sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Copa do Mundo é Nossa?


E lá se vão 3 anos e meio desde que o Brasil foi escolhido para ser sede da Copa do Mundo 2014. Se quando fomos escolhidos a Copa era uma preocupação distante, havia tempo, hoje não é mais, o tempo é relativamente curto. Naquele momento criou-se muita expectativa sobre as benesses que o evento poderia trazer ao país: estimulo à economia, aumento do turismo, “aprender” a organizar a venda de ingressos, etc. No entanto a organização do evento vem recebendo varias criticas, e já hora de fazer um balanço do que está acontecendo.

Pra começar, gostaria de dizer que este blogueiro que vos fala foi a favor e torceu pela escolha do Brasil como sede da Copa 2014, pois achava, ingenuamente, que por se tratar da Copa do Mundo, a fiscalização seria maior, que haveria mais seriedade...ledo engano.

Minha concepção começou a mudar logo de cara quando Ricardo Teixeira, presidente da CBF, foi nomeado presidente do COL (Comitê Organizador Local). Algo inédito, em nenhuma Copa do Mundo o presidente da federação nacional foi o mesmo do COL, pois este último deve ter autonomia (alias, é por isso que essa instituição existe). Pior, não bastasse ele ser o presidente, nomeou sua filha, Joana Havelange, como Secretaria Geral do COL, que, por isso, não está apenas subordinado aos interesses da CBF, como também aos interesses pessoais de Ricardo Teixeira.

A decepção seguinte veio com a escolha das 12 sedes da Copa. A única restrição imposta pelo próprio COL foi que houvesse pelo menos uma sede em cada uma das cinco regiões do país, o que eu acho justo. Algumas das cidades escolhidas são inquestionáveis, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porte Alegre, etc. Porém há escolhas no mínimo estranhas, começando com a escolha de Manaus. Se havia a imposição de no mínimo uma sede por região, a escolha obvia no norte seria Belém do Pará, único estado da região norte que tem times com representatividade nacional. Paysandu e Remo, os times mais tradicionais de Belém, já visitaram diversas vezes a elite do futebol nacional, e tem uma quantidade expressiva de torcedores. O Remo, em 2005, quando disputava a Serie-C do Brasileirão, teve a maior média de publico do país considerando todas as divisões. O Paysandu foi campeão da Copa dos Campeões de 2002 (batendo Corinthians, Palmeiras, Bahia e Cruzeiro), se tornando assim o primeiro (e único) time nortista a obter classificação para a Taça Libertadores da America (na qual bateu o Boca Juniors em “La Bombonera”). A escolha de Belém seria uma grande oportunidade para reformar o “Mangueirão”, estádio que não da mais conta de abrigar os clássicos entre Remo e Paysandu, e que merecia ser expandido. Agora, desafio alguém a me dizer, de cabeça, o nome de algum time de Manaus, ou algum grande feito do futebol amazonense, até mesmo algum jogador famoso. Difícil lembrar. Isso acontece porque no Amazonas o futebol é pouquíssimo difundido, e o gigantesco estádio para mais de 40 mil pessoas, com energia solar e materiais ecologicamente corretos, se tornará um grande elefante branco tão logo termine o mundial. Joana Havelange justificou a escolha de Manaus dizendo que a Amazônia é um dos maiores cartões postais do país, o que uma desculpa esfarrapada, já que a maior parte do estado do Pará também é coberta pela floresta.

A mesma aberração aconteceu na região centro-oeste. Dessa vez a escolha obvia seria Goiânia, pois o Goiás Esporte Clube é de longe o clube mais importante da região, figura na elite do futebol brasileiro a mais de 10 anos, é o único da região a participar da Taça Libertadores, e inclusive já foi finalista da Copa Sul-Americana. Freqüentemente os torcedores goianos lotam o Estádio Serra Dourada, com capacidade para mais de 50 mil pessoas. Mas as sedes escolhidas foram Brasília e Cuiabá. É até compreensível a escolha de Brasília, por ser a capital, pelo seu poder político (apesar de futebolisticamente não significar nada), mas nada justifica a escolha de Cuiabá. Assim como no Amazonas, Mato Grosso não tem cultura futebolística, ou você conhece algum time/jogador de lá? Nesses lugares as pessoas nem se quer torcem para os times locais, torcem para os times dos grandes centros. E mais algumas centenas de milhões de reais serão gastos na construção de mais um elefante branco. Alguns jornalistas maldosos especulam que Teixeira tem negócios com o ex-governador do Mato Grosso, Blairo Borges, mas isso é só intriga...

