domingo, 29 de abril de 2012

Por um Novo Calendário para o Futebol Brasileiro e Mundial

Esse tema já está ficando manjado (apesar de nada ser feito a respeito), mas mesmo assim gostaria de dar alguns pitacos. Minha abordagem terá duas partes: na primeira apontarei os erros no calendário brasileiro, e na seqüência como o calendário mundial poderia ser melhorado.

Se você lê o caderno de esportes diariamente, especialmente jornalismo investigativo, provavelmente esta primeira parte será um tanto repetitiva, mas, mesmo assim, continue lendo, pois a segunda pode lhe ser interessante.

Otimizar o calendário nacional gira em torno de três pontos principais:

1)Adequar o calendário brasileiro ao calendário europeu. Eu sei, é chato porque o nosso ano-base tem inicio em janeiro e termino em dezembro, diferente dos países do hemisfério norte, onde começa em agosto e termina em julho, mas temos que ser pragmáticos. Toda América do Sul, incluindo ai a Argentina, já se adequou. Ásia e Oceania também. Deixou de ser calendário europeu e se tornou mundial. Sem isso, nossos times continuarão a serem desmanchados no meio da temporada devido à abertura da janela de negociações na Europa, e continuarão a ceder jogadores para a seleção brasileira no meio do Brasileirão, já que a Copa América, Copa das Confederações e Jogos Olímpicos, além de competições sub-20 e sub-17, serem sempre no meio do ano. Sem contar que facilitaria a disputa de torneios internacionais (falo mais sobre isso no próximo tópico).

 2)Acabar com os campeonatos estaduais. Eu também acho triste acabar com os torneios mais antigos do Brasil, acho até aceitável, em nome da tradição, que eles se tornem torneios de pré-temporada, desde que não ultrapassem 8 datas. Mas ocupar quatro meses do calendário com estes certames é anacronismo. Não faz sentido manter campeonatos em que dois ou quatro gigantes jogam, desinteressados, contra times que não tem uma fração da grandeza e do poderio econômico desses gigantes.

Os estaduais tiveram seu importante papel na historia do futebol brasileiro, mas encaremos os fatos: são campeonatos de baixo nível técnico; têm médias de público vexatórias (o Paulista deste ano tem, até o momento, média de menos de três mil pagantes por jogo); e não empolgam, tirando os clássicos, o restante dos jogos são, em sua maioria, chatos e desinteressantes. Eu, como consumidor de futebol, confesso que de janeiro até maio consumo muito mais produto estrangeiro do que nacional (a exceção ai é a Libertadores). 

O mais grave de tudo é que os estaduais superlotam a temporada, e isso traz vários problemas. O primeiro deles é que o Brasil tem o menor período de férias do mundo (apenas duas semanas se o time disputar o mundial de clubes), o que compromete seriamente a qualidade do espetáculo ao final da temporada, e faz com que o campeão da Libertadores sempre abra mão de disputar o campeonato brasileiro para não chegar esgotado ao mundial. O segundo é que os clubes brasileiros não fazem pré-temporada, jogos que servem para os times se condicionarem fisicamente, fazer testes táticos e técnicos, enfim, um período onde não há pressão de vencer que serve para preparar o time para a temporada. Mas aqui, depois de poucas semanas de folga, o time tem que ganhar, e se não ganhar é crise. Por fim, e mais importante, há alguns anos (quando o Flamengo ainda era patrocinado pela Nike), li um artigo do jornalista Paulo Vinicius Coelho em que ele atentava para o fato que na loja da Nike, em Miami, vendiam a camisa do Boca Juniors, mas não vendiam a camisa do Flamengo nem a do Corinthians. Isso porque todo ano o Boca sai excursionando pelo mundo, em torneios e amistosos internacionais, o que é impossível para os times brasileiros pois estão presos aos insossos torneios estaduais. É emblemático que o Barcelona tenha comemorado seu centenário num amistoso contra a seleção brasileira, enquanto o Santos comemorou seu centenário contra o Catanduvense pelo Paulistão (não há data disponível nem mesmo pra comemorar o centenário). Se os clubes brasileiros querem voltar a ser os supertimes que foram no passado, isso passa invariavelmente por internacionalizar seus distintivos, o que implica numa profunda mudança de gestão e mentalidade, e entender que eles nunca serão marcas globais se continuarem achando que ganhar campeonatos estaduais é importante.

É fundamental ter clareza que os campeonatos estaduais só existem para legitimar a existência das federações estaduais, que são a base de sustentação da oligarquia que manda nosso futebol há décadas, e que, portanto, se livrar dos estaduais é enfraquecer essa gente.

