo não ganha jogo. A partir daí, times de todo o mundo começaram a repensar sua maneira de jogar, priorizando mais a eficiência em detrimento do espetáculo. A enorme evolução da preparação física dos atletas, que favorecia principalmente as defesas, ajudou a acelerar este processo.
Assim, pouco a pouco, o futebol foi se tornando cada vez menos arte, menos improviso, menos plasticidade, para dar lugar à eficiência, ao pragmatismo e ao ganhar a qualquer custo, com alguns lampejos de gênios como Maradona, Romário, Zidane e Ronaldo. O próprio futebol brasileiro seguiu o fluxo e abandonou quase que completamente suas raízes. Durante os anos 90 praticamente nenhum time ainda dava espetáculo. São Paulo 92/94, Palmeiras 93/94 e 96, Vasco 97/98, Corinthians 98/99, além da própria seleção de 98, foram as poucas exceções. No século XXI nem exceção houve.
Porém sempre há os que navegam contra a corrente. Os espanhóis sempre foram grandes apreciadores do futebol bem jogado, e enquanto o mundo o abandonava, eles tentavam reinventá-lo, torná-lo competitivo novamente. E conseguiram. Conta a história, que em meados dos anos 70, havia uma placa nas categorias de base do Barcelona que dizia que quem tivesse menos de 1,80m podia ir embora. Depois de perder um campeonato local juvenil devido a inabilidade de seus jogadores, o presidente mandou que a placa fosse retirada, priorizando assim a qualidade técnica em detrimento do porte físico. É sabido que desde meados dos anos 90, placas parecidas com aquela pipocam em categorias de base em todo o Brasil. E foi assim que os papeis foram invertidos.
No Brasil, se convencionou questionar o que era melhor, ganhar jogando feio como em 94 ou perder jogando bonito como em 82? Mas a pergunta correta deveria ser, perder jogando bonito como 82 ou perder jogando feio como em 90? Ou ainda, ganhar jogando bonito como em 70 ou ganhar jogando feio como 94?
Ano passado visitei a Espanha e conheci uma pessoa da idade do meu pai, que sabia escalar a seleção brasileira de 82 do goleiro ao centroavante. É lógico que ganhar é sempre melhor, mas só quando você dá espetáculo que é possível entrar pra historia mesmo perdendo. A derrota de um time talentoso vira “tragédia”, enquanto a derrota de um sem talento cai no esquecimento.
Não seria o momento de assimilarmos está lição, e repensar o atual futebol brasileiro, de chuverinhos, chutões e pontapés? Não é hora é voltarmos às nossas raízes e resgatarmos o futebol que nos valeu fama, fortuna, respeito, inveja e glória?
O futebol brasileiro não é mais brasileiro. Hoje temos um estilo que lembra aqueles times ruins sul americanos de fase de grupo de Libertadores da América.
ResponderExcluirNão acompanho todos os jogos do Campeonato Brasileiro, porém vi muitos do atual campeão Corinthians e, conseqüentemente, vi muitos outros times jogarem contra ele. Vamos a alguns fatos:
- Brasileiro não sabe chutar de fora da área. Não é radicalismo. Conte a porcentagem de chutes que vão para o gol (não necessariamente que o fazem de fato). A maioria vai pra fora. São pouquíssimas as chances de gol com chutes fora da área.
- Brasileiro não sabe mais driblar. Esqueçam o Neymar, estou falando dos 99% dos jogadores do campeonato. Ficam diante de um marcador e passam a bola. Nenhum tenta uma jogada de velocidade, uma finta, jogo de corpo... Nada. Nem pedalar na bola os jogadores sabem mais. E ficamos obrigados a ler nas revistas que o Emerson (Sheik) é um grande driblador. Grande?! Alguém já viu ele jogar ?! Além de não saber chutas, ser lento e fora de forma, no máximo ele "dribla" jogando o corpo dele no adversário e passando. Se esse é o padrão de drible hoje, estamos realmente perdidos.
- Brasileiro não pensa antes de fazer algo. Podem olhar nos jogos: ele faz muitas jogadas sem a mínima lógica. Quantos são os chutes que batem no zagueiro adversário....sendo que este está na sua frente, a posição nem o Pelé faria o gol, mas vai lá e chuta. Ou mesmo passes longos que literalmente não tem ninguém nem perto da bola. Isso sem contar quando perdem a bola "porque não tem opção" e fazem uma falta violenta logo em seguida.