Outra decepção foi deixarem Florianópolis de fora. Como excluir um estado rico, turístico e que possui representantes na elite do futebol brasileiro a mais de dez anos? Em seu lugar foi escolhida Natal-RN , onde há sim cultura futebolística, mas é um estado pobre, que tem muitas outras prioridades antes de construir um estádio. Não a toa é sede mais atrasada. Tudo isso porque o presidente da Federação Potiguar é aliado de Ricardo Teixeira.

Uma situação que mostra claramente os desmandos do presidente da CBF são os acontecimentos envolvendo o Morumbi. Escrevi na postagem anterior sobre o conflito entre SPFC e Ricardo Teixeira, e quem tiver curiosidade, de uma olhada. O fato é que desde o começo houve uma pré-disposição negativa com o estádio do São Paulo. No inicio, apesar do bom senso indicar que a abertura da Copa deveria ser em São Paulo, o COL sinalizava que Belo Horizonte e até Brasília também estariam no páreo. Alegavam que o Morumbi tinha problemas demais, o que não é verdade se comparado a outras sedes. Segundo o relatório oficial da FIFA, o projeto de reforma do Morumbi apresentou 30 problemas, enquanto a média das 12 sedes foi de 31 problemas, ou seja, nada fora do normal.

Em julho de 2010, depois da derrota do candidato indicado por Ricardo Teixeira no Clube dos 13 (veja a importância disso na postagem anterior), e aproveitando que os olhos do Brasil e do Mundo estavam voltados para a Copa do Mundo da África do Sul, o COL anuncia que o Morumbi estava fora da Copa, alegando que não havia sido comprovada a viabilidade financeira do projeto. Claro, então todas as sedes, incluindo Natal, Manaus e Cuiabá, teriam um projeto maravilhoso e viável MENOS a cidade mais rica e pujante do país, realmente, me parece bem lógico. No dia seguinte ao veto, Andres Sanchez, presidente do Corinthians e grande aliado de Ricardo Teixeira (é inclusive um dos mais cotados para assumir a presidência da CBF depois que Teixeira sair pra tentar a presidência da FIFA), anuncia a construção do estádio corintiano, que seria financiado com dinheiro do próprio clube e não teria nenhuma relação com a Copa, mas como a cidade estava sem estádio o projeto também serviria para o evento, dizendo também que Teixeira havia aprovado o projeto sem olhá-lo pois o Corinthians tem muita credibilidade.

Claro, um dia depois do veto ao Morumbi o Corinthians apresenta um projeto pronto, mas um acontecimento não tem relação com o outro. E é lógico que não haverá recursos públicos! (ops, o governo já deu isenção fiscal de 50% pra todo material usado no estádio, inclusive equipamentos que ficarão com a empreiteira). Sejamos realistas, o Corinthians fala em construir um estádio a mais de 40 anos, se fosse fazer com o dinheiro do próprio bolso, já teria feito faz tempo. Alguns meses mais tarde o estádio foi realmente aprovado como sede paulista, e o mais intrigante é que, segundo o relatório da FIFA, o projeto do “Fielzão” apresenta nada menos que 109 problemas, quase quatro vezes mais que o Morumbi! Dentre os problemas apontados estão a falta de transportes públicos (não há nem projeto de estação de Metrô a ser construído próximo ao estádio), falta de rede hoteleira próxima, canos de esgoto e até dutos de petróleo que teriam que ser removidos, entre muitos outros. Há ainda que se questionar, uma vez que o Morumbi não serve, porque a sede paulista não poderia ser o Palestra Itália, que já havia começado sua reforma ano passado (este sim, um projeto independente da Copa pois os preparativos da reforma começaram em 2007)? Por que não cogitar uma reforma no Pacaembu? Tudo isso sairia bem mais barato. E falando em Pacaembu, um aspecto muito triste é que com a construção de um quarto estádio numa cidade que tem três clubes grandes, o Pacaembu será abandonado. Passará de símbolo da arte déco a elefante branco paulista. O curioso é que depois que o Morumbi foi vetado não há mais duvidas da onde será a abertura do mundial! Será em São Paulo, independente do estádio.

