Este fim de semana ocorreu a Marcha das Vadias, o que me
estimulou a escrever este artigo. Não vou escrever sobre a Marcha, mas sobre
o debate que ela gera. Atualmente há uma discussão
bastante acalorada sobre o movimento feminista: de um lado afirmam que ainda há
um machismo opressor no Brasil, e de outro afirmam que feminismo e machismo
nada mais são que os dois lados da mesma moeda.
Respondendo às feministas: não, eu não acho que ainda exista
machismo opressor no Brasil. Existe sim machismo, mas, uma vez que a
constituição e as leis definem direitos e deveres iguais entre gêneros e
respalda a mulher em todos os sentidos, aquele machismo opressor de outros
tempos não existe mais. Apesar, é claro, que ainda existe em muitos países
mundo afora.
Agora, respondendo aos críticos das feministas: não,
machismo e feminismo não se equivalem. Essa confusão é comum porque falamos
muito em machismo e feminismo, mas nunca abordamos o femismo e o masculinismo.
O femismo (este sim) e o machismo são os dois lados de uma moeda chamada
sexismo (para simplificar, não abordarei aqui o sexismo contra identidade/orientação
sexual). O Sexismo é a corrente de pensamento que visa privilegiar um gênero em
detrimento do outro. Como os nomes sugerem machismo é a crença que o homem deve
ser privilegiado e o femismo é a crença que a mulher deve ser privilegiada. Um
exemplo de pensamento machista é aquele, segundo o qual, homem que fica com
várias mulheres é pegador, e mulher que fica com vários homens é vagabunda. Do
outro lado, um exemplo de femista clássico é a mulher que quer ganhar tanto
quanto os homens mas ainda assim quer ser “bancada” pelo parceiro.
É interessante notar que com bastante freqüência machismo é
tido como sinônimo de sexismo, o que é muito ruim, pois joga nas costas dos
homens todos os males do sexismo. Evidentemente que, colocado numa perspectiva
histórica, os homens tiranizaram muito mais do que foram tiranizados. O que não
faz da colocação menos errada.
O movimento feminista, bastante conhecido, luta por direitos
iguais entre sexos e pelo fim de padrões que oprimem a mulher. O masculinismo nada
mais é que a contraparte masculina do feminismo. São exatamente a mesma coisa,
só que um é visto pela ótica masculina e outro é visto pela ótica feminina.
Esses movimentos de luta por igualdade e pelo fim de padrões opressores, dos
dois lados, fazem parte de algo maior chamado sexualismo.
O Sexualismo abrange muitas coisas, como sexo, erotismo,
reprodução, e o mais importante para esta discussão, identidade e papeis de
gênero, e é nesse contexto que masculinismo e feminismo se encaixam dentro do
sexualismo. (novamente excluirei do debate tudo que tenha relação com
identidade/orientação sexual com o intuito de não fugir do escopo de discussão
proposto).
À primeira vista o masculinismo parece ser uma idéia
estranha, idiota até, pois, afinal, os homens sempre foram os opressores e
portanto não tem pelo que lutar. Um pensamento bastante ingênuo eu diria.
Quer um exemplo de dever (no sentido legal) exclusivamente
masculino? Alistamento militar obrigatório. Ora, ou todos somos obrigados, ou
nenhum de nós o é.
Um padrão opressor? “Homem não chora”. Parece besta, mas
segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), homens são muito mais suscetíveis
a doenças causados por estresse. Isso porque homens precisam ser sempre fortes
e providos de um equilíbrio emocional inabalável. Se por algum motivo chora ou
demonstra demais seus sentimentos, isso é tido como fraqueza.
Não é porque existem mais injustiças de um lado, que não há
injustiças do outro.
As reivindicações feministas são bastante conhecidas,
importantes e justas. Entre elas: valorização da mulher no mercado de trabalho;
autonomia sobre seu corpo; fim da violência doméstica; entre muitas outras.
Neste ponto da argumentação haverá aqueles que suscitarão:
“Então homens e mulheres devem ser iguais em tudo? Usar as mesmas roupas, ter
os mesmos hábitos e exercer os mesmos papeis na sociedade?”.
NÃO!!
Os sexualistas reconhecem que homens e mulheres não são
perfeitamente iguais, e diante do imenso arcabouço empírico - cientifico que
temos, não admitir isso é burrice. Nesse momento tenho que fazer um parêntese
para explicar algo mais amplo.
Falando agora não apenas de gênero, e sim de tudo que tange
a sociedade. O nosso problema não é identificar e criar padrões sociais, e sim
impedir/não admitir que haja exceções aos padrões. Os padrões são necessários e
inevitáveis, mas precisamos tomar cuidado para que não se tornem padrões
absolutos, pois estes são necessariamente opressores.
Homens e mulheres têm incontáveis diferenças físicas,
fisiológicas e mentais , que evidentemente influenciam em seus hábitos, maneira
de pensar e desempenho em determinadas tarefas. A sociedade não precisa ser
hipócrita e ignorar isso, mas precisa aceitar como perfeitamente normal e
aceitável quando surgirem exceções (e elas surgirão). Masculinidade e
feminilidade podem ser muito saudáveis desde que respeitem as individualidades
de cada um. Respeitando a liberdade alheia, ninguém deve ser privado de fazer
aquilo que tem vontade ou agir de modo que se sinta mais confortável.

Portanto, ao contrario do que se possa imaginar devido à luta por direitos equânimes e pela extinção de padrões opressores, o sexualismo valoriza e exalta as diferenças entre gêneros tal qual o sexismo. A diferença é que, enquanto o segundo consiste numa guerra dos sexos sem fim, onde homens tentam puxar para si direitos e empurrar deveres, e mulheres o inverso, o primeiro propõe um encontro de interesses que respeite as partes e os indivíduos. Enquanto um diverge, o outro converge.
Depois disso tudo posto, não posso deixar de comentar que há
muitas femistas por ai se passando por feministas, e muitos masculinistas sendo
injustamente acusados de serem machistas. Por isso é sempre bom nos atentarmos
muito mais aos argumentos do que aos rótulos.
Estamos rodeados de machistas e femistas enrustidos. Porém,
há aqueles, mais honestos, que defendem o sexismo de maneira consciente, o que
implica uma visão de mundo diferente e que deve ser respeitada. Mas é
importante pontuar que uma mulher que apresenta comportamento femista está
autorizando os homens a serem machistas com ela, e os machistas estão
autorizando as mulheres a serem femistas. Sexismo é um “jogo” de dominação e
dominado. Se hoje você é o opressor não pode reclamar se amanhã for o oprimido.
Apesar disso, o sexualismo ganhou muito espaço e tende a
ganhar ainda mais. Essa deve ser a tendência num mundo que desde o iluminismo é
cada vez mais libertário, apesar dos percalços e retrocessos no meio do
caminho. É difícil dizer hoje, se vivemos numa época predominantemente sexista
ou sexualista, mas é certo que numa sociedade que preza cada vez mais a
igualdade, o pensamento crítico e racional, o empirismo e a ciência,
posturas filosóficas como o sexismo terão cada vez menos espaço.
Muito bom, Soneca! Estou lendo em 2013 e o texto continua atualíssimo.
ResponderExcluirPassar por uma rua escura sozinha, ser chamada de gostosa e ser ameacada de abuso sexual nao e opressivo?
ResponderExcluirAh meu bem, voce nao e mulher, voce nao sabe o que e se sentir impotente so por ser do sexo feminino. Voce sendo mulher, se torna vitima e nao pode fazer nada. Numa rua sozinha, voce e obrigada a abaixar a cabeca e aceitar os insultos e a opressao.