Algo que me fascina nos dias de hoje, de redes sociais e respostas em tempo real, é que nada é unânime, qualquer pauta gera um argumento em contrário quase instantaneamente. Creio que o contraditório e a dialética nunca estiveram tão vivos no debate público. Nem mesmo a brutalidade de um atentado terrorista, como sofreu a Charlie Hebdo, anistia a linha editorial da revista de ser criticada poucas horas depois.
Analisei várias capas da revista, algumas achei bastante interessantes e corajosas, outras são aparentemente pouco construtivas e ofendem de maneira gratuita, e digo "aparentemente" porque meu conhecimento sobre o contexto das charges é limitado, e posso ter deixado escapar alguma interpretação. Também é importante frisar que a revista continha não apenas charges, mas também reportagens e colunas e até o momento só se repercute as charges, o que traz uma visão míope sobre a revista.
Um texto que repercutiu bastante nos últimos dias foi o "Je ne suis pas Charlie" do blog Em Tom de Mimimi. O autor acusa a revista de produzir charges que reforçam esteriótipos que fomentam a xenofobia e o racismo. Em um trecho ele diz "Mas é fato que o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a justiça francesa tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso". Tratar fundamentalistas islâmicos como "café com leite", como gente que não teria capacidade de entender que matar alguém por uma caricatura é uma desproporção, me parece muito mais racista do que qualquer charge que tenha visto da revista.
Independentemente de se a revista extrapola limites ou não (ou se tais limites existem), penso que colocar o dedo em riste para apontar possíveis excessos da linha editorial quando nem bem os corpos das vitimas esfriaram é um erro, uma inversão de prioridades.
É verdade que racismo e xenofobia são problemas muito sérios que afetam os muçulmanos que vivem na Europa. Também é verdade que há dois pesos e duas medidas. Ontem, dia 10/01/2015, uma menina de 10 anos foi usada como "homem-bomba" pelo Boko Haram em um atentado que vitimou ela e outras 19 pessoas em um mercado na Nigéria, mas provavelmente essa não será a pauta do Fantástico de hoje. Terrorismo no mundo "civilizado" choca, emociona, revolta, no mundo "não-civilizado" de tão corriqueiro se torna banal.
Um fato: os principais grupos terroristas da atualidade são ligados a questões no Oriente Médio e tem motivações politicas e religiosas (sim senhor!). Tais grupos surgiram sob influência de seitas Sunitas Wahhabitas ou Xiitas, não há como desconsiderar o viés religioso nessa questão.
Outro fato: as principais vítimas desses grupos não são ocidentais ou a sociedade judaico/cristã, e sim seguidores de outras vertentes mais moderadas do islamismo. O terror no mundo hoje é muito menos um embate entre Ocidente X Oriente Médio e muito mais uma questão de grupos fundamentalistas islâmicos tiranizando outras vertentes do islamismo.
Defendo o Humanismo e o Secularismo aqui e em qualquer lugar do mundo, e não é em nome do Multiculturalismo e dos Usos e Costumes que abro mão desses valores que considero pilares fundamentais da sociedade moderna. É preciso ser dito que hoje os principais violadores de Direitos Humanos e os maiores fomentadores teocracias são o Wahhabismo, através de grupos como a Al Qaeda, Estado Islâmico, Boko Haram ou o Califado genocida da Arábia Saudita, e o Xiismo, através de grupos como o Hezbolla e Repúblicas como o Irã.
Tais grupos promovem mortes em massa, tortura, mutilação genital, perseguição politica e religiosa, violência sexual, entre outros. Não tem como relativizar isso. Criticamos tanto Israel pelo jeito que lida com a questão da Palestina, justamente diga-se, mas esses caras cometem atrocidades muito piores.
Atentados no mundo "civilizado" colocam o terrorismo na pauta do dia e nos traz possibilidade de discutir os problemas extremamente complexos do Oriente Médio. Diante dessa possibilidade o que nós estamos fazendo? Estamos discutindo (pela enésima vez) o limite do humor. Com todo o respeito, foda-se o limite do humor! Isso a gente volta a discutir na próxima piada infeliz do Danilo Gentili.
Por isso eu apoio a campanha Je Suis Charlie, porque eu acho mais importante neste momento discutir sobre assassinatos e violações de Direitos Humanos do que se uma caricatura ficou ofensiva ou não.
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