Outros escândalos têm aparecido, como o contrato que garante a Ricardo Teixeira os lucros da Copa, ou o relatório do IPEA que mostra que 9 dos 13 aeroportos não estarão prontos para o mundial. E outros, como obras superfaturadas, ainda estão por vir. Mas talvez eu esteja exagerando, como disse Andres Sanches em entrevista coletiva “vocês são muito desconfiados, precisam acreditar mais nas pessoas”...

Uma das primeiras questões levantadas após a escolha do Brasil como sede da Copa 2014 foi se num país como o Brasil, onde milhões de pessoas passam fome, outras milhões não têm saneamento básico, onde não há educação publica de qualidade nem segurança nas grandes cidades, seria correto receber uma Copa do Mundo? Em minha opinião, não.

Eu acho absurdo gastar-se R$1 Bilhão na reforma do Maracanã, enquanto, segundo o IBGE, somente 15% das escolas publicas do país tem uma quadra para pratica de esportes. Acho obsceno dar 50% de isenção fiscal na construção do “Fielzão”, enquanto as micro e pequenas empresas estão sufocadas de tanto imposto. Acho imoral gastar R$700 milhões na reconstrução da Fonte Nova enquanto o Metrô de Salvador tem apenas 6 Km.

Itaquera não precisa de um estádio, precisa de obras contra enchentes. Os cariocas não precisam de um novo Maracanã, precisam de moradias seguras contra deslizamentos. Não precisamos sediar um evento mundial que a maioria de nós verá apenas pela TV, precisamos de mais quadras e espaços públicos para nos exercitarmos e termos uma vida mais saudável, e mais que isso, precisamos educação de qualidade para que o esporte não seja a única esperança de ascensão social.

Mas os eventos recentes relacionados ao Pan 07 e agora a Copa do Mundo revelam outro problema: o Brasil não tem maturidade institucional para sediar eventos desse porte. Dirigentes de honestidade duvidavel, que estão no poder há décadas, mandam e desmandam na organização desses eventos, priorizando interesses pessoais e escusos. Enquanto isso as autoridades se calam, corroboram com os esquemas liberando mais verbas para tentar cumprir os prazos sempre atrasados. O Brasil não tem instituições confiáveis, tanto para programar/executar, quanto para fiscalizar. É como se esses eventos fossem particulares, o Nuzman é dono do Pan e das Olimpíadas, e a Copa do Mundo é do Ricardo Teixeira. Nada é do povo brasileiro.

O pensador italiano Antonio Gramsci dizia que nós temos o dever do ceticismo na analise, e do otimismo na ação. Que há otimismo na preparação da Copa, há. Mas faltou ceticismo na analise para perceber que esse era um passo maior que nossas pernas.

2 comentários:

  1. muito bom! muito legal! eu desde o inicio sabia que ia me desapontar! O pior é que no final tudo da certo e esquecemos do que passamos para chegar lá. bjos RAPHA

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  2. Excelente caio!!!!!!
    O Brasil quer ser potência mundial antes do tempo e não temos estrutura e verba suficiente pra fazer esse evento. Nosso país tem outras preocupações e outras metas para atingir um real status de crescimento. Copa do Mundo é legal, traz uns turistas, tem festa, mas o planejamento e o dinheiro gasto de maneira incorreta só vai trazer mais problemas. Abs Cesar

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