Estamos há alguns dias do primeiro turno das eleições,portanto seria oportuno fazer aqui minhas considerações sobre os 9 candidatos à presidência.
Comecemos pelo bloco da extrema esquerda: Ivan Pinheiro (PCB), Zé Maria (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO) e Plínio de Arruda Sampaio (PSoL). Analisarei esses 4 em conjunto pois tem propostas muito parecidas, o que mostra dificuldade da esquerda brasileira de conciliar interesses mesmo quando parecidos. Essas propostas são: suspensão do pagamento da divida, confisco do latifúndio a tabelamento de no máximo 100 hectares por propriedade, 10% do PIB investidos em educação, fim da autonomia do banco central, estatizações de empresas e bancos, diminuição da jornada de trabalho para 35 horas semanais e salário mínimo de R$ 2500. Se tratam de propostas ineficientes e até mesmo irresponsáveis se levarmos em conta o parto que foi resolver o problema inflacionário, que ceifava a riqueza de todos mas especialmente do pobres, aumentando a desigualdade. Não sou contra políticas radicais em si, mas esse tipo de política radical traria de volta a inflação e faria os empregos desaparecerem. Dessas propostas talvez a única que se salve seja a de revolução na educação, combate ao latifúndio e de reforma agrária.
Mas antes de prosseguir gostaria de registrar o apoio incondicional que esses partidos dão a movimentos populares e a ética que demonstram não fazendo alianças espúrias e não se envolvendo em escândalos. A franqueza que o candidato Plínio demonstra nos debates contrasta fortemente com a retórica política que estamos acostumados a ver.
Em seguida vem o bloco dos sem proposta: Levy Fidelix (PRTB) e Eymael (PSDC). Os dois se limitam à propostas genéricas como “melhorar a educação, a saúde, o transpote, etc.”, mas o “como fazer” passa longe de seus discursos. A única proposta um pouco mais elaborada é a construção do Aerotrem, projeto de vida do candidato do PRTB. Eymael pelo menos carrega uma bandeira: a da democracia cristã e fortalecimento dos valores familiares. Mas é só, e por isso mesmo não vou me alongar com estes, são apenas dois desconhecidos querendo uma projeção maior.
Marina Silva (PV) chega como a grande desafiante do status quo da política nacional, onde PSDB e PT tem dado as cartas há um bom tempo. Traz consigo a bandeira da sustentabilidade, assunto tão em voga na atualidade. Marina foi Ministra o meio ambiente durante a maior parte do governo Lula, onde conseguiu resultados expressivos mesmo com seu ministério sendo preterido em vários momentos, o que acabou levando à sua saída do governo em 2008. Marina tem as propostas mais sólidas desta eleição para o meio-ambiente, com incentivos à economia criativa, restrições ao agronegócio, prover acesso à água potável e saneamento básico para 100% da população, diminuição da emissão de poluentes e do desmatamento, entre outros. O problema é que não sai disso. Perguntada sobre qualquer outra área, Marina tenta fazer um elo com a questão ambiental, como se tudo dependesse disso. Plínio, coberto de razão, disse a ela em um dos debates “você tenta conciliar tudo, e tudo não é conciliável. As decisões incorrem em custos”. Marina promete manter, e até elogia, os avanços econômicos do governo FHC e os avanços sociais do governo Lula. Promete ainda fazer uma revolução na educação aumentando para 7% do PIB os gastos com educação, que se não é os 10% proposto pelos socialistas, é bem melhor que os 2% atuais. As respostas para problemas como governabilidade, déficit habitacional, reforma tributaria e segurança estão longe de serem convincentes. Porém, tanto Marina como seu partido, o PV, nunca estiveram envolvidos em escândalos de qualquer natureza, e talvez sejam realmente os mais indicados para fazer a tão almejada reforma política.
Serra (PSDB) é sem duvida o candidato mais gabaritado, e aposta muito em sua biografia. Foi deputado, senador, teve uma boa passagem pelo ministério da saúde e uma passagem, não tão boa assim, pelo ministério do planejamento, foi prefeito de São Paulo e governador do estado. Serra promete fazer um ajuste fiscal, ter austeridade, criar o ministério da segurança para combater a entrada de armas e drogas no Brasil, investir em obras de infra-estrutura, investir na capacitação do professor do ensino básico e também no ensino técnico e profissionalizante de maneira geral, acelerar a construção de casas populares, manter e ampliar o bolsa-família, universalizar o acesso à água e saneamento básico e aumentar o salário mínimo para R$600. Na saúde, sua especialidade, pretende levar a todo o Brasil programas implantados em São Paulo, como o mãe paulistana e as AMEs e AMAs.
O que se percebe é um amontoado de propostas desconexas, de correntes ideológicas distintas, e algumas delas claramente eleitoreiras, que reflete o fato do PSDB não ter definido um projeto de governo. Como, por exemplo, compatibilizar a reforma tributária drástica com o aumento do padrão de qualidade da saúde em estados que tem contribuição média muito menor que a de São Paulo? Como melhorar a educação e ampliar projetos sociais depois de fazer um ajuste fiscal ainda mais profundo? Alias esse é outro ponto, se Lula teve que domesticar o PT para manter a política econômica, Serra terá que domesticar a ala mais conservadora do PSDB e da base aliada para manter em alta os investimentos sociais.
Isso para não falar no salário mínimo de R$600, pois seu partido sempre foi contra reajuste do mínimo acima da inflação. Se eleito dará o aumento, mas vai custar para reajustá-lo novamente.
