Acho que ninguém contesta que o futebol é, por larga vantagem, o esporte preferido dos brasileiros. É de longe o mais assistido e discutido nos bares, escolas, redes sociais e afins. Especialmente quando algum time se sagra campeão, este se torna o assunto da semana. Os torcedores do time campeão comemorando e provocando os rivais, os rivais retrucando, e por ai vai.
Mas tem um tipo pessoa, que eventualmente pode até torcer para um time mas não é muito apegada, que contesta todo mundo (e contestar é bom!). Esse tipo de pessoa não toma partido de nenhum lado, é contra a discussão em si, pois acha que futebol não é digno de ser tema de uma discussão tão longa e intensa. Vai mais longe: diz que o mau do Brasil é o futebol! Que o brasileiro vota errado e não sabe nada de política porque o futebol desvia sua atenção. E que durante a ditadura as pessoas só se importavam com a seleção enquanto estudantes eram torturadas.
Para começar a expor meu ponto de vista, vou discordar do título dessa postagem. O Brasil não é o país do futebol. O Brasil é, historicamente, o maior celeiro de craques do futebol mundial. Mas não é o país mais fanático, apreciador, apaixonado, etc. pelo esporte bretão. Muito se comenta que das dez maiores torcidas do mundo, quatro são brasileiras, incluindo a maior. Mas as mesmas pesquisas que apontam que o Flamengo têm algo em torno de 18% da preferência nacional (Datafolha), e cerca de 33 milhões de torcedores, também apontam que cerca de 23% da população não tem nenhum time (Datafolha). Isso mesmo, o numero de pessoas que não torcem pra nenhum time (ou só pela seleção, na Copa) é significativamente maior que o numero de torcedores da maior torcida do país. Na Alemanha e na Inglaterra esse numero não chega a 5%, na Argentina não passa dos 2%. Esses são três belos exemplos de países altamente politizados (e nos casos de Alemanha e Inglaterra, de países desenvolvidos e ricos), o que mostra que é possível ser um grande aficionado pelo esporte,e ainda assim ter consciência política.
E tem aquela clássica “o brasileiro vota errado porque a Copa é no ano da eleição”. Como é que é?! Então um evento que acontece em junho retém a atenção dos brasileiros até novembro? Eu acompanho a miude os dois eventos, e acho absolutamente conciliável acompanhar as duas coisas.
Sempre se diz que o futebol, e em especial a seleção, foi usado como propaganda política durante a ditadura. E foi mesmo. O que não diminui em nada o que, por exemplo, a seleção de 70 conquistou no campo esportivo e cultural. Mas pouco se comenta que um dos maiores movimentos cívicos da nossa historia surgiu nos campos de futebol. Em 1982, torcidas de vários clubes começaram a levar faixas em prol da volta da democracia. Logo esse movimento ganhou adesão de outros setores da sociedade e vida fora dos estádios. Mais tarde esse movimento ficou conhecido como “Diretas Já”.
Não me entenda mal, eu me incomodo bastante com jogadores que não conseguem fazer nada mais construtivo do que postar “to assistindo malhação XD kkkkkkk” no Twitter, ou com aqueles torcedores que falam pra quem quiser ouvir “meu time é a coisa mais importante do mundo” ou “meu time, minha vida, nunca vou te abandonar” (ainda vou escrever sobre isso). Tenho inveja do futebol europeu, onde boa parte dos jogadores, quando questionados, sabe opinar, ainda que minimamente, sobre política, economia ou arte. Assim como os torcedores nesses países também sabem. E essa é a questão, não são só os jogadores de futebol que são culturalmente vazios, no Brasil, figuras publicas em geral são vazias! Não são só os torcedores fanáticos que são alienados, o brasileiro, via de regra, é alienado.
Botar a culpa no futebol pela ignorância e passividade do nosso povo é simplesmente achar um bode expiatório. Ser politizado não tem nada a ver com abdicar de momentos de prazer e cultura. Tem a ver com a nossa educação, seja a escolar ou a que recebemos em casa. O brasileiro cresce achando que política é chato e não tem jeito, que economia é complicada demais e que dramaturgia e esporte são só entretenimento. Futebol, longe de ser o mau da nação, é, isso sim, um dos maiores patrimônios culturais do país.
Excelente post neca! Disse tudo
ResponderExcluirEnquanto nossos jogadores ficam com salários de R$ 500 mil ao mês e podem comprar qualquer tipo de mídia e informação, tem acesso a todos os meios acadêmicos e de cultura...e ao olhar a situação do país e do futebol ficam calados com a CBF, não falam de política e ficam postando apenas mensagens como essas no twitter ?!
ResponderExcluiré lógico que os próximos jogadores continuarão a falar que vieram da pobreza e do sofrimento. Sim, é claro...os jogadores de hoje não se importaram em usar sua imagem para influenciar políticos para que algo fosse feito. Acham que é só fazer uma ONG que leva o seu nome e ajudar mil crianças. Ok, bacana ajudar elas...mas se o Ronaldinho Gaúcho começa a fazer uma campanha contra o Ricardo Teixeira, incentivar as crianças a estudar mais e mostrar como devemos ser politizados, com certeza iria ajudar milhões de crianças, em vez de algumas poucas sortudas.
Henrique Vasconcellos
Em contra-partida temos Sócrates Henrique, que não quis abandonar uma profissão em andamento (médico) para virar jogador, mesmo que ganhasse mais durante aquele momento.
ResponderExcluirTemos alguns bons exemplos sim, cabe a nós saber cultivá-los.