- Brasileiro aprendeu a arte do chutão. Não vou nem falar do Santos contra o Barcelona que vai parecer que só comentei disso por causa do jogo. Eu vi os últimos 6 ou 7 jogos do campeão brasileiro deste ano...e é só chutão. Meu Deus, Julio Cesar, Ralf, Alessandro e cia. todos com chutões de qualquer lugar do campo. Qual a chance de um chutão cair exatamente no pé do Liédson ?! Quase nula. Temos que reaprender a sair jogando. Mas isso é necessário saber driblar minimamente e pensar o jogo, o que para o brasileiro hoje em dia está meio difícil.
ResponderExcluir- Brasileiro está ficando muito violento. Acompanho muito o futebol inglês, que é conhecido por sua correria, alta intensidade e jogos que são disputados até o final do jogo mesmo, sem essa de "o jogo está ganho". E lá tem pouquíssimas faltas. E o mais importante para analisar nem é a quantidade de faltas, e sim como são essas faltas. Claro que tem aqueles carrinhos violentos que recebem amarelo ou vermelho como em toda partida. Porém as faltas são mais porque um jogador está indo de encontro ao outro, disputa de bola etc. meio que "sem querer". No Brasil nossos jogadores vão para fazer a falta. Vão para chutar a canela do adversário. Vão para o carrinho. Vão para dar o toque simples que mata a jogada e coloca a saúde do outro em risco. E as fazem em grande quantidade. Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Vasco... Todos os times perderam a noção com as faltas e hoje está normal a quantidade e essas faltas com o objetivo de machucar (e ainda viraram grandes atores ao falarem que nem encostaram na bola).
E o mais revoltante é ver o time do Barcelona. Formado por grandes atletas, com 1,85m de altura, extremamente fortes, atléticos etc. não. Ninguém do Barcelona foi privilegiado pela natureza pelo seu porte físico (falo isso porque, por exemplo, os jogadores de basquete dos EUA são naturalmente mais fortes e mais altos que do resto do mundo, o que é fundamental em um jogo que altura é determinante. Todos são pessoas "normais", como se qualquer um de nós pudéssemos ser do Barcelona. Messi, Iniesta, Xavi, Pedro e até p Puyol não são grandes, nem fortes e ás vezes nem parecem jogadores profissionais.
E por que eles formaram este time praticamente imbatível?! Porque eles PENSAM o jogo. Eles usam a INTELIGÊNCIA acima de tudo. O Xavi treinou a vida inteira dele com a cabeça de organizar o time, de colocar o jogador na cara do gol, de buscar ser o líder em campo. Iniesta e Messi a mesma coisa e todos os jogadores do elenco. Ninguém do Barcelona fica dando chutão, chutando a bola que com certeza vai bater no zagueiro, driblam na hora certa e pensam muito antes de tentarem um passe. Além disso, os jogadores se conhecem e já possuem uma grande quantidade de jogadas. Em resumo: eles pensam o jogo.
Se pudesse ser treinador das categorias de base do Brasil, eu primeiro educaria os jogadores. Não educação para decorar conceitos e fórmulas matemáticas, mas sim de matérias que os fizessem pensar, como sociologia, história e lógica.
ResponderExcluirCom jogadores mais pensativos, mostraria que no futebol a inteligência é a chave para tudo. Com ela, jogadores sem porte físico se tornam grandes jogadores. Com ela, seria o fim dos chutões, das faltas "pra matar a jogada e o jogador", os dribles voltariam como um recurso e não como firula, as jogadas ensaiadas ocorreriam mais constantemente e o nosso futebol voltaria a ser do nível... Do nível... Do Barcelona?! Pode até ser, mas voltaria a ser do nível do Brasil de 70 e 82.
Quem cresceu vendo Pelé e Zico jogarem, com certeza se revolta em sver as eternas tentativas de reanimarem o Adriano, escutar que o Brasil está forte e trazendo de volta os craques (alô??! eles são ruins e não conseguem mais mercado lá fora) e outros jogadores que estão em grandes clubes e não sabem nem chutar (sim, Luan, é com você mesmo).
A esperança é a única forma de garantir uma tranqüilidade para o futuro do noss0 futebol. Mas está difícil de ver ela hoje em dia
Disse tudo tudo Soneca, e completo plenamente com o Chico (Henrique) a coisa ta feia, até um amigo meu que sempre exalta o futebol brazuca concordou comigo que esse campeonato brasileiro foi terrível de nível técnico. Sem contar os resultados da seleção brasuca.
ResponderExcluirAliás alguém consegue falar um jogador brasileiro de ataque ou meio campo ofensivo que esteja realmente bem na Europa? Eu consigo apenas pensar em defensores.