“Mas sem os estaduais, os times do interior vão acabar”. Se isso fosse para o bem do futebol brasileiro como um todo, estaria mais que justificado, mas mesmo assim, não é necessariamente verdade. Nos EUA e na Europa, nos mais variados esportes, as ligas alternativas/interioranas ou as divisões inferiores tem bons públicos e atratividade. Isso porque nesses lugares as pessoas têm preferência por determinada agremiação, mas gostam, acima de tudo, do esporte, então eles vão torcer pelo time de sua cidade, mesmo que não seja o seu time de coração. Se conseguirmos trazer essa mentalidade pra cá, um campeonato estadual sem os grandes seria sim viável e interessante. 

3)Organização mais profissional do calendário. A impressão que eu tenho sobre as pessoas que marcam as datas do nosso calendário futebolístico é a de total descaso e má vontade. A tabela do campeonato brasileiro, onde por vezes um time joga três vezes seguidas fora de casa e depois três vezes seguidas em casa, é um exemplo disso. Coisas simples como transformar a primeira rodada do campeonato nacional num grande acontecimento, é tido como supérfluo aqui. Na Europa a rodada inicial dos nacionais é cheia de pompa, com o ultimo campeão jogando contra o campeão da Serie B. No Brasil a rodada inicial do Brasileirão passa quase desapercebida, diante das fases decisivas da Copa do Brasil e da Libertadores (e sanar esse problema passa também pelo primeiro item citado). A Copa Sul-Americana deveria ser simultânea a Libertadores, e a Copa do Brasil no segundo semestre. Enfim, falta bom senso e profissionalismo.

Existem mais fatores sobre o calendário nacional que poderiam ser citados, mas não quero me estender tanto, e esses três são os mais importantes.

Pois bem, finda a primeira parte, onde crítico de maneira objetiva o nosso calendário, baseado em experiências que deram certo no sentido de melhoria da qualidade técnica do espetáculo, e da saúde financeira e institucional dos clubes, começo agora a segunda parte, onde proporei mudanças no calendário mundial, baseado em minha opinião pessoal do que seria melhor.

Na minha visão, no mundo globalizado de hoje, onde é possível conhecer a escalação, a história e acompanhar os jogos de um time mesmo estando do outro lado do planeta, seria muito interessante a criação de um mundial de clubes de verdade, com jogos de ida e volta, que dure em torno de dois a três meses. Vai dizer que não seria legal um campeonato que contasse, na mesma edição, com Boca Juniors, Santos, Manchester United, Milan, Benfica, Internacional, Bayern de Munique, Barcelona, Peñarol, entre outros. Um formato com doze clubes, parte classificatório, parte eliminatório, seria possível com quatorze datas, o que é totalmente viável. A distribuição das vagas poderia ser algo como: a UEFA teria direito a 6 vagas, a Conmebol a 4, a Concacaf a 1, e a outra vaga seria uma repescagem entre CAF, AFC e OFC, o que evitaria inchaço e levaria o nível técnico lá em cima.

Da onde surgiriam as datas? Da extinção das Copas nacionais. É verdade que as Copa não são tão desinteressantes quanto os estaduais brasileiros, mas também não são os torneios mais empolgantes que existem, mesmo na Europa. Ninguém da muita atenção para aqueles jogos da Copa da Inglaterra entre Arsenal e um time da quarta divisão inglesa. Essas Copas só ficam interessantes a partir da semifinal, quando os grandes se enfrentam, o que é muito pouco. São muito mais uma necessidade mercadológica de vender jogos e preencher a temporada, do que propriamente uma competição com algum significado esportivo.

Pra esse mundial se tornar uma realidade, os times sulamericanos (especialmente os brasileiros) precisam se internacionalizar e mostrar pros europeus que uma competição intercontinental é mais interessante do que jogar contra times pequenos de seus países. Esse é papel dos sulamericanos porque somos únicos que temos material humano, mercado consumidor e potencial econômico para formar equipes que possam competir com os europeus. Não se engane, a origem abismo que separa as equipes sulamericanas e européias é institucional e não econômica como muitos pensam (apesar do âmbito institucional ter reflexos profundos no âmbito econômico).

Uma otimização institucional do nosso futebol passa novamente por questões como melhoria da gestão dos clubes e das federações, mudança de mentalidade de dirigentes e torcedores , adequação de cultura, entre outras coisas, que eu precisaria de outra postagem para explicar com profundidade.

“Mas os times não classificados pro mundial teriam prejuízo porque ficariam sem jogar nesse período”. Claro que não, poderiam disputar outros torneios internacionais, ou até mesmo organizar as Copas nacionais nesse período.

Eu sei que é uma cruzada quixotesca esta que eu estou propondo. Mas não custa nada propor.

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