Serra critica o PAC e o Minha Casa, Minha Vida, muitas vezes com razão, mas não apresenta uma alternativa a esses programas.
Isso mostra que o PSBD não se preparou bem para eleição, provavelmente porque estava mais preocupado com disputas internas entre paulistas e mineiros (que torcem pela derrota de Serra para Aécio sair candidato em 2014) do que em fazer um projeto de país.
Dilma (PT) é a candidata governista, mais que isso, é a candidata do presidente com maior popularidade da historia do Brasil, e por isso deve ganhar a eleição com um pé nas costas. Porém Dilma terá problemas para governar pois não tem nenhuma retórica e eloqüência, característica fundamental para governar o Brasil, onde o chefe do executivo tem de ser, antes de tudo, um conciliador para fazer as coisas funcionarem. Como Ministra Dilma teve vários acertos, como o PAC, o Minha Casa, Minha Vida e o Luz pra Todos, porém pecou em algumas coisas que eram sua responsabilidade: não corrigiu gargalos infra-estruturais, não conseguiu aumentar a taxa de investimento e o PAC está atrasado.
Seu partido, o PT, também desagrada em alguns aspectos. Desagrada quando usa cargos importantes dentro do governo como moeda de troca para fazer alianças com gente que deveria passar longe do planalto. Desagrada mais ainda quando varre pra baixo do tapete casos de corrupção, exatamente como faziam seus antecessores.
Porém, é inegável, que o PT e Dilma tem projeto de governo e, mais que isso, projeto de nação. Apresentam metas e projetos viáveis e de longo prazo. Pretende manter e intensificar políticas de transferência de renda, bem como aumento real do mínimo, juntamente com desoneração da produção em setores estratégicos para incentivar o consumo e a produção industrial e agrária, e assim manter uma taxa de crescimento do produto entre 6% e 7%, alcançando até 2016 a meta de se tornar a quinta maior economia do mundo. Também pretende erradicar a pobreza extrema até 2016 com a manutenção e ampliação dos programas sociais e aumento do mínimo acima da inflação.
Prevê inúmeras obras de infra-estrutura já definidas e com viabilidade econômica. Entre as obras estão: a construção e reforma de portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, hidrovias, hidrelétricas, termoelétricas, barragens e investimento na produção de energia eólica e biomassa, além dos investimentos relacionados ao pré-sal (vide site oficial do PAC, no rodapé, para informações mais especificas). Com isso o governo espera suprir os gargalos infra-estruturais e energéticos necessários para o país crescer, além de universalizar o acesso à água e a saneamento básico até 2018. Com exceção das obras relacionadas ao pré-sal, o restante das obras deve ser concluído até 2018.
Através do programa Minha Casa, Minha Vida o governo pretende acabar com o déficit habitacional até 2025, construindo casas populares, investindo em urbanização de favelas e incluir o máximo de famílias na classe C ao mesmo tempo que a Caixa concedo crédito facilitado, fazendo que o recém-chegados a classe média financiem seus imóveis. Esse esquema já vem dando certo nos últimos 4 anos.
Bom isso é tudo, acabei me alongando bastante, mas tomara que seja útil para quem estava na duvida.
site do PAC: http://www.brasil.gov.br/pac/pac-2/
ao inves de escrever vc deveria se candidatar!!!
ResponderExcluirbeijos
Mari palmieri
Excelente! Parabéns, ótima análise:
ResponderExcluirOi! Sou a Didi colega da Raquel na Cultura.
ResponderExcluirHi Rachel!
Muito bom o seu texto. Não sei se concordo com tudo, mas senti falta do aspecto da política exterior. Com Lula o Brasil deixou de ser um mero figurante, para ser um coadjuvante de valor. Por sua biografia, quem tem um pouco da dimensão mítica que costuma fascinar o mundo é Dilma - ex-guerilheira pacificada pelo capitalismo - que acho teria mais chances de nos manter nesse jogo, seguida de Marina, que também tem uma história de superação e reputação limpa. Me recuso a comentar Serra. Acho que nenhum dos três têm condições de manter o glamour político-social alcançado pelo Brasil com Lula, presidente 'pop star'. Aí só em 2014. Pra encerrar, vou dizer que quero um Brasil que sabe onde quer chegar e como fazê-lo. Parabéns pela neutralidade. Eu não consigo! Peace!
Oi Didi, obrigado pelo comentario.
ResponderExcluirA politica externa tanto com Serra como com Dilma, manterá as aspiraçoes de conseguir um assento permanente no conselh de segurança da ONU, oque deve acontecer na proxima decada. A diferença é a forma como conduziram essa aspiraçao.
Dilma e o PT defendem uma politica externa mais ideologica e Serra e o PSDB defendem uma postura mais pragmatica.
No governo Lula vimos varias tentativas de aproximacao com paises pobres e em desenolvimento (perdao da divda externa da Africa, defesa do programa nuclear iraniano, etc), espcialmente com paises da america latina (estreitamento do comércio com venezuela, renegociacao do preço da energia com o Paraguai, nacionalizaçao da Petrobras boliviana, etc), pretende com isso, fazer alianças com paises que estejam no mesmo estágio de desenvolvimento do Brasil.
No caso da postura pragmatica, seria algo semelhante ao que se viu no governo FHC: aproximaçao com paises ricos, em especial os EUA, privilegiando fluxos de comérico com esses paises.
Bem observado esse aspecto, pois é um ponto em que as propostas diferem radicalmente.