Uma das piores partes de ser ateu é o momento que você revela a alguém que não acredita em deus. O constrangimento é quase certo. A maioria das pessoas deixa escapar aquele “cruz credo!”. Não entende como uma pessoa simpática, honesta e educada pode não crer no criador. Questionamentos - “Por que?”,”Então da onde viemos?”,”Da onde você tira sua moralidade?”, etc.- sempre acontecem. Respondê-los é como pisar em ovos, você precisa ser claro e convincente, mas ao mesmo tempo tem que se preocupar em não ofender ou desrespeitar. Uma dica aos ateus é: nunca fale tudo o que pensa logo de cara (especialmente se estiver lidando com pessoas religiosas), seja defensivo!
Ao final, com tudo devidamente esclarecido, e o emissor mais conformado, já se acostumando com a idéia, um último questionamento, que particularmente me incomoda, é inevitável: “E se você estiver errado?”.
Esta pergunta poderia ser traduzida, de maneira mais objetiva, como: “Você não tem medo do inferno?”. Na verdade este questionamento não é só de pessoas religiosas, mas também de pessoas que eventualmente concordam que a existência de deus não faz sentido, mas tem medo das conseqüências. Tenho vários amigos nessa situação.
No século XVII Blaise Pascal teceu um argumento intitulado a Aposta de Pascal, que formulava o seguinte:
1. Se você acredita em deus, e ele existe, você irá para o Paraíso.
2. Se você acredita em deus, e ele não existe, você não perde nada.
3. Se você não acredita em deus, e ele não existe, você não perde nada.
4. Se você não acredita em deus, e ele existe, você irá para o Inferno.
Esta proposição exprime bem o que as pessoas tentam dizer com “e se você estiver errado?”, uma vez que se você crer, não tem nada a perder, e se você não crer, só tem a perder.
Este argumento padece de dois problemas:
O primeiro, e menos grave, é que ele é um argumento racional para a crença em deus e não um argumento racional para existência dele, e as nossas crenças e descrenças passam por um processo de convencimento muito mais complexo do que “vou auferir vantagem com isso?”. Você pode com este argumento incitar medo nas pessoas (como é o caso de muitos dos meus amigos, como citei), mas você não consegue convencer da substância da proposição (no caso, a existência de deus). Em suma, podemos dizer que o argumento pode convencer que é melhor crer em deus, mas não convence que ele existe. É justo dizer que Pascal não se propôs a fundamentar a existência de deus, e somente a crença nele, e portanto atingiu seu objetivo. Por isso mesmo, esse é o menos grave dos problemas.
O segundo, e mais grave, é que o argumento é uma falácia por propor uma falsa dicotomia. Para melhor entendimento, farei duas hipóteses (que podem até ser consideradas como concessões nesse caso) com o intuito de simplificar o raciocínio, e que posteriormente serão afrouxadas. São elas:
1. Deus existe.
2. Deus nos pune/recompensa (inferno/paraíso) após a morte de acordo com seus critérios.
O grande problema é que Pascal ignorou a existência de um número enorme de crenças e religiões excludentes entre si. Peguemos como exemplo Jeová, o arrogante deus do velho testamento, que mandava meteoros, fazia dilúvios , ordenava genocídios e infanticídios, etc. sob o argumento de que aqueles povos cultuavam outros deuses. Ou seja, não adiantaria nada crer num deus se esse deus não fosse Jeová. O destino de um hinduísta, por exemplo, seria o inferno, tal qual um ateu.
Para os cristãos é necessário acreditar em deus e também em Jesus, o que mandaria os judeus pro inferno também. Judeus cujo deus prega a monogamia como requisito fundamental para alcançar o reino dos céus, enquanto o islamismo não só aceita, como incentiva, a poligamia (masculina).
Como é possível constatar, cada deus tem critérios diferentes, e crer em um deus não é suficiente para “não ter nada a perder”, é preciso crer no deus certo.
Neste ponto da argumentação você ainda poderá suscitar “tudo bem, crer não resolve o problema, mas pelo menos assim eu terei uma chance, enquanto os ateus, se deus existir, estarão necessariamente condenados”.
Mas, e se todas as religiões estiverem erradas? E se deus existe, mas não liga se crêem ou não nele? O critério dele poderia ser apenas se a pessoa é bondosa ou não. Poderia ser ainda fazer alguma coisa relevante para a humanidade, e daí ateus notórios como Marx, Freud, Chaplin, entre muitos outros, teriam vaga garantida no paraíso.
Vou mais fundo nesta idéia. A bíblia afirma que a terra tem em torno de 6 mil anos, e cristãos mais fanáticos, quando questionados sobre os fosseis de dinossauros (de mais de 230 milhões de anos), respondem que ”deus colocou os fosseis na terra para testar a nossa fé”, pressupondo que a fé é um requisito avaliado por deus. Mas se deus nos criou, ele nos dotou de racionalidade. E se deus fez as religiões só pra testar a nossa racionalidade? Nesse caso só iria pro céu aqueles que perceberam as falhas lógicas das religiões e se livraram dela.
Um caso interessante é se deus avaliasse a coragem. Deus gostaria da atitude dos ateus de assumir sua descrença, independentemente dos riscos, e, por outro lado, lhe desagradaria às pessoas que crêem apenas por medo. Em outras palavras, deus preferiria um ateísmo honesto a um teísmo medroso. Ou seja, neste caso, o seu medo do inferno ou da punição divina está sendo seu passaporte direto pra lá, portanto não faz sentido crer apenas por medo.
É possível pensar em infinitas possibilidades nas quais os ateus poderiam ser recompensados, assim como é possível pensar em infinitas possibilidades em que teistas seriam punidos. As recíprocas sendo verdadeiras também. Isso porque ninguém sabe qual(is) é(são) o(s) critério(s) que agrada(m) a(os) deus(es).
Agora, e se ficarmos apenas com a primeira hipótese e afrouxarmos a segunda, ou seja, deus existe, mas não pune nem recompensa ninguém? Para simplificar mais: e se deus não nos julga?
Deus poderia ter criado o universo só como experimento e não para nos julgar. Ele poderia ter nos criado só por diversão. Poderíamos ser até mesmo um acidente. Perceba que uma infinidade de outras possibilidades se abre. Mas se ele não nos julga, ou todos nós vamos pro mesmo lugar (seja o paraíso, inferno ou qualquer outra coisa), ou nossa consciência desaparecera do universo - em ambos os casos, teistas e ateístas terão o mesmo destino -, ou nós vamos para lugares diferentes baseado em critérios objetivos e não passiveis de julgamento (exemplo: loiros vão pro lugar A e morenos vão pro lugar B), e nesse caso não faria diferença nossas atitudes e crenças.
Por fim, afrouxamos a outra hipótese, a que deus existe. Nesse caso criaríamos apenas mais uma possibilidade, a que deus não existe, afinal, só existe uma forma de deus não existir. Esta seria a parte correta da dicotomia criada por Pascal, que errou ao condensar as infinitas hipóteses da existência de deus em uma só, criando dessa forma uma dicotomia falaciosa e obtendo uma conclusão equivocada.
Depois dessa reflexão, a conclusão a que podemos chegar é que todos nós, independentemente das nossas crenças ou atitudes, temos exatamente a mesma probabilidade de irmos pro inferno. Então antes de apontar o dedo e perguntar “e se você estiver errado?”, pare e se pergunte “e se eu estiver errado?”, e se você tiver uma resposta solida e conclusiva, ai sim você terá o direito de exigir uma resposta solida e conclusiva dos outros.
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